Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Ivo Pitanguy. “Nada substitui a beleza natural”

  • 333

Nuno Fox

Em 2012, então com 86 anos, o brasileiro sinónimo da cirurgia plástica moderna passou por Lisboa e falou em exclusivo ao Expresso sobre a sua vida. Um dia depois da notícia da sua morte, recorde essa entrevista de Ivo Pitanguy

Ivo Pitanguy, o mais famoso cirurgião plástico do Brasil, passou por Lisboa (em 2012) para se encontrar com 250 dos seus ex-alunos do mundo inteiro e discutir novas técnicas e métodos da cirurgia estética. Na verdade, este encontro, que acontece anualmente em várias cidades do mundo, organizado por uma associação que tem o seu nome, é o culto a Pitanguy. No Hotel Pestana Palace, onde decorreu a conferência, o homem que democratizou as plásticas, não teve descanso. Todos quiseram um autógrafo, uma fotografia, a atenção do mestre: "Um Miguel Ângelo das plásticas", como diria uma fã pendurada no seu braço, com o telemóvel pronto a eternizar aquele momento.

Antes de conversar com o Expresso, o cirurgião desejou afastar-se da confusão. Quis comer peixe num "lugar simples para conversar". Mas o homem que, durante meio século, foi sinónimo de cirurgia plástica, não gosta de falar de si nem dos bastidores que tornaram Pitanguy o grande Pitanguy.

Aos 86 anos reserva-se ao lugar dos observadores, cita autores clássicos, quer falar de cultura e de pequenos episódios que lhe vêm à memória. Divaga. Sentado à mesa, a conversa começa com uma história. "Quando era rapaz, toda a gente fumava e eu fumava também. Para não chegar a casa a cheirar a tabaco soprava para a parede. Dizia-se que a cal absorvia o cheiro.

Sabe o homem do anúncio da Marlboro? O cowboy em cima do cavalo com o chapéu? Um dia apareceu na clínica, com aquele rosto rosto quadrado. Era um ícone, e não podia gastar-se.

Perguntei-lhe o que é que queria fazer e ele encolheu os ombros: 'já que insistem'. Na verdade, ele não queria fazer nada. A equipa de publicidade é que achava que ele tinha de fazer alguma coisa. O rosto dele valia uma fortuna."

Quando começou a trabalhar em cirurgia plástica os homens não queriam operar-se. É verdade. Antigamente um homem tinha de ter uma motivação muito forte que não passava pela vaidade. Tudo isso se alterou.

Fazer plásticas era uma futilidade?
Em meados dos anos cinquenta, quando comecei a exercer esta profissão, só se praticava cirurgia reparadora, mais associada às deformidades. Consertavam-se as feridas, mas ficava a cicatriz. Não se fazia cirurgia de detalhe. Eu considerava exatamente na mesma proporção a deformidade física e o sentimento de desconforto que alguém possa ter com a sua imagem. Nos meus diagnósticos procurei ter uma atitude simultaneamente reparadora e estética. Acredito que essa foi a coisa mais importante que fiz como cirurgião plástico.

Como fez essa mudança de paradigma?
Foi no início da década de sessenta, na Santa Casa de Misericórdia, com uma enfermaria que montei para classes mais desfavorecidas. Formei uma equipa de mais de 40 médicos. Ainda hoje, todas as quartas-feiras, oriento cirurgias de modo a que pessoas mais pobres, que sofrem deformidades, sequelas, tumores ou queimaduras, possam ver minorados os desconfortos com a sua imagem para reencontrarem uma existência normal. Toda a gente tem direito ao seu bem-estar. Anualmente realizamos mais de mil operações.

A banalização das plásticas, acessíveis ao cidadão comum, é fruto do seu trabalho. Sente-se responsável por essa revolução?
Seria falta de modéstia da minha parte. Essa banalização quem a operou foram os media, os heróis de hoje nascem aí. A consciência que tenho é de que houve em mim um esforço para nunca deixar de ser médico. A obrigação de operar é um erro. Quando comecei a trabalhar, tinha de explicar o que era a cirurgia plástica. Agora tenho de explicar o que não é.

E o que não é?
A cirurgia plástica não é um paliativo. Depois há tipos físicos que não se podem mudar. Algumas pessoas imaginam milagres, como o sonho da poção contra o envelhecimento. Esse vender de alma não podemos fazer.

Ausculta os desejos e os desconfortos mais profundos das pessoas com o seu corpo. Há um lado psicanalista no seu trabalho?
O ser humano sempre foi muito intranquilo. No meu trabalho procuro entender como o paciente se vê. Muitas vezes as pessoas podem estar a precisar mais de uma conversa do que de uma cirurgia. Quando percebo que alguém se vê de uma forma errática, que não sabe localizar a sua deformidade, nem a sua insatisfação com a imagem, é porque está sublimando outros sofrimentos. Nos homens, por exemplo, é frequente aparecerem com um desconforto com o seu nariz.

