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Não são só os republicanos que estão divididos. E Trump está à frente de Clinton nas sondagens

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Chip Somodevilla

Ontem, ao primeiro dia da Convenção Nacional Democrata, os apoiantes de Bernie Sanders recusaram-se a aceitar os pedidos do senador para se mobilizarem em torno de Hillary Clinton e assim impedirem a vitória do rival populista em novembro. Michelle Obama acabou por resgatar a noite com um discurso "histórico" que, ao contrário de outros, Melania Trump não vai poder plagiar

Bernie Sanders teve um trabalho que se provou ingrato ao inaugurar a Convenção Nacional Democrata (CND) na noite de segunda-feira em Filadélfia. O senador pelo Vermont, que decidiu abandonar a corrida pela nomeação para apoiar formalmente a sua única rival das primárias, subiu ao palanque do centro Wells Fargo para um discurso em que sublinhou que os democratas têm de se unir em torno de Hillary Clinton para impedir que Donald Trump seja Presidente. Mas sempre que referiu a ex-secretária de Estado, os seus apoiantes, muitos dos quais se recusam a apoiar a candidata, encheram o recinto de vaias e gritos de desordem, numa clara demonstração de que não é só o Partido Republicano que está desunido.

Assim começou o encontro de quatro dias do partido no poder nos Estados Unidos, no qual é esperado que a candidatura de Clinton seja formalizada, apesar dos rumores de que o nome de Bernie Sanders também irá a votos. Os apoiantes do senador não querem a “candidata do sistema” nas urnas a 8 de novembro, em parte porque representa a epítome da contestada relação íntima entre o poder político e o poder financeiro, em parte porque decidiu convidar Debbie Wasserman para ser diretora honorária da sua campanha eleitoral — a líder do comité nacional democrata caída em desgraça que esta semana anunciou a sua demissão por causa de emails revelados pela WikiLeaks onde se demonstra a cabala que organizou contra Sanders.

A servir de ponto de partida para a CND, uma sondagem que veio agitar ainda mais as águas democratas: pela primeira vez nesta corrida presidencial, de acordo com o inquérito de opinião da CNN levado a cabo no rescaldo da Convenção Nacional Republicana da semana passada, Donald Trump surge à frente da rival democrata, angariando 44% dos apoios contra 39% para Clinton, 9% para Gary Johnson e 3% para Jill Stein. Num braço-de-ferro entre os candidatos formais dos dois partidos, o magnata do imobiliário tem um avanço de três pontos percentuais sobre a ex-secretária de Estado, com 48% contra 45% para Hillary.

Acabou por ser Michelle Obama a salvar a noite, alimentando esperanças de que o resto da convenção seja um passeio mais tranquilo e que os membros e delegados eleitorais do Partido Democrata encontrem uma forma de apoiarem Clinton a uma só voz — ou, no mínimo, com menos dissidência, sobretudo considerando a quantidade de análises que prevêem que os apoiantes de Sanders irão votar em Trump ou nem ir às urnas de todo como forma de protesto contra a candidata democrata.

Num discurso fortemente aplaudido e que vai ficar para os anais, a primeira-dama de saída fez piadas, emocionou a audiência e discursou com garra sobre assuntos que “não podem ser resumidos em 140 caracteres”, numa estalada de luva branca a Trump e à sua campanha. A série de ataques inteligentes e com classe não incluiu qualquer referência ao candidato republicano, num discurso que, ao contrário daquele que a mulher de Barack Obama proferiu em 2008, é mais difícil de ser plagiado por Melania Trump.

“Esta é a história deste país, a história que me trouxe a este palco esta noite, a história de gerações de pessoas que sentiram o chicote da escravidão, o ferrão da segregação, mas que continuaram a esforçar-se e a ter esperança e a fazerem o que precisava de ser feito para que hoje eu possa acordar todos os dias numa casa que foi construída por escravos e olhar para as minhas filhas, duas jovens mulheres negras lindas e inteligentes a brincarem com os cães nos relvados da Casa Branca”, declarou Michelle. “E por causa de Hillary Clinton, as minhas filhas e todos os nossos filhos e filhas agora têm como dado adquirido que uma mulher pode ser Presidente dos EUA.”

À falta de apoio total dentro do Partido Democrata, Clinton conta com o de várias figuras do partido da oposição que se recusam a votar em Donald Trump e que já anunciaram o seu apoio formal à ex-secretária de Estado. Entre eles contam-se o ex-autarca de Nova Iorque, Michael Bloomberg, que também irá falar na CND até quinta-feira, e Richard Armitage, ex-vice-secretário de Estado da administração de George W. Bush, que no mês passado tinha dito ao “Politico”: “Se Donald Trump for o nomeado [republicano], irei votar em Hillary Clinton”.

A lista de pelo menos 31 apoiantes republicanos de peso, que parece ter engrossado desde que Trump foi formalmente anunciado como o candidato do Grand Old Party à Casa Branca no final da convenção do partido na quinta-feira, conta com vários outros ex-membros das administrações de Bush pai e Bush filho e figuras de relevo do Governo de Ronald Reagan.