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Refém britânico que o Daesh poupou está “ilegalmente detido” pelas autoridades do Bangladesh

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Getty Images

Hasnat Karim estava a jantar com a família para celebrar o 13.º aniversário da filha no restaurante de Daca que foi palco de um atentado a 1 de julho, no qual foi poupado pelos radicais após recitar versos do Corão. Dois dias depois foi levado pelas autoridades do Bangladesh para ser interrogado. Está desaparecido desde então

O jornal “The Independent” avança esta quinta-feira que um britânico que militantes do autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) pouparam durante um ataque a um café da capital do Bangladesh, no início deste mês, está desaparecido desde que foi levado pelas autoridades do país para ser interrogado sobre os eventos daquela noite.

Diz o jornal britânico, citando familiares de Hasnat Karim, que o homem com dupla nacionalidade do Reino Unido e do Bangladesh foi levado para um local secreto pela polícia do país há quase um mês, logo a seguir ao atentado terrorista que culminou na morte de 20 pessoas e dezenas de feridos. As autoridades do Bangladesh recusam-se a permitir que Karim contacte com a família e com o seu advogado.

Karim estava no café Holey Artisan Bakery, em Daca, a celebrar o 13.º aniversário da sua filha com a família quando cinco militantes do Daesh invadiram o espaço e fizeram dezenas de reféns, massacrando 20 pessoas e poupando as vidas de outras 20 que, como o britânico, sabiam recitar versos do Corão.

A barricada durou mais de dez horas até os suspeitos terem sido abatidos pela polícia, com o Ministério da Administração Interna do Bangladesh a sublinhar, mais tarde, que os homens não pertenciam ao Daesh apesar de o grupo ter reinvidicado esse ataque — algo que já se tornou rotineiro para as autoridades do Bangladesh, que negam constantemente a presença de militantes do grupo no seu território.

“Estávamos sentados só há alguns minutos quando de repente ouvimos tiros e gritos a vir da esplanada do restaurante”, conta Sharmina Parveen ao “Independent”. “De repente homens armados entraram no restaurante. Fomos de imediato questionados sobre se éramos muçulmanos e quando dissemos que sim, eles mandaram-nos baixar as cabeças e disseram 'Adoramos muçulmanos, podem confiar em nós, não vos vamos fazer mal'.”

A família foi obrigada a sentar-se à mesa com outros reféns em silêncio e na mira das armas antes de ser exigido ao marido de Parveen que recitasse versos do Corão. “O meu marido estava nervoso quando foi obrigado a recitar a Sura Fatiha e um dos atiradores repreendeu-o por não perceber o verdadeiro significado [da oração]”, conta a mulher.

Horas depois, Karim voltou a chamar a atenção dos militantes quando o seu telefone tocou. Segundo os advogados, o britânico foi obrigado a ligar de volta ao tio e a enviar, através dele, uma mensagem à polícia para que não entrasse no restaurante, com os sequestradores a garantirem que iriam começar a matar reféns perante qualquer tentativa de aproximação. “Quando os atiradores descobrirem que éramos a família do meu marido, escolheram-no como escudo humano, penso que por saberem que ele não ia fugir enquanto a família dele ali estivesse também.”

Dois dias depois do massacre a que a família foi poupada, Karim foi levado pelas autoridades do Bangladesh e nunca mais apareceu. Os seus representantes legais apresentaram ontem uma petição ao Grupo de Trabalho da ONU sobre Detenções Arbitrárias, para que o caso seja investigado perante a contínua recusa das autoridades do Bangladesh em permitirem qualquer tipo de contacto. Nem a família nem os advogados conhecem o paradeiro de Karim nem o seu estado de saúde.

“Estamos a usar esta petição à ONU para tentar pressionar as autoridades do Bangladesh para que façam o que é certo”, diz ao “Independent” Rodney Dixon, advogado de direitos humanos que está a representar a família de Karim, sublinhando que não existem quaisquer provas de que ele tenha estado envolvido no ataque nem qualquer justificação para que continue preso e a ser interrogado sem acusações formais. “Ele está a ser mantido algures sem qualquer comunicação [com o exterior], não sabemos onde nem nos foi dado qualquer acesso, aos advogados ou à família. Os seus direitos fundamentais estão a ser-lhe negados. Nesta altura, a nossa prioridade máxima é libertá-lo, esta detenção é completamente ilegal.”

Karim, que nasceu no Bangladesh mas que se mudou para o Reino Unido quando era adolescente, licenciou-se em engenharia civil na Universidade Queen Mary em Londres e tirou mais tarde um mestrado na Universidade de Leeds. Depois de ter vivido três anos nos Estados Unidos, regressou ao Reino Unido em 1993 e ao Bangladesh no início dos anos 2000, tornando-se professor na Universidade Norte-Sul de Daca em 2008, um cargo que abandonou recentemente para trablhar na empresa de engenharia do pai. O seu caso está a ser acompanhado de perto por organizações de direitos humanos como a Amnistia Internacional.