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Em Alepo, a “violência ameaça milhares e milhares de vidas”

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KARAM AL-MASRI/Getty Images

O cerco do regime sírio à cidade de Alepo pode pôr em risco a vida de 300 mil pessoas, pela privação de medicamentos e comida

Helena Bento

Jornalista

Quatro hospitais de campanha e um banco de sangue foram atingidos pelos bombardeamentos aéreos que têm fustigado a cidade síria de Alepo nas últimas 24 horas. Um recém-nascido, que se encontrava num desses hospitais, morreu depois de um ataque aéreo ter levado ao corte de energia e do abastecimento de oxigénio, afirmou a AFP, citando a Associação de Médicos Independentes (IDA).

Parcialmente controlada pelos rebeldes e quase totalmente cercada pelas forças do regime, Alepo é uma cidade à beira da tragédia. “A situação é devastadora. Dezenas de civis são mortos todos os dias, enquanto muitos outros são feridos, atingidos por bombas, morteiros e rockets. Os bombardeamentos são constantes. A violência ameaça milhares e milhares de vidas, habitações e recursos”, afirmou a responsável pela delegação da Cruz Vermelha na Síria, Marianne Gasser, citada pela AFP.

Há precisamente uma semana, o Exército sírio e as milícias aliadas, como o Hebzollah, tomaram o controlo da única estrada de acesso à área nas mãos da oposição. Foi um passo significativo para o regime do Presidente Bashar al-Assad, que está agora cada vez mais próximo de cercar totalmente a cidade. A ocupação dessa estrada - designada estrada do Castello - preocupa organizações não-governamentais e de apoio humanitário. É que até agora era por ali que entravam as carrinhas da Cruz Vermelha Internacional, carregadas de comida e medicamentos.

Milhares de pessoas enfrentam riscos crescentes de fome em Alepo. Um dos voluntários do White Helmets, força de socorros não-governamental, disse à Al-Jazeera que neste momento“ só existem duas padarias para abastecer os 300 mil habitantes da cidade”. Já no início deste mês, Zeina Khodr, correspondente da mesma televisão árabe, alertava para as consequências de um eventual cerco, dizendo que “iria causar mais sofrimento numa cidade que já se encontra devastada pela guerra”. Na mesma altura, uma ativista residente em Alepo previa que o último abastecimento de medicamentos e bens alimentares fosse suficiente apenas para um mês.

A destruição de hospitais em Alepo não é de agora. Em abril, na mesma semana em foi bombardeado o hospital al-Quds (morreram 65 pessoas, incluindo três médicos), foram atacados outros dois centros médicos. No último mês, há também registo de vários ataques a hospitais, que causaram muitas baixas entre o pessoal médico. De acordo com a Organização de Saúde Mundial, a Síria é, atualmente, o país mais perigoso do mundo para médicos e enfermeiros. Recorde-se que o conflito sírio fez já mais de 280 mil mortos, obrigando milhões de pessoas a fugirem do país.

Horas depois dos bombardeamentos que atingiram os quatro hospitais, no bairro de Al-Shaar, na zona leste da cidade síria, o Ministério sírio dos Negócios Estrangeiros afirmou estar disposto a dialogar com a oposição “sem condições prévias” e sem “interferências externas”, avançou a agência oficial Sana, citando um responsável.

Na semana passada, o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, encontrou-se em Moscovo com o seu homólogo russo, Sergei Lavrov, e com o Presidente Vladimir Putin. Os três dirigentes concordaram na necessidade de dar “passos concretos” para salvar o que resta - se é que alguma coisa resta - da frágil trégua, e de coordenar esforços no combate às fações jiadistas na Síria. Kerry e Lavrov deverão retomar a discussão ainda esta semana, em Laos, onde vai decorrer uma reunião da Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN).