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Anatomia de um golpe

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OZAN KOSE/GETTY IMAGES

Agora que a volatilidade dos primeiros dias já desapareceu, surgem aos poucos os detalhes que permitem montar o puzzle de um golpe falhado

Quando, na noite da passada sexta-feira, as primeiras informações surgeriram que os militares tinham ocupado a ponte sobre o Bósforo, muita gente pensou que tinha acontecido outro atentado bombista. Momentos depois, os primeiros aviões F16 sobrevoaram Ancara e Istambul a baixa altitude, lançando surpresa e apreensão. Aos poucos, os 80 milhões de turcos começaram a tomar consciência que estava em curso um golpe de estado – as próximas horas mergulhariam o país numa nuvem de violência, incerteza, e confusão, que certamente deixarão marcas profundas nos anos vindouros.

Agora que a volatilidade dos primeiros dias já desapareceu, surgem aos poucos os detalhes que permitem montar o puzzle de um golpe falhado. É hoje claro que as operações golpistas foram muito mais duras e generalizadas do que uma primeira análise faria prever. O golpe, alegadamente liderado pelos generais Akin Ozturk (ex-comandante da Força Aérea), Adem Huduti (comandante do Segundo Exército, em ação no sudeste) e Erdal Oztürk (comandante da Terceira Brigada, teoricamente uma força de reação rápida da OTAN), já estaria em preparação há algum tempo, e iria decorrer antes de uma reunião do Supremo Conselho Militar (YAS) do início de agosto, quando várias chefias militares seriam destituídas no seguimento de investigações em curso por alegadas ligações ao movimento Gulen. O golpe terá sido antecipado porque terá havido uma fuga de informações, e foi efetuado de urgência, o que poderá explicar alguma da impreparação observada.

Mesmo assim, o Presidente Recep Tayyip Erdogan esteve à beira de ser detido no hotel onde estava a passar férias à beira-mar – um comando helitransportado invadiu as instalações 15 minutos após o presidente ter saído discretamente, apenas com um segurança, deixando no local toda a sua comitiva. Nos confrontos no hotel morreram três membros do staff presidencial, mas Erdogan já estava a caminho do aeroporto de Dalaman, a uma hora de distância. Depois, já no ar, e protegido por dois F16 leais, o avião presidencial foi intercetado por dois F16 golpistas, o que levou a um jogo do gato e rato aéreo - o jato de Erdogan teve de dar muitas voltas até a ameaça desaparecer antes de desembarcar em Istambul – isto talvez ajude a perceber a cara lívida e abalada com que falou à imprensa no aeroporto de Ataturk.

A maior parte dos jatos golpistas descolou da base aérea de Akinci, 50 kms a noroeste de Ancara. Quando os populares receberam a mensagem de Erdogan, apelando à mobilização contra os golpistas, uma pequena multidão tentou forçar a entrada na mesma, mas foram repelidos a tiro – só aí morreram sete civis. Os populares queimaram então feno para tentar evitar a descolagem dos aviões que, entretanto, aterrorizavam as populações de Ancara e Istambul – mas só a ação de jatos leais permitiu neutralizar a base golpista. Os F16 putchistas tiveram então de ser reabastecidos no ar com dois aviões cisterna da base aérea de Incirlik, a mesma onde estão estacionados os aviões americanos ativos na guerra contra o Daesh. O comandante da base já foi detido, depois de os americanos terem recusado o seu pedido de asilo.

O chefe de Estado Maior General das Forças Armadas, Hulusi Akar, e outras chefias militares de topo, estiveram sempre do lado do Governo. Akar foi raptado do seu escritório em Ancara e levado para Akinci. Após ter recusado a oferta de se tornar o novo homem-forte do país, foi ameaçado e fisicamente abusado. Muitos outros generais de topo foram raptados numa festa de casamento num club da moda em Istambul. O chefe da unidade anti-terrorista da polícia foi morto à queima-roupa.

O complot chegou fundo, mesmo até ao círculo mais próximo do presidente – o seu ajudante de campo já foi detido. Talvez por isso, Erdogan demorou vários dias a regressar a Ancara – em Istambul ele estava protegido pelo fiel Primeiro Exército. Foi o seu comandante que terá informado Erdogan do golpe, prometendo-lhe lealdade e aconselhando-o a vir para Istambul. O mesmo comandante substituiu Akar (enquanto este esteve refém) durante as operações anti-golpe.

A brutalidade do golpe é hoje conhecida. Na ponte sobre o Bósforo, tanques esmagaram carros, enquanto em Ancara helicópteros dispararam sobre civis a protestar numa avenida. Um helicóptero golpista disparou um míssil sobre dois veículos das forças especiais da polícia à saída da sua sede, matando 26 operacionais. Entre os edifícios bombardeados em Ancara, estão o palácio presidencial, a sede dos serviços de Informação (MIT), a sede da polícia, a sede das forcas especiais da polícia (onde morreram 47 elementos), entre outros.

O escritório do primeiro-ministro em Istambul foi também atacado. Binali Yildirim escapou, e depois de falar na TV a anunciar a tentativa de golpe de Estado por “uma minoria nas forças armadas”, decidiu viajar para Ancara por via terrestre e por estradas secundárias – na altura, a meia dúzia de F16 golpistas tinham a supremacia aérea. Na província de Kastamonu, a sua comitiva foi alvejada por forças da Jandarma, e o primeiro-ministro refugiou-se, então, num local seguro onde passou a noite antes de continuar viagem para Ancara, no dia seguinte.

O golpe falhou sobretudo porque os putschistas não conseguiram parar as telecomunicações – incluindo as redes sociais. Tomaram de assalto apenas a televisão pública, onde fizeram ler um comunicado; só muito tarde tentaram fechar influentes canais privados (incluindo a CNN Turk), mas já era demasiado tarde. Nessa altura, o génio já estava de fora da garrafa - Erdogan já apelara ao povo para sair às ruas pelo Facetime. Os fiéis seguidores do presidente – sobretudo a ala mais islamista – respondeu prontamente, invadindo as praças e avenidas turcas aos magotes, por entre apelos à mobilização proferidos pelos altifalantes das mesquitas.

Depois, a polícia defendeu Erdogan – ele que nos últimos dez anos lhe tem dado poder e competências, precisamente para contrabalançar o poder dos militares, em quem nunca confiou. Às primeiras horas da manhã de sábado, os militares golpistas que ainda restavam davam os últimos tiros, já desesperados.

Finalmente, a alta hierarquia militar não aderiu ao mesmo – apesar de 25% dos generais da Turquia já tem sido detidos. A verdade é que o CEMGFA e outros comandantes cruciais mantiveram-se leais. “Vocês são loucos”, repetia Akar continuamente, enquanto era mantido refém pelos golpistas. No fim, Erdogan sobreviveu – e a Turquia evitou uma provável guerra civil.