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Irão executa cientista nuclear regressado de alegado cativeiro nos EUA

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Shahram Amiri chegou a Teerão a 15 de julho de 2010, um ano depois de ter sido alegadamente raptado pela CIA na Arábia Saudita

Getty Images

Porta-voz do Ministério da Justiça confirmou que Shahram Amiri foi enforcado por revelar segredos do Estado. Cientista sempre alegou que foi raptado na Arábia Saudita pela CIA em 2009. EUA garantem que o homem viajou até ao país por sua livre vontade

Um cientista iraniano que trabalhou durante vários anos no programa nuclear do seu país e cujo desaparecimento na Arábia Saudita em 2009 e consequente regresso a Teerão um ano depois estiveram sempre envoltos em mistério foi executado no seu país-natal na semana passada.

De acordo com membros da sua família a dois canais de televisão estrangeiros de língua persa, o especialista em isótopos radioativos da Universidade Malek Ashtar, em Teerão, que é afiliada do Ministério da Defesa, foi executado no início da semana passada num local desconhecido.

Citado pela agência Tasnim, o porta-voz da Justiça iraniana, Gholam-Hossein Mohseni-Eje’i, confirmou no domingo que Amiri foi enforcado após o Supremo Tribunal ter dado luz verde à sentença de morte ditada por um tribunal menor por alegadamente ter revelado segredos de Estado ao inimigo. "Esta pessoa obteve informações ultra secretas, estabeleceu contactos com o nosso inimigo número um, a América, e passou-as às mais cruciais agências secretas do inimigo do nosso país", disse Mohseni-Eje’i.

A versão que o cientista sempre defendeu, e que foi inicialmente corroborada pelo então ministro dos Negócios Estrangeiros, Manouchehr Mottaki, conta outra história. Amiri dizia que, durante uma peregrinação a Meca em 2009, foi raptado pela CIA e levado para os Estados Unidos, tendo sido libertado um ano depois, em julho de 2010, altura em que regressou a Teerão.

Em março desse ano, a ABC News noticiou que o cientista tinha desertado para os EUA integrado num programa da secreta americana que tinha como objetivo minar o programa nuclear iraniano. Durante o ano que esteve naquele país, Amiri apareceu numa série de três vídeos: no primeiro, divulgado pela televisão estatal iraniana, o cientista dizia ter sido raptado em Medina numa operação conjunta da CIA e das autoridades sauditas; no segundo dizia ter decidido dar continuidade aos seus estudos nos EUA e num terceiro alegava que estava fugido da agência secreta norte-americana.

Pouco depois, Amiri apresentou-se na secção iraniana da embaixada do Paquistão em Washington, pedindo para regressar ao seu país. Em julho de 2010, foi recebido em Teerão como um herói e apresentado pelos media como alguém que escapara ao cativeiro norte-americano.

Antes do seu regresso ao país-natal, a então secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, disse que Amiri tinha estado no país "de sua livre vontade" e que tinha total liberdade para ficar ou partir. Quando chegou a Teerão, o "Washington Post" noticiou que o cientista tinha alegadamente recebido cinco milhões de dólares (4,5 milhões de euros) da CIA para partilhar informações sobre as atividades nucleares do Irão. Em 2012, foi noticiado que tinha sido condenado a dez anos de prisão no Irão, uma versão desmentida no domingo pelo porta-voz da Justiça, que garante que o cientista foi condenado à morte logo após o seu regresso há seis anos.

Ao "The Guardian", Mark Fitzpatrick, diretor do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS) para o desarmamento e a não-proliferação nuclear disse que, "quando Amiri decidiu regressar ao Irão, devia ter-se apercebido de que ia enfrentar tempos duros" mas reconheceu que nem ele próprio nem outros analistas antecipavam este desfecho.

O mesmo jornal aponta que foi a divulgação dos emails privados de Clinton no ano passado pelo Departamento de Estado que contribuiu em larga medida para a execução de Amiri, pelo facto de o cientista surgir citado numa série de mensagens da então chefe de diplomacia norte-americana, onde esta parece confirmar que ele desertou de sua livre vontade.

"Seja pelos seus próprios erros ou por ter sido vítima das negras artes das secretas ocidentais, amiri foi uma vítima de um duelo nuclear e da sua perversidade", defende Ali Vaez, do International Crisis Group, citado pelo jornal britânico.