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ANC em rota para “pior resultado eleitoral” desde o fim do apartheid

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Sean Gallup

Dois anos e meio depois da morte de Nelson Mandela, o partido do Presidente Jacob Zuma poderá perder controlo de grandes cidades sul-africanas, entre elas a capital, Pretória, nas eleições locais

Contados cerca de metade dos votos das eleições locais da África do Sul, disputadas ontem, o partido que governa o país desde 1994, o Congresso Nacional Africano (ANC), parece estar encaminhado para o seu pior resultado desde o fim do apartheid, noticia esta quinta-feira a BBC.

Apesar de já ter assegurado cerca de 50% dos votos, o número representa uma queda de mais de 10% em relação às últimas eleições municipais, há cinco anos. Já o seu principal rival, a Aliança Democrática (AD), tem mais de 30% dos votos, desafiando o poderio do ANC em grandes cidades do país, como a capital, Pretória, e urbes importantes como Joanesburgo e Porto Elizabeth.

Descontentes com a elevada taxa de desemprego no país e após sucessivos escândalos de corrupção em torno do Presidente, Jacob Zuma, os sul-africanos foram às urnas na quarta-feira para elegerem os seus representantes locais. Antevê-se duro castigo ao ANC, cuja credibilidade caiu muito desde os anos de Nelson Mandela. Dois anos e meio depois da morte do histórico líder da luta contra a segregação racial, o partido não parece estar à altura do pai da democracia sul-africana.

O ANC, que derrubou o regime racista e venceu as primeiras eleições democráticas do país em 1994, sob Mandela, enfrenta a possibilidade real de perder o controlo de importantes autarquias para a AD, no que os analistas dizem ser um importante teste à governação de Zuma.

Na baía de Mandela, vence a oposição

Com um quarto dos votos contabilizados até às 3h da madrugada desta quinta-feira, o ANC já tinha garantido 50% dos votos contra 34% para a AD e 6% para os Combatentes pela Liberdade Económica, que participam pela segunda vez em eleições. Sondagens à boca da urna vaticinam uma disputa renhida entre o ANC e a AD pela capital executiva do país e pelo grande centro económico, Joanesburgo.

À mesma hora, e com 15% dos votos contabilizados no município de Tshwane, onde se localiza Pretória, os dois partidos estavam empatados com 43% cada. Na Baía Nelson Mandela, batizada em honra do Nobel da Paz e onde se localiza a de Porto Elizabeth, a AD dominava a contagem com 61% dos votos contra 30% para o ANC. Espera-se que a AD mantenha o controlo da Cidade do Cabo, a única grande autarquia que não está nas mãos do ANC.

À Associated Press, o analista político Steven Friedman já tinha antevisto, na véspera destas eleições, que as eleições iam servir, acima de tudo, para medir o poder de influência do ANC, no poder há 22 anos. “Vamos ver se continua a ser um partido que mantém uma forte presença tanto nas cidades como nas zonas rurais ou se vai tornar-se num partido que está sobretudo sediado nas áreas rurais e que terá de conceder as cidades aos partidos da oposição.”

Uma perda de poder do ANC nas autárquicas poderá ter um enorme impacto negativo no seu próximo grande teste político, as eleições gerais de 2019. Em abril, Zuma conseguiu resistir a um voto de impugnação do seu mandato potenciado por um dítame do Tribunal Constitucional sul-africano, que o acusou de ter quebrado a lei ao ignorar uma ordem para devolver cerca de 16 milhões de dólares ao Estado, correspondentes aos fundos públicos que desviou para renovar uma das suas casas de férias.