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Dezenas de milhares de turcos unidos em protesto pró-democracia em Istambul

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Chris McGrath

Manifestação deste domingo foi convocada pelo CHP, um dos principais partidos da oposição na Turquia, mas teve o apoio do AKP, do Presidente Recep Tayyip Erdogan. Esta segunda-feira, Governo ordenou detenções de mais 42 jornalistas

Dezenas de milhares de pessoas estiveram este domingo concentradas na praça Taksim para um protesto quase inédito na história moderna da Turquia, que reuniu no centro de Istambul apoiantes do AKP do Presidente Recep Tayyip Erdogan e simpatizantes do Partido Republicano (CHP), um dos maiores da oposição, contra a tentativa falhada de golpe de Estado há mais de uma semana.

O protesto pró-democracia foi organizado pelo CHP mas teve o apoio do AKP, numa rara demonstração de unidade que viu o líder da oposição, Kemal Kilicdaroglu, discursar aos manifestantes num evento transmitido em direto na televisão turca.

"O parlamento aguentou-se orgulhoso, a Turquia aguentou-se orgulhosa, os deputados aguentaram-se orgulhosos, as pessoas nesta praça aguentaram-se orgulhosas e a democracia venceu!", declarou Kilicdaroglu em referência ao golpe falhado que terá sido levado a cabo por uma fação do exército turco.

O líder do CHP não deixou de sublinhar a importância de se respeitarem as liberdades de expressão e de reunião, alertando para os perigos do autoritarismo e de medidas ditatoriais, embora sem referências diretas às purgas que Erdogan tem levado a cabo desde a tentativa de golpe, que já levaram às detenções de 13 mil pessoas, sobretudo de oficiais das forças armadas e de segurança, e a mais de 50 mil despedimentos em vários setores públicos, da Justiça à Educação.

"O Estado não pode ser governado por rancores, fúria e preconceitos", deisse Kilicdaroglu. "Os responsáveis pelo golpe devem ser julgados legalmente, com total entendimento e respeito pelo Estado de Direito."

Desde a tentativa de golpe, cujos contornos ainda não foram totalmente apurados, Erdogan tem levado a cabo uma criticada limpeza de opositores e críticos, ordenando ainda o encerramento de 24 estações de rádio e de televisão e a retirada de carteiras profissionais a mais de 100 jornalistas.

Esta segunda-feira de manhã, de acordo com o canal turco privado NTV, o regime emitiu mandados de detenção contra outros 42 jornalistas, entre eles Nazli Ilicak, famosa comentadora política e ex-deputada. O parlamento turco prepara-se ainda para debater e aprovar a reintrodução da pena de morte, que tinha sido abolida no início dos anos 2000 para cumprir uma das condições exigidas pela União Europeia para avançar com o processo de adesão da Turquia ao bloco.

A par disso, a Amnistia Internacional e a Human Rights Watch dizem ter provas concretas e fidedignas de que o regime turco está a sujeitar as dezenas de milhares de detidos a espancamentos e torturas, incluindo violações. "É absolutamente imperativo que as autoridades turcas suspendam estas práticas aberrantes e permitam que monitores internacionais visitem todos os detidos nos locais onde estão a ser mantidos", disse em comunicado o direito da Amnistia na Europa, John Dalhuisen.

Na quarta-feira, o governo decretou o estado de emergência em todo o país e suspendeu a Convenção Europeia de Direitos Humanos, alargando para 30 dias o período máximo de detenções sem acusações formais. De acordo com o procurador-geral turco, citado pelos media locais, 1200 soldados que foram detidos no rescaldo do golpe falhado já foram libertados.

Segundo a BBC, milhares de outros oficiais das forças armadas, incluindo mais de 100 generais e almirantes, continuam detidos. No sábado, a guarda presidencial turca perdeu quase 300 membros que também foram detidos por suspeitas de ligações à tentativa de golpe.