Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

A cidade que lutou até cair

  • 333

DR

Em agosto de 1944, os habitantes de Varsóvia insurgiram-se contra o domínio alemão e resistiram 63 dias, à espera de um auxílio que jamais chegou. A 2 de outubro, exaustos, renderam-se. Foram poucos os que sobreviveram para contar a história. Este texto foi publicado na Revista do Expresso em outubro de 2010

Podia ter sido noutro dia, noutra hora qualquer daquele ano de 1944. Mas foi a 1 de agosto às 17h que a cidade caída, usurpada, isolada, humilhada, escravizada, já parcialmente destruída, decidiu levantar-se. Ergueu-se das ruínas, num estertor de vontade, daquela vontade sobre-humana que acomete os moribundos, e lutou, 63 dias e 63 noites, contra o gigante nazi, o cancro que há cinco anos crescia no seu interior ocupando e minando tudo. Quando Varsóvia se levantou, reunindo um exército de 50 mil homens dos quais apenas 10 por cento possuíam armas, e combatendo dois meses em vez dos escassos dias que estava previsto durar a insurreição antes de a 'ajuda exterior' ter tempo de chegar, fê-lo em defesa da sua dignidade. 300 mil vidas depois, a 2 de outubro capitulou, reduzida a escombros. Ninguém acorreu em sua defesa. E não faltaria muito até que fosse proibido, aos sobreviventes, contar o que aconteceu. A história foi convenientemente deturpada, a verdade remetida a um escandaloso silêncio.

Barbara Ginter tinha 23 anos na altura do levantamento de Varsóvia

Barbara Ginter tinha 23 anos na altura do levantamento de Varsóvia

DR

Barbara Ginter tinha 23 anos na altura do levantamento. Desde 41 que pertencia à Resistência. Às 17h de 1 de agosto, numa casa para onde fora secretamente levar informações, alguém lhe disse: "Começou". Ela passou a ser correio do AK (Armia Krajowa), o Exército Nacional polaco, e foi uma das muitas mulheres que serviam de elo de ligação entre o Estado-Maior e as suas divisões fora da cidade. Sob a alcunha de "Bassa Mala", ("Barbara Pequena"), operava numa parte da cidade até então desconhecida, subterrânea, vital por esses dias para percorrer sem ser visto as principais artérias da cidade: a extensa rede de esgotos de Varsóvia. "Era muito perigoso", diz ao telefone desde Sopot, perto de Gdansk, a cidade banhada pelo Báltico onde completou, ao lado da filha, 89 anos. "Os canais eram muito pequenos e era preciso conhecer bem a topografia da cidade, saber onde sair, quais as zonas ocupadas pelos alemães." Uma vez, numa das suas deambulações pelos canais, ela e a colega Maryna depararam-se com um grupo de civis que avançava lentamente, na escuridão e com a água pela cintura, transportando sacos de batatas. Carregavam informação que devia chegar com urgência ao destino e pediram para passar primeiro. Mal sabiam que contornavam a morte: "Meia hora depois, os alemães gasearam esse canal e as pessoas morreram asfixiadas."

O Éden depois do inferno

A história da família de Barbara durante o levantamento é, como tantas outras, envolvimento e perda. A irmã Maria fez de tudo um pouco para colaborar: arranjava comida - bem raro - para os soldados, tratava-lhes as feridas, desdobrava-se para que tivessem um local onde dormir. Os cinco irmãos também participaram - um deles fotografou desde a sua janela a deportação dos judeus. Quando os insurgentes se renderam e os combates cessaram, e "em Varsóvia não restava mais nada", Barbara foi em busca dos seus. Assim soube que um dos irmãos morrera dos ferimentos. Que outro fora levado sem retorno para um campo de concentração na antiga Checoslováquia. Que outro sucumbira à tuberculose que grassava na cidade. Que uma cunhada dera à luz no campo de concentração de Ravensbrück e a bebé fora levada, para sempre, pela Cruz Vermelha sueca. A irmã Maria sobreviveu, como ela, falecendo só em 2002. Barbara rumou para Poznan e depois para Sopot, onde abriu com a família uma pensão com vista para o Báltico, à qual deu o nome, curto e simbólico, de Éden.