Esse desconforto pode revelar o quê?
O nariz e o falo estão muito ligados. Se um homem procura um cirurgião para corrigir uma pequena deformidade nasal, na verdade pode estar a esconder um problema relacionado com a sua sexualidade. Caso o médico não saiba avaliar bem este aspeto, até pode corrigir a deformidade física e a operação ficar bem feita, mas nunca irá corrigir o sofrimento psicológico. O cliente ficará sempre insatisfeito porque não resolvemos o seu problema.

Não há a tentação de querer sempre operar?
Se assim for, esse cirurgião é um mau médico. É importante que o médico procure não errar.

Não acontece a todos?
Pode acontecer. Mas a experiência não é uma repetição de erros. Não deve ser.

Veem-no como se fosse um mago?
Conhecem a lenda de Fausto? Somos candidatos à eternidade. Todos temos essa ilusão humana. Pensam que tenho a poção mágica.

Mas também há uma consciência maior do corpo saudável.
É verdade. Quando comecei a trabalhar a mulher era redonda, não se sabia muito sobre nutrição. Pouca gente ia ao ginásio. Hoje, o primeiro padrão de beleza está associado ao corpo saudável. Essa consciência foi uma grande conquista, atravessa todas as classes sociais, deixou de ser uma coisa só para as senhoras ricas. Quando estou na Santa Casa vejo as pessoas mais simples quererem estar bem no seu corpo.

A cirurgia estética não continua a ser sobretudo para pessoas com dinheiro?
É evidente. Mas quando comecei era mais. Todo o trabalho que desenvolvi teve essa preocupação, de abranger o maior número de pessoas independentemente da sua classe.

Tem sempre a preocupação de referir o seu trabalho junto dos mais desfavorecidos. Mas não foram estes que o tornaram famoso...
É um grande engano. O que me fez famoso é o conjunto de tudo o que fiz. Todos os ícones são temporários. Por cada pessoa conhecida que operei, passaram por mim 20 desconhecidas.

O que fez Pitanguy ser Pitanguy não foi a fama de operar as estrelas de cinema, os modelos, as figuras sociais?
Sem dúvida que foi um dos fatores. Mas isso tem um lado mau. Se uma dessas pessoas conhecidas for mal operada o impacto é enorme.

A beleza pode ser construída? Já não é aquela coisa rara, de nos tirar o fôlego, como eram as caras e os corpos das divas do cinema antigo?
Hoje tudo está diluído num excesso de beleza construída. Há a possibilidade das pessoas se aproximarem dessa beleza natural, mas nada substitui a beleza natural.

A cirurgia estética pode criar um estado de beleza?
Perfeitamente. Se a pessoa tiver uma estrutura equilibrada e faltar um detalhe para corrigir, como uma orelha para a frente ou um nariz grande, podemos reequilibrar aquele rosto. Uma cliente minha, que é protetora de testemunhas na Colômbia, contou no seu livro autobiográfico que em1981 corrigiu uma pequena deformação no nariz na minha clínica. Mal voltou à Colômbia, após a intervenção, muitas outras mulheres quiseram fazer a mesma cirurgia para ficarem tão bonitas como ela. Era um grande engano. Porque ela já era linda.

Cita muitas vezes Stendhal: "A beleza não é senão uma promessa de felicidade". E para si o que é?
A beleza tem estrutura própria. Invade e penetra, como uma boa música. E ocupa o momento de forma tão inesperada que você respeita. Há qualquer coisa de impressionante num ser muito belo. Impressionante. Emana uma alegria só de ver, é uma força de vida.Um ser muito belo não pode estar trabalhado nem muito preparado. Tem de ser uma surpresa.

Que mulheres foram para si essa surpresa?
Ah, não sei. Não vou dececionar ninguém. Felizmente conheci tantas que essas imagens diluíram-se dentro da minha alegria de viver. Quando era garoto, eu e os meus amigos achávamo-nos namorados das grandes artistas do cinema. Cada um escolhia a sua. A minha era a Ingrid Bergman. Tinha uma beleza muito espiritual, que se emanava para lá da forma física. Nunca cheguei a conhecê-la.

Sophia Loren, Farah Diba, imperatriz do Irão, Jacqueline Kennedy, a cineasta alemã Leni Riefenstahl e tantas outras mulheres famosas foram operadas por si. Não sentia uma grande responsabilidade por retocar tais figuras?
Logo no início da minha carreira tive a sorte de conhecer pessoas simples, que me deram a força da simplicidade para lidar com todo o mundo. Quando se está diante de um médico quem deve estar nervoso é o paciente, não o médico.

