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‘Codfather’ português é julgado nos EUA

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Não é a primeira vez que o açoriano Carlos Rafael enfrenta a Justiça norte-americana

Peter Pereira / 4SEE

Armador acusado de receber “sacos de dinheiro” vai a tribunal em janeiro. “Fizeram-me uma cilada”

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

“Quando era puto e andava a correr descalço pelas ruas do Corvo fartava-me de bater com o dedo grande do pé nas pedras”, recorda Carlos Rafael. O armador de 64 anos que vive nos EUA desde a adolescência garante que o processo que o opõe à Justiça Federal tem a mesma intensidade dessas “topadas”, nome dado pelas crianças da pequena ilha a esses pontapés em falso. A dor, aguda nos primeiros minutos, já passou: “Vou levar uns murros na carteira, isso eu sei. Mas estou confiante que isto nem vá em frente.”

O início do julgamento deste magnata da pesca comercial, que foi detido em fevereiro e libertado depois de pagar uma fiança de 1 milhão de dólares (cerca de 900 mil euros), está marcado para o próximo mês de janeiro. Carlos Rafael é acusado de conspiração, falsificação de relatórios para violar quotas de pesca e contrabando de dinheiro. Crimes que podem dar pena até 20 anos de prisão.

Em Portugal é praticamente um desconhecido mas nos Estados Unidos chamam-lhe ‘Codfather’, um trocadilho com a obra-prima de Coppola, ‘Godfather’ (o ‘Padrinho’). Com 47 navios de pesca, o açoriano gere a Carlos Seafood, uma das maiores frotas pesqueiras da costa leste, em New Bedford, no Estado de Massachusetts que gera lucros milionários. “Nos anos 80, eu era o produtor que mais bacalhau descarregava nesta cidade, daí esta alcunha”, explica com orgulho.
Mas a alcunha é pejorativa. Não é a primeira vez que o português tem problemas com a Justiça norte-americana. Nos anos 90, foi julgado juntamente com outros empresários do ramo, sob suspeita de controlarem o preço do peixe naquele Estado. “Acusaram-nos de price fixing. Mas, well, nunca se provou nada. Não controlávamos preços nenhuns porque nos f... uns aos outros pelas costas”, diz o emigrante que não é conhecido pelo discurso politicamente correto. Nem pela subtileza.

Há poucos meses, três agentes federais do Departamento do Tesouro que se faziam passar por empresários da máfia russa interessados em tomar conta do seu negócio apanharam-no em flagrante. O açoriano e a contabilista confessaram-lhes que a Carlos Seafood conseguiu obter 600 mil euros de lucro em seis meses através de um negócio paralelo de compra e venda de peixe. “Fizeram-me uma cilada”, reconhece hoje. Carlos Rafael lembra-se de uma frase que guarda hoje na memória com amargura. “Ainda lhes disse: ‘Só me faltava que vocês fossem agentes do IRS.’ E eram mesmo, os filhos da p...”

A Justiça americana acusa-o de esquemas como usar compartimentos falsos para transportar peixe, rótulos errados para evitar as quotas ou receber sacos de dinheiro pela venda de pescado a um negociante de Nova Iorque. “Não tenho nada a dizer sobre o caso que está entregue a bons advogados.”

Em New Bedford, onde os barcos de pesca são batizados com nomes como “Santa Maria” ou “Angra do Heroísmo”, o caso de Carlos Rafael gera ódios e paixões. Há os que lembram que o emigrante sustenta milhares de famílias não só na região como também nos Açores, mas também os que o acusam de contornar as leis há vários anos, com a cumplicidade de algum poder local. “É um self made man que enriqueceu com o negócio do peixe, que é muito importante aqui. Um homem influente”, resume Francisco Resendes, diretor do jornal local “Portuguese Times”.

Cúmplice luso-americano

Há dois meses, a investigação voltou a causar estragos. António M. Freitas, um xerife de Bristol, também em Massachusetts, foi detido por contrabando de dinheiro, no âmbito da mesma investigação. Existem fortes suspeitas de que o luso-americano tenha ajudado Carlos Freitas a transportar o seu dinheiro para fora do país. Os procuradores do caso acusam o xerife de ter beneficiado do acesso a áreas restritas do aeroporto de Boston para passar ilegalmente 17,5 mil dólares (15 mil euros). Dinheiro que terá sido depositado numa conta bancária em Portugal em nome do empresário do Corvo.

Até ao fecho da edição, a Procuradoria-Geral da República não esclareceu se Portugal está a colaborar com as autoridades norte-americanas neste caso. Com o passaporte confiscado, Carlos Rafael está legalmente impedido de sair dos Estados Unidos. Mas o empresário acredita que no próximo mês de novembro, altura do ano em que viaja religiosamente até aos Açores, esteja a sobrevoar o arquipélago. “Vou dar este ano o meu jantar de ação de graças aos deportados e órfãos de São Miguel. Tenho a certeza disso.”