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Internacional

Crimes de ódio triplicaram nas áreas do Reino Unido que votaram contra a UE

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52% dos britânicos votaram a favor do Brexit, sobretudo em Inglaterra e no País de Gales

Jack Taylor

Investigação do “The Independent” mostra aumento de 57% no número de crimes desta natureza a nível nacional no rescaldo do referendo de 23 de junho. Polícia diz que houve mais de 6 mil queixas apresentadas entre a semana anterior à consulta e as três semanas seguintes

O aumento de crimes de ódio e da intolerância em Inglaterra no rescaldo do referendo britânico ao Brexit foi particularmente notório nas áreas cujos habitantes votaram, na sua maioria, a favor da saída da União Europeia. De acordo com uma investigação do “The Independent”, sustentada nas bases de dados das forças policiais, houve zonas em que este tipo de ataques duplicou ou triplicou, subindo para níveis ainda mais elevados do que o aumento médio de 57% de crimes de ódio a nível nacional que o Conselho Nacional de Chefes da Polícia (NPCC) registou antes e no rescaldo da consulta popular de 23 de junho.

As estatísticas das forças de segurança mostram que Lincolnshire, um condado do leste de Inglaterra onde 75% dos eleitores votou a favor do Brexit, foi a zona onde se registou o maior aumento deste tipo de crimes, de 191% em comparação com o mesmo período do ano passado. Na semana a seguir ao referendo houve 42 crimes de ódio registados ali (contra os 22 crimes motivados por diferenças étnicas ou religiosas denunciados na mesma semana em 2015), com 64 crimes da mesma natureza registados na semana a seguir.

O padrão repetiu-se noutras cidades e condados cuja população votou maioritariamente contra a UE, no que os especialistas dizem ter sido um claro voto contra a imigração. Em Kent, onde quase 60% dos habitantes votaram a favor do Brexit, foram registados 25 crimes de ódio na semana do referendo e 39 na semana seguinte, um aumento final de 143% em relação ao período homólogo em 2015. Em Derbyshire, o aumento foi de 121%, entre os 14 crimes registados pela polícia há um ano e os 31 deste ano, isto só numa semana, logo a seguir à consulta.

No condado de Nottinghamshire, outro que votou em peso a favor do Brexit, o aumento foi apenas de 11%, uma "exceção estatística" que o "The Independent" atribui ao facto de, há um ano pela mesma altura, ter sido registado um número invulgarmente alto de crimes de ódio. O jornal aponta, ainda assim, que houve um aumento de 140% quando se compara a semana anterior ao referendo, este ano, ao mesmo período 12 meses antes.

De acordo com a NPCC, houve mais de 6000 relatórios e queixas de crimes de ódio ao longo de quatro semanas em análise, entre 16 de junho, quando faltavam sete dias para a votação, e 14 de julho. No início de julho, o chefe da organização, Mark Hamilton, tinha dito que acredita que a natureza e conteúdo dos debates antes do referendo foram, em larga medida, responsáveis pelo aumento de crimes de ódio que já tinha sido registado então.

Na sua maioria, os crimes denunciados foram de assédio mas entre eles incluem-se também dezenas de ataques motivados pela raça ou pela religião, incluindo alguns espancamentos e outros danos corporais. O “The Independent” aponta que, na base de dados consultada, foram encontradas ainda referências, ainda que em números menores, a ameaças de morte, fogo posto e danos criminais.

Face ao aumento, o Governo de Theresa May diz que vai reavaliar as respostas a crimes desta natureza, com a ministra do Interior, Amber Rudd, a garantir que o Executivo está “determinado em construir uma Grã-Bretanha que funcione para toda a gente”.

“Aqueles que praticam o ódio enviam a mensagem de que é aceitável abusar e atacar outros por causa da sua nacionalidade, etnia ou religião, que é aceitável desconsiderar os nossos valores comuns e promover a intolerância, que causa enormes danos a comunidades e indivíduos”, disse este fim desemana, ao anunciar a abertura de um inquérito à atuação das forças de segurança face a crimes de ódio. “Tenho uma clara mensagem para essas pessoas: não vamos aceitar isto. O ódio não tem lugar na Grã-Bretanha do século XXI.”