Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Grande, vermelha e também quente (um enigma com mais de 40 anos)

  • 333

AFP/GETTY

A grande mancha vermelha de Júpiter é, afinal, uma fonte de calor - além de uma imensa tempestade. Assim o provou um estudo publicado na revista Nature, em que investigadores da Universidade de Boston explicam um enigma com mais de 40 anos: a elevada temperatura atmosférica de um planeta que está cinco vezes mais longe do Sol que o nosso

Sabia-se que a grande mancha vermelha de Júpiter era uma tempestade imensa do tamanho de três planetas Terra que acontece há vários séculos. Sabia-se também que com o tempo mudou de forma, cor e tamanho, tendo vindo a tornar-se cada vez mais alaranjada e a diminuir a sua extensão. Mesmo assim, os furacões que sopram no seu interior demoram seis dias a percorrer a região abrangida pela mancha – e Júpiter só precisa de dez horas para completar uma volta sobre si mesmo. Esta quarta-feira, a revista Nature publicou um artigo que desvendou mais um mistério em torno do fenómeno: afinal, a grande mancha vermelha, localizada por Galileu no século XVII, é também uma fonte intensa de calor e a razão por que a camada superior da atmosfera do quinto planeta do sistema solar apresenta temperaturas muito acima do que seria esperado.

Esta descoberta põe fim ao enigma sobre a anormal temperatura de Júpiter sem explicação desde 1973, quando a nave Pioneer 10, da NASA, fez as primeiras medições e concluiu que a atmosfera do planeta é muito mais quente do que a sua distância relativamente ao Sol fariam supor. Se o Sol fosse a única fonte de calor, a camada superior da atmosfera não poderia ultrapassar os 73º C negativos. Porém, na época, a temperatura registada ascendia aos 570º C. Agora, investigadores da Universidade de Boston chegaram à conclusão de que o calor coincide com a grande mancha vermelha.

"Com o aquecimento solar descartado, desenhámos um estudo para mapear a distribuição de calor sobre todo o planeta, à procura de anomalia nas temperaturas que pudessem explicar de onde vem essa energia", esclareceu James O'Donoghue, coordenador da equipa de cientistas envolvidos na pesquisa. "Vimos quase imediatamente que as temperaturas máximas em grandes altitudes estavam justamente sobre a grande mancha vermelha", continuou. Os investigadores serviram-se de telescópios localizados na Terra capazes de medir a radiação infravermelha e descobriram que na área da grande mancha vermelha o calor atinge 1300ºC - muito mais do que em qualquer outro ponto do planeta.

Mas as novidades não ficaram por aí. Segundo o artigo, a grande mancha vermelha produz dois tipos de ondas energéticas - gravitacionais e acústicas - que entram em colisão aquecendo a camada superior da atmosfera. "A transferência de energia de baixo para cima da atmosfera já tinha sido simulada em modelos planetários, mas não sustentada pela observação. As temperaturas extremamente altas observadas sobre a tempestade parecem ser a evidência concreta dessa transferência de energia, indicando que o planeta todo pode produzir calor e fornecendo uma explicação plausível para a 'crise de energia'", disse O'Donoghue.

Por outro lado, a resolução deste mistério tem consequências mais vastas, pois os cientistas afirmam que este sobreaquecimento – que contraria a exposição solar – pode ocorrer também em planetas mais longínquos e por isso mais difíceis de estudar, como Saturno, Urano e Neptuno.