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Adeus, imperador? Aos 82 anos, Akihito do Japão quer abandonar o cargo

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TORU YAMANAKA

Se o Parlamento nipónico aceder ao desejo de abdicação do monarca, o país irá atravessar maior transformação política desde o final da II Guerra Mundial

Será talvez o desejo mais mal guardado da história recente do Japão mas esta segunda-feira foi finalmente confirmado pelo protagonista da história: num discurso transmitido na televisão, o Imperador Akihito deu a entender que pretende abandonar o poder, um desejo que depende, em última instância, da vontade dos líderes eleitos do país.

Num discurso marcado por declarações vagas, no qual discutiu o peso dos seus 82 anos e falou em crescentes limitações físicas, Akihito foi ainda assim mais direto do que nunca: "Estou preocupado que se torne cada vez mais difícil para mim cumprir os meus deveres como Imperador simbólico", disse no discurso pré-gravado de 10 minutos, que foi transmitido esta manhã por vários canais nipónicos.

Se o seu desejo de abdicação for atendido pelo Parlamento e pelo Governo do Japão, tal deverá redefinir a família real nipónica, a monarquia hereditária mais antiga do mundo, potenciando o que o "New York Times" diz ser a maior transformação política no Japão desde a II Guerra Mundial.

Apesar de o Imperador ter apenas poder simbólico, o abandono do posto pode fazer ressuscitar um longo contencioso sobre se as mulheres devem ou não ser autorizadas a ocupar o trono. Na lei nipónica é definido que um imperador ocupa o cargo para o qual é desginado à nascença até à sua morte, pelo que o Parlamento terá de alterar a Constituição se quiser autorizar Akihito a abdicar.

Desde julho que há rumores de que o Imperador, que tem estado a receber tratamento para um cancro e sofre de problemas cardíacos, pretende passar o testemunho ao príncipe herdeiro Naruhito, de 56 anos, introvertido como o pai e apostado em manter a monarquia e a política separadas.

Numa curta resposta à mensagem transmitida esta manhã na televisão, o primeiro-ministro Shinzo Abe sugeriu que o seu Governo está disposto a alterar a lei nipónica, embora não tenha assumido para já qualquer compromisso nesse sentido. "Considerando a idade de Sua Majestade, o peso dos seus deveres oficiais e das suas ansiedades, devemos analisar cuidadosamente o que pode ser feito", declarou Abe.

A história do Japão e o seu calendário único têm sido definidos pelos sucessivos reinados ao longo de quase 2700 anos, com base na árvore genealógica oficial da monarquia: 2016 é o 28.º ano de Akihito no trono e assim que for substituído a data passará a ser o Ano Um de uma nova era, tal como aconteceu em 1989, quando a morte do seu pai, Hirohito, no 64.º ano de reinado coincidiu com a Guerra Fria e com um boom económico que redefiniram o rumo do Japão na era moderna.

Desde que o país foi derrotado na II Guerra Mundial, um conflito no qual participou em nome de Hirohito, a família real nipónica está proibida de se intrometer na política, facto pelo qual o atual Imperador só pode dar a entender que pretende abdicar e não pedir diretamente ao Parlamento que altere a lei em vigor.

Logo a seguir ao final da Guerra, o pai de Akihito chocou a nação ao declarar que não é um deus, enterrando décadas e décadas de propaganda governamental e séculos de tradição. Na nova Constituição imposta pelos EUA e adotada nessa altura, o Imperador perdeu todo o seu poder político e foi relegado para um cargo puramente simbólico.