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Hillary Clinton: “A América está num momento de acerto de contas”

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Justin Sullivan

Na última noite da convenção democrata, ao aceitar a nomeação do partido para ser candidata às presidenciais, a ex-secretária de Estado demarcou-se do rival republicano e avisou que, se Donald Trump for eleito, vai levar o país para “um lugar negro de discórdia e medo”

A Convenção Nacional Democrata terminou esta madrugada com Hillary Clinton a aceitar a histórica nomeação do Partido Democrata como a primeira mulher a representar um dos dois grandes partidos dos Estados Unidos nas eleições presidenciais.

Khizr Khan, provavelmente o orador mais poderoso da noite, falou antes da candidata, para desfazer a retórica anti-muçulmana de Donald Trump e abrir caminho ao discurso da ex-secretária de Estado. Emocionando muitos dos presentes, o americano muçulmano cujo filho se alistou no exército norte-americano após os atentados de 11 de setembro de 2001 e que acabaria por morrer no Iraque trouxe consigo uma cópia da Constituição dos EUA, que retirou do bolso no momento mais dramático do seu discurso.

"Donald Trump, você está a pedir aos norte-americanos que lhe confiem o seu futuro. Mas deixe-me perguntar-lhe: algum dia leu a Constituição dos Estados Unidos? Eu empresto-lhe a minha cópia de bom grado. Vá ao cemitério de Arlington visitar as campas dos patriotas corajosos que morreram a defender os Estados Unidos da América, encontrará todas as fés, géneros e etnicidades. Você nunca sacrificou nada."

Khan foi depois substituído no palco por Chelsea Clinton, a filha da candidata e do antigo Presidente dos EUA Bill Clinton, igualmente emocionado com a nomeação da mulher. No dia anterior, Barack Obama já tinha tomado o mesmo palco para sublinhar que ninguém, nem ele próprio "nem o Bill" estiveram algum dia tão bem preparados quanto Hillary para liderar o país. Depois de trocar um abraço com a filha em palco, que introduziu a sua "heroína", a antiga primeira-dama tornada candidata à liderança dos norte-americanos discursou sobre os perigos de se eleger Trump a 8 de novembro, apresentando-se como única alternativa viável à demagogia do rival republicano no "momento de acerto de contas" que o país enfrenta.

"Há forças poderosas a ameaçar dividir-nos. Ele [Trump] quer dividir-nos, do resto do mundo e uns dos outros", sublinhou Hillary. "Os laços de confiança e respeito estão a desgastar-se. E tal como na altura dos nossos pais fundadores, não há garantias. Depende verdadeiramente de nós. Temos de decidir se queremos trabalhar em conjunto para podemos erguer-nos em conjunto. Não estamos com medo. Vamos enfrentar o desafio tal como sempre fizemos."

Clinton pediu ainda emprestadas palavras ao general John Allen, antigo comandante das forças norte-americanas no Afeganistão, que falara horas antes no encontro democrata e que sublinhou que Trump vai conduzir o país a um "lugar negro de discórdia e medo".

Para atrair eleitores mais instatisfeitos — como os que apoiam Bernie Sanders e que, para já, se recusam a seguir as pisadas do senador votando em Clinton ou os que, desiludidos com a cena política, se sentem mais próximos do populista Trump — Clinton garantiu que vai criar um ambiente económico que lhes restaure a confiança no governo. "Sei que muitos de vós foram deixados para trás. Alguns de vocês estão frustrados, até furiosos. E sabem uma coisa? Vocês têm razão."

O discurso de Clinton foi obviamente alvo de ataques pelo rival na corrida presidencial, com Trump a escrever no Twitter que Clinton nem sequer se dignou a falar da grande ameaça que os EUA enfrentam. "O nosso estilo de vida está sob ameaça pelo islão radical e Hillary Clinton nem sequer consegue dizer as palavras", escreveu o magnata do imobiliário, que tem feito campanha com promessas de erguer um muro na fronteira com o México e de criar um diretório de todos os muçulmanos que vivem nos EUA.

Contando com o apoio declarado de vários republicanos, com o ex-autarca de Nova Iorque, Michael Bloomberg, à cabeça, o discurso da candidata democrata fez correr tinta entre os membros e apoiantes do partido da oposição. "Era suposto termos sido nós [os republicanos] a fazer aquele tipo de discurso", comentou um membro da Câmara dos Representantes citado por Erick Erickson, um famoso locutor de rádio da ala conservadora, um de entre muitos a elogiar a candidata do partido rival por fazer aquilo que Trump não faz.