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Theresa May quer contornar Comissão Europeia nas negociações do Brexit

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GETTY IMAGES

Primeira-ministra britânica está empenhada em convencer os 27 estados-membros da União Europeia a apoiarem o melhor acordo possível para o Reino Unido, limitando a influência do executivo comunitário e do homem-forte escolhido por Bruxelas para liderar as negociações de saída

Theresa May continua a levar a cabo a sua ofensiva de charme nas capitais dos Estados-membros da União Europeia, para alcançar um consenso entre os 27 países que contorne o poder de influência da Comissão Europeia e do homem nomeado para negociar a saída do Reino Unido do bloco regional.

Depois de se ter encontrado com a chanceler alemã, Angela Merkel, em Berlim, com o Presidente de França, François Hollande, em Paris, com o líder do executivo italiano, Matteo Renzi, e com o primeiro-ministro irlandês, Enda Kenny, em Londres, May seguiu esta quinta-feira para a Eslováquia e a Polónia, em mais dois encontros para tirar a temperatura aos membros do clube europeu antes de ativar o artigo 50 do Tratado de Lisboa — o único mecanismo dos tratados europeus que prevê a saída de um Estado-membro do bloco.

Alguns dos líderes europeus com quem já se encontrou admitiram, segundo o "The Independent", que a vitória do Brexit no referendo de 23 de junho demonstra a necessidade de uma reforma profunda da UE, algo que levou o antecessor de May, David Cameron, a convocar este referendo mas que é recusado pela Comissão de Jean-Claude Juncker.

Um diplomata em Bruxelas diz ao jornal britânico que, neste momento, está em curso "uma disputa de território entre a Comissão e o Conselho Europeu [o grupo dos 27 chefes de Estado e de governo] sobre quem vai estar ao leme do Brexit". Uma das figuras centrais do processo é Donald Tusk, presidente do Conselho, que provavelmente irá assumir o papel de ponte entre May e os Estados-membros.

Um dos pontos de contenda entre o novo governo britânico e o executivo comunitário é a livre circulação de pessoas, que May quer ver anulada mantendo, ao mesmo tempo, o Reino Unido integrado no mercado único. Depois do encontro com o homólogo eslovaco, Robert Fico, na quarta-feira, a primeira-ministra sublinhou que o país não vai seguir o modelo da Noruega — um país que, não sendo Estado-membro da UE, faz parte do mercado único e cumpre e aplica os seus quatro pilares fundamentais, leia-se, a livre circulação de bens, de capital, de serviços e também de pessoas.

"Precisamos de encontrar uma solução para a movimentação livre de pessoas, alcançando ao mesmo tempo o melhor acordo possível para o comércio de bens e de serviços", voltou a sublinhar esta quinta-feira. "Temos de ser guiados pelos melhores interesses do Reino Unido e aquilo que vai funcionar para a UE, não por modelos que já existem. Assim que deixarmos a UE, vamos continuar a trabalhar com todos os nossos parceiros na Europa, o Brexit é realmente uma oportunidade para intensificar essas relações. E tal como queremos que a Grã-Bretanha tenha sucesso fora da UE, queremos que a UE seja forte e tenha sucesso quando nós partirmos."

Recentemente, surgiram rumores de que, ao contrário de Juncker de Hollande, outros líderes europeus, como Merkel, parecem estar a estudar a hipótese de implementar um regime de exceção ao Reino Unido que prevê, precisamente, a manutenção da livre circulação de bens, serviços e capital mas não de pessoas.

Essa hipótese não deverá angariar o apoio de Michel Barnier, o ex-ministro francês e ex-vice-presidente da Comissão Europeia que esta semana foi nomeado pelo executivo comunitário para chefiar as negociações do Brexit. Uma hipótese semelhante de abrir uma exceção à Cidade de Londres foi travada por Barnier em 2013 quando era comissário do Mercado Interno, uma linha dura que deverá continuar a seguir à frente da equipa de Bruxelas responsável por negociar a saída britânica.