Barbara Ginter tinha 89 anos quando falou ao Expresso em 2010

Barbara Ginter tinha 89 anos quando falou ao Expresso em 2010

DR

Ordem para exterminar

Após a 'W-hour' [do polaco, wybuch, irromper], como foi chamado o início da insurreição, os alemães, claramente melhor armados, reforçaram o seu exército. Várias unidades de combate acorreram a Varsóvia, mas duas delas, comandadas pelos oficiais Dirlewanger e Reinefarth, das SS, traziam ordens especiais de Himmler, instruído por Hitler: a cidade devia ser destruída e cada habitante morto. "Não devem ser feitos prisioneiros. Varsóvia é para ser liquidada, e assim servir como assustador exemplo ao resto da Europa." Os massacres em diferentes pontos da capital principiaram logo a 5 de agosto, o dia em que a população de Wola começou a ser sistematicamente exterminada.

No livro "German Crimes in Poland", da Comissão Central de Investigação dos Crimes Alemães na Polónia, publicado por Howard Fertig (New York, 1982), este episódio é narrado ao pormenor por quem lhe sobreviveu. Um homem conta como assistiu à execução do filho de dois anos e como, ferido, resistiu enterrado numa vala comum até o exército polaco o resgatar. Uma mulher disse ter sido conduzida a um local de execução - um antigo convento - onde encontrou camadas e camadas de corpos, alguns com vários dias, que teve de ajudar a remover e a queimar. Outra testemunha viu alemães incendiarem e atirarem granadas para dentro de edifícios habitados. Só em Wola, um dos muitos bairros da cidade, morreram 40 mil pessoas em poucos dias. E os alemães - consta num dos depoimentos - tiravam fotografias dos assassínios que perpetravam.

Nada disto era novidade para os polacos. Olgiert Swiatkiewicz, nascido em 1959 na Varsóvia comunista, e há 20 anos residente em Portugal, gosta de contextualizar: "O Levantamento não foi um ato isolado. Quando aconteceu, Varsóvia estava ocupada há cinco anos. Os alemães eram uma minoria cada vez mais visível: havia lugares só para eles nos autocarros, nos locais públicos, nos cafés. A Polónia era o único país com pena de morte por ajudar os judeus." Olgiert considera importante lembrar a violência exercida sobre os polacos durante a ocupação: "Faziam-se inúmeras 'apanhadas': apanhavam pessoas na rua e fuzilavam-nas. Porque cada alemão morto tinha de ser vingado."

A ambiguidade soviética

Professor de Gestão no Instituto Politécnico de Setúbal, Olgiert salienta que, aquando do levantamento, "os russos estavam mais ou menos a 60 km de Varsóvia". E a leitura histórica desta proximidade é de ambiguidade e de esperança ingénua - a esperança final de quem confia nos próprios carrascos: se os "polacos tinham mais medo dos soviéticos do que dos alemães" - Olgiert cita o massacre de Katyn, perpetrado em 1940, em que centenas de oficiais polacos foram assassinados a mando de Estaline -, era sobretudo pelos soviéticos que estes aguardavam ser auxiliados. Quando Stanislaw Mikolajczyk, primeiro-ministro da Polónia exilado em Londres, se reuniu com Estaline em Moscovo a 3 de agosto para o informar acerca do levantamento e solicitar ajuda, acreditou que esta verdadeiramente viesse a acontecer. A primeira reação de Estaline foi criticar o AK por, até então, não ter lutado ativamente contra os alemães. Porém, numa segunda reunião, em que Mikolajczyk pediu o envio imediato de armas, o ditador soviético respondeu positivamente.

Tal nunca chegou a acontecer. Estaline esperou mais cinco semanas, período razoável para assistir à queda da cidade. Porém, vendo a luta dos polacos persistir, e para não ser acusado de inação, ordenou em meados de Setembro que duas divisões de Infantaria do 1º Exército Polaco (sob comando soviético e composto por voluntários polacos deportados e presos) invadissem a zona de Praga, em frente a Varsóvia, na margem oriental do Rio Vístula. Comandado pelo General Zygmunt Berling, este exército tentou atravessar o rio, sofrendo severas baixas. Quando Berling, pensando que o seu papel era o de socorrer Varsóvia, pediu a Moscovo que se apressasse no envio de homens e artilharia, foi destituído do cargo. Os soviéticos continuaram acantonados na margem leste do Vístula, mas mais nenhum prestou qualquer tipo de auxílio à capital polaca.

