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Turquia exige que UE acabe com “comunicados ameaçadores”

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Mevlüt Çavuşoğlu, ministro turco dos Negócios Estrangeiros

Lennart Preiss

Jornal conservador próximo de Erdogan diz que foi ex-comandante norte-americano da NATO quem organizou o golpe falhado e quem pagou, “através da CIA”, aos membros do exército turco que tentaram depôr o Presidente há uma semana e meia

O chefe da diplomacia turca reagiu com fúria às mais recentes declarações do presidente da Comissão Europeia no rescaldo da tentativa de golpe de Estado falhada que teve lugar em Ancara e Istambul há uma semana e meia, dizendo que a União Europeia tem de parar de fazer “comunicados ameaçadores” sobre o processo de adesão da Turquia ao bloco.

Mevlüt Çavuşoğlu respondeu desta forma à dura declaração de Jean-Claude Juncker, que na segunda-feira avisou o país de que, se reintroduzir a pena de morte, como planeia fazer em resposta ao golpe falhado, o processo de adesão iniciado em 1987 será imediatamente terminado. Aos jornalistas, o chefe do Executivo europeu sublinhou ainda que “a Turquia não está em qualquer posição de se tornar Estado-membro [da UE] tão cedo”.

A abolição da pena capital foi uma das condições não-negociáveis de Bruxelas impostas à Turquia logo a seguir a ter pedido formalmente para aderir à UE e foi concretizada por Ancara em 2002. No rescaldo da tentativa de golpe a 15 de julho, Recep Tayyip Erdogan falou na “necessidade” de se restaurar a pena de morte “com efeitos retroativos” para castigar os golpistas, necessidade essa que o Presidente turco voltou a sublinhar ontem. “O povo quer a pena de morte reintroduzida” no sistema penal do país e os governantes devem ouvir os eleitores, declarou Erdogan.

A ameaça de Juncker de pôr fim ao processo de adesão turco e a resposta irada do ministro dos Negócios Estrangeiros surgiram pouco depois de a procuradoria-geral da Turquia ter emitido mandados de detenção contra 42 jornalistas, em mais um de uma série de passos duramente criticados pela UE, pelos Estados Unidos e por organizações de direitos humanos na última semana e meia.

Desde que Erdogan foi alvo da tentativa de golpe — que alguns dizem ter sido orquestrado pelo próprio Presidente —, o Governo turco já deteve milhares de oficiais das forças armadas e da polícia, jornalistas, académicos e membros do Ministério da Justiça, despedindo mais de 50 mil pessoas de vários sectores da função pública e encerrando 24 estações de rádio e de televisão, no que os críticos dizem ser um saneamento das estruturas sociais para calar os opositores do Presidente.

O Executivo turco aponta o dedo aos apoiantes de Fethullah Gülen, um proeminente clérigo a viver exilado nos Estados Unidos, que desmente as acusações. Ontem, a Turkish Airlines, a empresa estatal de avião comercial, anunciou o despedimento de 211 funcionários por suspeitas de pertencerem à fação gulenista.

Também na segunda-feira, um jornal conservador turco próximo do Presidente acusou um ex-comandante da NATO de organizar o golpe e de pagar aos membros do Exército que o executaram. Na sua edição em inglês, citada pelo canal russo RT, o jornal “Yeni Safak” classificou o general norte-americano na reforma John F. Campbell como o “cérebro” da operação.

“Foi uma das figuras de topo que organizaram e geriram os soldados que estiveram por trás da tentativa falhada de golpe na Turquia”, aponta o jornal, acrescentando que Campbell “também arranjou mais de dois mil milhões de dólares [1,8 mil milhões de euros] em transações através do UBA Bank na Nigéria, usando ligações à CIA para distribuir [o dinheiro] entre o pessoal militar pró-golpe”.

Três soldados que alegadamente integraram a equipa de 16 oficiais que tentaram atacar o hotel onde Erdogan estava hospedado na noite do golpe (e que não o encontraram lá) foram ontem detidos.

No mesmo discurso em que deixou avisos à UE por causa das suas “ameaças”, o ministro turco dos Negócios Estrangeiros também deixou claro que as relações dipomáticas com os EUA “vão sofrer” se o país continuar a recusar-se a extraditar Gülen, o adversário ideológico de Erdogan. Desde a tentativa de golpe que Washington tem exigido “provas concretas” das ligações do clérigo ao incidente antes de sequer começar a discutir a possibilidade de abertura de um processo de extradição.