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Em França há medo. De tudo

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PASCAL ROSSIGNOL

França destroçada com novo atentado - dois homens armados com facas sequestraram cinco pessoas e mataram um padre. “Estamos em guerra”, dizem políticos e cidadãos. Em França há medo. De tudo. Agora também de represálias descontroladas contra os muçulmanos

É já uma rotina aflitiva. Atentados sucessivos, angústia em crescendo, franceses atordoados numa vertigem de lutos, de cólera e de incompreensão. Mesmo as palavras sofridas de um presidente François Hollande, visivelmente destroçado, ao fim desta manhã, no local do atentado terrorista, numa igreja em Saint-Etienne-du-Rouvray, perto de Rouen, na Alta Normandia, já fazem parte desta negra rotina francesa.

“É um ignóbil e cobarde atentado terrorista, ligado ao Daesh, estamos mobilizados com todas as forças para combater o terrorismo”, disse o chefe do Estado. Hollande já repetiu as mesmas palavras vezes sem conta. Desde há 18 meses que é assim, em França, que chora quase 250 mortos em atentados terroristas neste período. Dramas, promessas de guerra ao terrorismo, em França e no estrangeiro.

“Estamos em guerra”, dizem quase todos os franceses, incluindo o primeiro-ministro, Manuel Valls. Um padre foi degolado, um dos reféns ficou gravemente ferido, os dois sequestradores que durante esta manhã tomaram de assalto uma igreja da pequena localidade normanda foram abatidos pelas forças especiais da polícia.

A essa hora, a meio da manhã, este repórter estava num táxi, em Paris. O motorista ouvia “France Info”, uma rádio de informação permanente, era judeu, estava furioso. “É preciso arrasar toda a zona controlada pelo Daesh, com todas as nossas armas, incluindo nucleares, prender estes muçulmanos todos dos subúrbios, matá-los se for preciso”, exclamava, fora de si.

Quase todos os franceses estão angustiados e, muito mais do que exasperados, estão em cólera. O ex-presidente, Nicolas Sarkozy, aparentemente também. Numa curta declaração, esta tarde, Sarkozy, que é candidato da direita francesa às presidenciais, disse: “Estamos em guerra, agora é eles ou nós, não podemos ficar por meias medidas”. A direita francesa pede prisões em série, ou pelo menos “controlos sistemáticos” de milhares de pessoas registadas de perto ou de longe com o radicalismo religioso.

Nunca se viu uma situação destas em França. Um francês de 70 anos, vizinho deste correspondente, no bairro número 11 de Paris, o mais flagelado por atentados, disse-me: “Receio que comecem a verificar-se represálias, que muçulmanos comecem a ser atacados, acho que vai acontecer, vai ser terrível”.

Pavorosa perspetiva. Um dos sequestradores da igreja de Saint-Etienne-du-Rouvray teria estado preso até há pouco tempo, por ligações a movimentos radicais islâmicos. Teria tentado ir combater para a Síria, estava em liberdade condicionada, usava pulseira eletrónica e tinha autorização para sair de casa entre as 8h30 e as 12h30. Saiu de casa na manhã de hoje e terá sido ele que degolou o padre católico.

A França há medo. De tudo. Georges Fenech, deputado de direita, presidente da comissão de inquérito parlamentar sobre os terríveis atentados de 2015, defende a criação de um “Guantanamo à francesa” para gerir a situação. “Um Guantanamo à francesa será a solução mais simples. Uma prisão destinada a indivíduos radicalizados”, disse o parlamentar francês.

O novo ataque, na Normandia, ocorreu quando estão em curso polémicas sobre as falhas de segurança em Nice, durante o massacre da noite do dia 14 de julho - 84 mortos e, 12 dias depois, dez feridos em perigo de vida.