"A única tentativa de apoio veio de Londres. Os aviões ingleses sobrevoavam a cidade, largavam armas e munições, que muitas vezes caíam nas mãos dos alemães", esclarece Olgiert Swiatkiewicz. De facto, das 239 toneladas de mantimentos e armas lançadas via aérea pelos Aliados, apenas 88 chegaram à população. Em finais de setembro, insurgentes e civis estavam encurralados, sem alimentos, sem água, "sem possibilidade de sucesso", como comunicou um líder do AK ao Governo polaco no exílio. A 2 de outubro assinou-se a capitulação, sob severas condições - uma das quais que os habitantes abandonassem a cidade. Estes, que somavam 1.300.000 no início da ocupação nazi em 1939, apenas ultrapassavam o meio milhão em 1944.

A maior parte foi conduzida ao campo de trânsito de Durchgangslager 121, em Pruszków, onde o seu destino - a vida noutro local do Governo Geral, o trabalho forçado ou os campos da morte - seria decidido. A mãe de Olgiert, médica, empreendeu um êxodo forçado para sul. As tias do pai foram obrigadas a percorrer a pé os 300 km que separam Varsóvia de Cracóvia. "São factos", diz ele. O seu pai passou a guerra na Alemanha, em campos de concentração para oficiais. A avó foi "assassinada pela Gestapo". Uma prima da mãe, que participou no levantamento e conseguiu salvar-se, prosseguindo a carreira médica e tornando-se catedrática em oncologia, costuma dizer: "Se tivéssemos ficado quietos, teríamos poupado vidas e a cidade." Hoje com 90 anos, desafia Olgiert, de 52, a pensar até que ponto valeu a pena tamanho heroísmo, qual o proveito que desses tempos os polacos retiraram. "Sinceramente, não tenho opinião sobre isto", confessa Olgiert. "Conhecendo o espírito polaco, rebelar-se era uma questão de dignidade. As pessoas eram escravas no seu próprio país."

O silêncio dos inocentes

Durante anos, estes 63 dias permaneceram encarcerados na memória de quem os viveu, como um fantasma aterrador. Barbara Ginter ainda se lembra de não poder sequer lembrar: "Não era permitido falar do levantamento, fingia-se que não tinha acontecido." Quando o Governo polaco no exílio a condecorou, a ela e à irmã Maria, desde Londres, com a Ordem da Cruz dos Valentes, teve que manter absoluto segredo. Por sua parte, Olgiert Swiatkiewicz recorda que, na escola, a história dos acontecimentos era ensinada de forma 'ligeiramente' deturpada: "O AK era fiel ao Presidente polaco, que estava em Londres. O número de comunistas nas suas fileiras era excedentário. Os comunistas corrigiram esse facto, dizendo que o AK era um exército de esquerda." Mesmo fora das fronteiras da Polónia, comenta Olgiert, o assunto foi abafado. "Falava-se no levantamento do gueto de Varsóvia, que tinha acontecido em 43", mas não do de 44. Do mesmo modo, "comemorava-se o 22 de julho, o dia nacional do governo imposto por Moscovo, e não o 1 de agosto."

O edifício do Banco polaco foi o último bastião dos insurgentes na zona da cidade velha. Foi parcialmente destruído em 1944

O edifício do Banco polaco foi o último bastião dos insurgentes na zona da cidade velha. Foi parcialmente destruído em 1944

DR

A segunda ocupação

Todos os que tomaram parte na insurreição foram perseguidos, presos ou fuzilados. Alguns passaram à clandestinidade, prosseguindo a luta pela liberdade. Outros tornaram-se párias, sem documentos, sem trabalho, sem qualquer hipótese de futuro. A cidade não teve melhor sorte: após a saída da população, os alemães destruíram-na cirurgicamente, prédio a prédio, arrasando o pouco que tinha ficado de pé. Engenheiros alemães foram chamados para garantir a demolição eficaz dos monumentos nacionais, das igrejas, das bibliotecas, dos arquivos, das escolas, da Universidade, dos hospitais.

Em janeiro de 45, o Exército Vermelho, que, como espectador num teatro, assistira à destruição desde o outro lado do rio Vístula, entrou numa Varsóvia arrasada, despida de tudo quanto fora a sua identidade. Pouco depois, iniciava a sua reconstrução, a disseminação de edifícios retilíneos e gigantescos, tão caros ao real socialismo. Hoje, a cidade é um somatório indefinido de estilos. Mas é livre - há quase três décadas ininterruptas o é. Para Olgiert e para Barbara, e para os que não contaram a história, e para os que agora podem contá-la, será o maior sinal de que o mundo lhes devolveu, por fim, o seu lugar.