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Os anjos de Wark (uma história feliz sobre os Jogos do Rio)

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Marcos Rodrigues Neves - conhecido como Wark Rocinha - foi um dos escolhidos para transportar a chama dos grandes Jogos do Rio. Começou por desenhar anjos na sua favela

Faltam pouco para Marcos Rodrigo Neves transportar a chama olímpica atravessando a Rocinha, a maior favela do Rio de Janeiro. É uma honra concedida a este artista de rua, mais conhecido por Wark Rocinha, em reconhecimento pelo trabalho que desenvolve há 14 anos e que salpicou de cor não só a favela onde cresceu, mas a cidade brasileira onde as paredes se tornaram espaços de arte e de intervenção social. No caso de Wark Rocinha, 31 anos, os anjos são a imagem de marca.

“É maravilhoso porque, através da figura do anjo, mantenho um diálogo com a cidade. Posso falar de amor, família, problemas sociais, política... posso falar de tudo”, disse o grafiteiro, ouvido pela “BBC”.

Os seus anjos de forma arredondada, coloridos e pintados com traços simples não nasceram por acaso. A escolha tem uma explicação geométrica e artística, conforme precisou o artista ao jornal “Globo”, em 2014.

“Na arte renascentista, o clero romano trazia para os locais religiosos imagens angelicais por grandes artistas como Leonardo da Vinci, Michelangelo, entre outros. Eu procurei traduzir em forma do estudo de Pitágoras, com pontos, retas, triângulos, quadrados e o perfil do círculo em movimento, traçando o Dez, que significa a perfeição divina, na face e auréola dos anjos”, explicou.

Ao longo dos anos, desde que começou a desenhar e pintar - primeiro num caderno, em jovem, e depois com a liberdade criativa permitida pelos espaços em branco, nas ruas - o trabalho de Marcos foi ganhando notoriedade. Mudou a forma como a sua arte passou a ser olhada, inicialmente encarada apenas como lixo urbano, a ponto de lhe ser possível atualmente viver dos seus grafitos.

“Continuo a preferir pintar nas favelas, onde vivi e onde a minha arte nasceu”, afirma: “Na favela o meu trabalho é livre, mas fora das suas fronteiras sou pago para pintar no interior das casas das pessoas mais ricas”.

Os anjos de Marcos ganharam ambientes mais requintados, desde cenários em hotéis de luxo no Rio a museus e galerias em exposições internacionais.

Há cerca de dez anos, o artista começou a dar aulas teóricas e práticas a jovens, na Rocinha. Diz, com orgulho, que alguns dos seus alunos são atualmente professores de arte, tatuadores e designers. Nas favelas mora muito talento, gosta de sublinhar, por isso criar uma escola de arte para crianças, bem no interior desses compllicados universos sociais, é um sonho antigo. “As aulas ajudam os alunos a despertarem para a ilustração, ativa a criatividade do aluno e a sua relação com a arte.”