Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Tribunal turco emite mandado de captura contra Fethullah Gülen

  • 333

Depois de uma aliança de vários anos, movimentos islamitas de Gülen (esquerda) e de Erdogan cortaram relações e o imã fugiu para os EUA em 1999

OZAN KOSE

Rival de Erdogan, que vive emigrado no estado norte-americano da Pensilvânia desde 1999, continua a rejeitar as acusações de ter sido ele a organizar o golpe militar falhado de 15 de julho contra o Governo turco. EUA mantêm que só o extraditam para Ancara com base em provas e não em suspeitas

Um tribunal turco emitiu um mandado de captura contra Fethullah Gülen, o líder islamita rival do Presidente Recep Tayyip Erdogan, que é acusado pelo Governo da Turquia de ter orquestrado o golpe falhado que, há duas semanas, deixou mais de 270 pessoas mortas em Istambul e na capital, Ancara.

De acordo com a agência estatal turca Anadolu, numa notícia avançada na quinta-feira à noite, o tribunal de Istambul emitiu um mandado de prisão contra o imã exilado nos EUA por ter "ordenado a tentativa de golpe de 15 de julho", com base nas acusações do Governo de que o antigo aliado de Erdogan foi o cérebro da operação e que, por isso, os EUA devem extraditá-lo. "Este mandado de captura contra Gülen é mais um passo legal simbólico e não vai ter efeitos práticos, porque ele não está na Turquia", explicou o correspondente da Al-Jazeera em Istambul.

O líder religioso, que Erdogan acusa de liderar uma organização terrorista com escolas e outros centros de recrutamento em mais de 100 países, continua a rejeitar as acusações do Governo turco, tendo já reagido ao mandato de captura. "Está bem documentado que o sistema de tribunais da Turquia não tem independência judicial, portanto este mandado é só mais um exemplo da força motriz do Presidente Erdogan, o autoritarismo e o afastamento da democracia", disse num comunicado citado pelo canal qatari.

O facto de um tribunal ter emitido um mandado de captura contra o imã, que vive exilado na Pensilvânia desde 1999, pode ser um sinal de que a Turquia está a preparar-se para fazer um pedido de extradição formal, o que deverá aumentar ainda mais as tensões diplomáticas com o seu maior aliado.

A administração norte-americana continua a recusar-se a extraditar Gülen enquanto não lhe forem apresentadas provas do seu alegado envolvimento na tentativa de golpe falhada, recusando-se a basear um processo desta natureza em "meras suspeitas" das autoridades turcas. Por causa disso, vários membros do Executivo turco têm acusado os EUA de envolvimento direto no golpe, ameaçando cortar relações com o aliado.

No rescaldo do golpe falhado em meados de julho, Erdogan lançou uma operação de detenções em massa de alegados gulenistas, simpatizantes do movimento e opositores do Governo. Cerca de 26 mil pessoas, sobretudo membros do Exército, já foram detidos e 70 mil outras pessoas foram suspensas dos seus cargos numa série de setores da função pública, da Educação ao ramo judiciário, e nos media.

Na quinta-feira, Erdogan renovou as promessas de encerrar todas as empresas e organizações ligadas ao movimento gulenista, dizendo que "não há dúvidas" de que a organização gerida pelo imã e infiltrada nos pilares da sociedade turca "está ligada a negócios mundiais".

"É talvez nisso que eles são mais fortes", disse o Presidente turco num discurso aos membros da câmara do comércio em Ancara. "Estamos determinados em romper totalmente com todas as ligações empresariais a este movimento, que tem sangue nas suas mãos". Nesse contexto, Erdogan prometeu manter a purga nas forças armadas turcas. "Depois de 15 de julho, a estrutura sorrateira da organização [gulenista] nas forças armadas começou a ser posta a nu. Aqueles que foram capturados para já são a ponta do icebergue. Mantemos os esforços para [capturar] os restantes".