Nuno Fox

Um aluno seu disse num programa da Globo que você era um génio. Estava para a cirurgia plástica como Newton e Galileu estiveram para a astronomia. Revê-se no elogio?
Deve ser um louco simpático! Ter um grande entusiasmo por alguém é bonito. Na minha escola criámos um grupo de pessoas que se gostam e respeitam. O respeito é importante. É fundamental não sermos destrutivos.

Formou mais de 500 cirurgiões de 42 países, publicou mais de 800 artigos científicos. Tem muita atenção ao seu legado...
Sempre tive essa preocupação de passar o conhecimento. Graças a Deus não parei. Continuo a dar aulas e a divulgar técnicas. O importante é que isto continue.

Quais são os avanços tecnológicos e cirúrgicos mais recentes?
Não falo de técnicas, prefiro não entrar em detalhes. A cirurgia plástica é uma especialidade da Medicina como qualquer outra. Avança como avança a Medicina.

A cirurgia de aumento mamário ainda é o que as mulheres mais procuram?
Não sou muito bom em estatística. Depende da idade, mas procuram muito. A boa forma do seio para a mulher sempre foi fundamental. Antigamente não havia próteses e a procura de os aumentar era muito dolorosa. Injeções de parafina, silicone, mil obrigações que fizeram muito mal à saúde das mulheres. Conseguir um peito grande, bonito e natural é muito difícil, mas hoje com os tratamentos estéticos tornou-se banal ver mulheres magras e peitudas. Já para o pénis não houve grandes renovações.

Ainda há pessoas que só querem ser operadas por si?
Certas pessoas, sim. Com essas sinto-me na obrigação de estar todo o tempo no bloco de operações. Mas já não opero. As pessoas sabem que atualmente estou mais a conduzir a clínica.

Nuno Fox

Tem 86 anos. Continua a trabalhar na clínica, a dar aulas no instituto e a viajar pelo mundo para participar em conferências. A idade não o fez abrandar?
As pessoas chegam a uma fase e afastam-se. É natural. O que acho bonito é quando isso passa diluído e não se nota. A minha vida é muito organizada. Tenho quatro filhos, cinco netos e cinco cachorros. Moro com a mesma mulher adorável há mais de cinquenta anos numa casa na Gávea, no meio da mata, desenhada pelo grande arquiteto Sérgio Bernardes. A casa está muito bem montada para me induzir a fazer alguma coisa. Temos um campo de ténis, uma piscina e uma linda professora de ginástica que vem três vezes por semana. Logo às oito da manhã caminhamos e fazemos ginástica. Em minha casa tudo é muito suave e delicado. Gosto muito de pintura e tenho uma boa pinacoteca: um Max Ernst, um Cortinar, um bonito Picasso... [Mostra o telemóvel com as fotografias da casa, dos quadros e dos cinco cachorros Rotweiller].

No seu escritório há um desenho de Salvador Dalí que lhe é dedicado.
É verdade. Desenhou "Pour Monsieur Pitanguy". O "P" do meu nome é uma espada e eu estou montado num cavalo. Aquela espada está em tensão e o cavalo levanta uma pata. Num só traço fez um retrato simbólico do que eu faço.

Contou que a sua mãe era muito ligada às artes. Foi com ela que adquiriu o sentido estético?
Acredito que sim. Era uma mulher bonita que me ensinou o belo. Sobretudo, ensinou-me a não venerar as amarguras da vida. Em minha casa fui criado no respeito pela vida do outro.

Cresceu em Belo Horizonte, onde o seu pai era um médico de cirurgia geral, mas não trabalhou com ele. Entretanto foi para o Rio de Janeiro.
A vida leva a coisas não planeadas. Quando entrei no exército, como tinha o pé chato fui destacado para a cavalaria no Rio. Entrei por concurso num hospital de urgência, para fazer cirurgia geral, e notei que faltavam algumas coisas no processo da cirurgia. Naquela época chegavam muitos casos de pessoas desfiguradas pela navalha. Nos casos de vingança era hábito deixar uma marca para estragar o rosto. Os portugueses, por exemplo, nas brigas costumavam morder a orelha até a rasgar. Cheguei a correr atrás de um "cara" para recuperar a orelha e a recolocar num doente. Foi uma coisa impressionante.
Eu conseguia consertar, fechar a ferida, mas ficava uma cicatriz muito feia. Senti que faltava alguma coisa no meu saber. Na época não havia um ensino de cirurgia plástica, nem no Brasil nem na Europa.

