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Um perigoso jogo de espelhos

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Os media franceses lançaram a discussão sobre a divulgação da identidade de terroristas. Por cá não há consenso

Paris, Bruxelas, Nice, Rouen. Podemos fechar os olhos e continuamos a ver as imagens. As notícias de atentados têm-se repetido nas últimas semanas. Será o mesmo tipo de fenómeno que noutros verões estimulou incendiários de florestas? “De certa forma sim. O copycat é mais frequente em pessoas com vulnerabilidade ou desajustamento emocional e mental ou perturbação mental ativa”, explica o psicólogo Paulo Sargento dos Santos.

O seu colega, Daniel Sousa, corrobora. “Pessoas de maior vulnerabilidade psicológica a que se associem outros fatores de risco, como a alienação social, poderão em conjunto com a perceção de que determinados atos têm um impacto social enorme, promover o sentimento de que a sua voz será ouvida. E assim passarem à ação.”

Paulo Sargento dos Santos lembra que os manuais de radicalização são concebidos para atingir dois grupos de pessoas: as que têm perturbação mental e os mais jovens. Os dois franceses que degolaram o padre tinham 19 anos.

Depois disto alguns media franceses como “Le Monde”, BFM-TV e Europe 1 deixaram de mostrar vídeos ou fotos em que o rosto dos atacantes fosse visível. No caso da Europe 1 será também omitido o nome dos terroristas para evitar “glorificações póstumas”.

A ideia não é consensual entre nós. De um lado da barricada está a agência Lusa, que garante já seguir um critério semelhante ao dos órgãos franceses, evitando identificações. Também no “Público” se compreende esta decisão, para evitar efeitos de “martirização e mimetismo”. “Se se verificar que esta ideia é mais um passo para a diminuição dos atentados, poderemos encarar isso no futuro”, diz o diretor-adjunto Nuno Pacheco.

Posição diferente assume o diretor Miguel Pinheiro, que garante que o “Observador” continuará a publicar nomes e fotos de atacantes, por discordar das razões dos media franceses: “Basta ler os jornais para perceber que não há glorificação nenhuma”, defende Pinheiro, considerando pior “um mundo de sombras, de terroristas sem cara nem nome”.

André Macedo, diretor do “Diário de Notícias” e Paulo Dentinho, diretor de informação da RTP, são mais cautelosos. Macedo não exclui discutir futuramente o tema mas considera que “ainda não é questão”. Na RTP não haverá decisão “a quente”. Serão ouvidos especialistas e feita uma reflexão interna. Ricardo Costa, diretor de informação do grupo Impresa, diz compreender a decisão francesa mas esta “só faz sentido a nível local, até para evitar retaliações sobre inocentes”. Já a divulgação de imagens do Daesh deve ser evitada e quando haja interesse noticioso ser feita com “muito cuidado de edição”.