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Conselheira de Jeb Bush abandona Partido Republicano por causa de Trump

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Drew Angerer/GETTY

Cada vez mais republicanos estão a desistir do seu próprio partido por causa da retórica divisiva do seu candidato presidencial. Agora, o magnata populista sugeriu que as eleições presidenciais podem estar a ser “manipuladas” a favor da sua rival, “o diabo” Hillary Clinton

Sally Bradshaw tornou-se, na noite desta segunda-feira, a mais recente figura do Partido Republicano a anunciar o abandono do movimento político por causa de Donald Trump, o homem sem experiência política que conseguiu escalar todos os degraus das primárias e garantir a sua nomeação oficial pelo partido da oposição para ser candidato às presidenciais de novembro.

Em entrevista à CNN, a proeminente figura do Grand Old Party (GOP, como o Partido Republicano também é conhecido) e conselheira de longa data de Jeb Bush disse que não pode apoiar Trump "em boa consciência" e que, por esse motivo, já repetiu o seu registo eleitoral como independente.

"Estive a considerar esta mudança durante vários meses", explica a responsável pela "autópsia do GOP" no rescaldo da derrota do candidato do partido Mitt Romney, nas eleições presidenciais de 2012, que deram um segundo mandato consecutivo a Barack Obama. "Em última instância, não podia apoiar a retórica de ódio de Donald Trump e a sua completa falta de princípios e de filosofia conservadora. Não tomei esta decisão de ânimo leve — trabalhei no duro para fazer do nosso partido um sítio onde todos se sintam bem-vindos. Mas Trump levou o GOP noutra direção e demasiados republicanos estão à margem a assobiar para o lado".

Questionada sobre o que pretende fazer depois das eleições de novembro e que futuro aguarda o partido, Bradshaw disse: "Se e quando o partido reconquistar a sua sanidade, estarei pronta para regressar. Mas até os republicanos enviarem uma mensagem à liderança do partido de que isto não é aceitável, nada irá mudar."

A conselheira de Jeb Bush, responsável pela organização da campanha do mais jovem Bush nas primárias republicanas deste ano, é a mais recente figura do GOP a tomar uma posição contra Trump, que esta semana tem angariado uma enorme onda de críticas internas por causa dos recentes comentários sobre os pais de um soldado norte-americano muçulmano que perdeu a vida na guerra do Iraque.

Para além de Bradshaw, a estratega Mary Matalin alterou a sua filiação partidária de "republicana" para "libertária" na primavera e George Will, famoso colunista conservador, anunciou a sua partida em junho. Outros republicanos mantêm-se registados no GOP mas dizem que não vão votar em Trump em novembro, como os vários membros do clã Bush — havendo até os que, como o ex-autarca de Nova Iorque Michael Bloomberg, já deram o seu apoio formal à candidata do partido rival.

O diabo e as mulheres

A nova onda de críticas a Trump por membros do partido que o nomeou começou no final da semana passada, depois de Khizr e Ghazala Khan, um casal norte-americano de origem paquistanesa, terem sido convidados a discursar na última noite da convenção nacional democrata, que viu Hillary Clinton ser formalmente nomeada para disputar a presidência com Trump em novembro.

Num discurso carregado de emoções, Khizr Khan acusou o candidato republicano de nunca ter feito qualquer sacrifício pelo país, ao contrário do seu filho, que se alistou no exército norte-americano no rescaldo dos atentados de 11 de setembro de 2001 e que viria a perder a vida no Iraque. Trump respondeu com ataques indiscriminados, sugerindo que Ghazala não falou nessa noite porque o marido provavelmente não a autoriza e dando uma série de entrevistas a garantir que já fez muitos sacrifícios — sem, no entando, conseguir nomear um só.

Depois de vários media terem apontado a ironia dessa crítica, pelo facto de Melania Trump estar quase sempre calada ao lado do marido a fazer figura, esta terça-feira de madrugada o "New York Times" revelou que o candidato republicano obteve cinco deferimentos durante a Guerra do Vietname que lhe permitiram escapar à recruta.

"Em 1968, aos 22 anos, Donald J. Trump parecia um exemplo de saúde", escreve o jornal. "Mas depois de se licenciar na primavera desse ano, tornando-se elegível para ser recrutado e mandado para o Vietname, recebeu um diagnóstico que iria alterar o seu rumo: tinha osteófitos nos calcanhares. O diagnóstico isentou-o de cumprir o serviço militar no Vietname. Foi um de cinco deferimentos que Trump receu durante essa guerra; os outros foram para educação."

No domingo, Ghazala Khan assinou um artigo de opinião no "Washington Post" a explicar que o seu silêncio durante a convenção democrata se deveu à dor de ter perdido o filho, Humayun Khan, na guerra e de quase perder o controlo quando, ao subir ao palco do centro Wells Fargo naquela noite, viu uma fotografia dele no ecrã gigante. Ontem, deu uma entrevista à BBC com o seu marido, na qual repetiram que os norte-americanos precisam de se unir para travar Donald Trump.

O candidato respondeu com novas acusações de estar a ser alvo de ataques "violentos" pelos Khan e pelos republicanos que os têm apoiado, como o veterano de guerra e ex-candidato presidencial John McCain, renovando igualmente as críticas ao senador Bernie Sanders por ter feito "um acordo com o diabo" ao decidir desistir das primárias para apoiar Clinton. "Ela é o diabo", declarou sem rodeios sobre a rival democrata, sugerindo que se for ela a vencer é porque houve fraude eleitoral.