Foi por isso que foi para os Estados Unidos
Tinha 22 anos, queria melhorar e não tinha como aprender. Fui para Cincinnati, no final dos anos 40, com uma bolsa de dois anos para trabalhar como cirurgião-residente no serviço do professor John Longacre. Foi o meu primeiro mestre. Tinha voltado da guerra na Inglaterra, onde tinha atuado como cirurgião reparador e com ele trabalhei em cirurgia plástica e reparadora numa época em que a área não estava na moda. Mais tarde, quando já tinha montado a minha clínica no Brasil, recebi o convite de Marc Iselin para ir para França. Ele era um dos criadores da cirurgia de mão, grande referência no atendimento aos mutilados da II Guerra Mundial. Deixei e fui para Paris. Convivi com muita gente interessante.

Foi a cantora e atriz francesa Juliette Gréco que lhe abriu essa porta. Como se conheceram?
Sentei-me ao lado dela na minha viagem de avião para Paris, por coincidência, e chegámos à conclusão de que o namorado dela era meu amigo. Ela já era uma musa e ficámos amigos de imediato. Em Paris apresentou-me às pessoas do seu mundo: Jean Genet, Sartre, Simone de Beauvoir, todo aquele grupo do pós-guerra que se encontrava no Café de Flore e no Les Deux Magots. Era uma época muito aberta ao conhecimento e eu tinha uma cultura humanística muito estimulada. Para mim, França era o berço e Paris um sonho. Ganhava pouco mais de cem dólares, mas tinha a resistência dos vinte e poucos anos e deslocava-me de motocicleta por toda a cidade.

Na sua autobiografia escreveu: "Cada qual tem um momento na vida realmente importante que modifica o curso do seu destino". No seu caso foi um dramático incêndio no Gran Circo Norte-americano, em Niterói, em 1961, com um número assustador de vítimas: 2500 feridos e 500 mortos. Foi esse o momento que o fez ver a sua atividade como uma missão?
Criámos um serviço de atendimento na enfermaria da Santa Casa que se estendeu por mais de seis meses. Lembro-me de que na época ainda pairava a sombra da bomba atómica e dizia-se, textualmente, que no caso de uma bomba só se deveriam tratar as pessoas muito feridas. Isso quer dizer que se deveria abandonar parte da população. Em Niterói tivemos de gerir uma situação que nunca se tinha vivido. Foi até hoje a maior catástrofe em recinto fechado, das coisas mais impressionantes que vivi. Era um circo, havia 500 crianças queimadas. Mostrámos ao mundo social a importância da cirurgia plástica e isso foi decisivo.

Há mais de 30 anos comprou uma ilha luxuriante no arquipélago de Angra dos Reis, chamada Ilha dos Porcos Grandes, onde preserva diversas espécies em extinção. Um santuário natural que é o seu refúgio.
O convívio com a natureza é vital para a minha existência. Desde criança sempre gostei muito dos bichos. Pedia ao papai para os clientes lhe trazerem bichos e no quintal da casa em Belo Horizonte sempre tive todo o tipo de animais. Eu, que sou um homem do mar, quando tive a possibilidade de comprar essa ilha, totalmente virgem, fiquei sondando o que poderia lá fazer sem agredir a natureza. Não quis fazer nada de exótico. Quis repovoar aquela região e trazer os bichos que teriam lá vivido anteriormente. Toda a espécie de canoro e de pássaros coloridos, tico-tico, sabiás, rolinhas, araras e tucanos e, também, alguns animais não predadores, como antas. Tenho sete antas na ilha. Procurei um ecossistema em que todos pudessem conviver.

Com que frequência a visita?
Sempre que posso. Durante vinte e poucos anos usava um aviãozinho como uma camioneta onde levava mulher e filhos. Agora, cada um tem a sua vida e vou duas a três vezes por mês com a minha mulher. Gosto muito do mar e de mergulhar e ainda pego os meus peixinhos. Existe uma frase, dita por Vespúcio, em 1502, quando por ali passou de barco: "Se na terra houvesse um paraíso não seria muito longe daqui".

A sua vida descrita por si parece um desenho harmonioso...
Nem tudo é harmonioso nesse desenho. Tive os meus distúrbios. Há muitos anos, na África do Sul, quase morri, mergulhando debaixo de um barco. Sofri uma aparatosa queda de esqui que ainda me limita os movimentos. Mas esse foi um tombo benéfico: graças a ele fiz uma ressonância magnética e descobri um aneurisma. Há quatro anos, na minha ilha, estive de novo muito próximo da morte com uma insuficiência na válvula pulmonar aguda com uma pneumonia. Quando você passa por essas experiências, aprecia mais o momento de estarmos aqui respirando o ar puro, conversando sobre a vida como se ela fosse continuar infinitamente.

  • Morreu o “papa” da cirurgia estética

    Ivo Pitanguy ficou conhecido por ser o cirurgião estético de muitos famosos, brasileiros e de outras nacionalidades, mas também pela vertente social do seu trabalho, operando ao longo da carreira pessoas sem recursos