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As amizades perigosas de Mariano Rajoy

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SIM, MAS... Mariano Rajoy, o ainda chefe do Governo (de gestão), deverá ser convidado a formar Governo. Mas conseguir apoio parlamentar para ele é outra história...

ANDREA COMAS

O primeiro-ministro terá chegado a acordo com nacionalistas catalães e bascos. O partido Cidadãos torce o nariz

A incerteza continua a dominar o panorama político, apesar das diferenças entre o atual clima e o que se seguiu às eleições de 20 de dezembro passado (fiasco na formação de Governo) e de a ida às urnas de 26 de junho ter esclarecido algumas incógnitas. O que ainda não há é um Governo estável que resolva os graves problemas pendentes após oito meses de exasperante paralisia institucional.

A principal diferença é que desta vez Mariano Rajoy, líder do Partido Popular (PP, centro-direita,vencedor das legislativas), assumiu a tarefa de formar um Executivo. Embora só deva ser convidado pelo rei a 28 de julho, após a ronda de audiências de Filipe VI com os partidos representados no Congresso dos Deputados, Rajoy já avançou muito nas negociações para obter apoios.

Com os 137 assentos de que o PP dispõe, Rajoy não poderá ser investido na primeira convocatória, porque para isso precisaria de uma maioria absoluta de votos a favor (176 deputados). É mais provável a investidura acontecer à segunda votação, na qual a lei só exige mais votos a favor do que contra. Rajoy conta com a abstenção pactuada dos 32 do Cidadãos (C’s, centro liberal), mas precisa de pelo menos mais sete votos.

Para superar a previsível soma de votos contra do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE, social-democrata) e da aliança Unidos Podemos (UP, esquerda populistas e comunistas), Rajoy precisa dos votos a favor ou da abstenção dos nacionalistas catalães e bascos, ideologicamente afins ao PP. O governante admitiu estar disposto a governar em minoria, negociando as iniciativas legislativas caso a caso. Há condições para o apoio dos nacionalistas se concretizar.

O PP conseguiu eleger Ana Pastor como presidente do Congresso dos Deputados graças a dez votos e várias abstenções que terão vindo (numa votação secreta) do Partido Nacionalista Basco (PNV) e das duas bancadas catalãs — Partido Democrata Catalão (PDC, refundação da Convergência Democrática da Catalunha, de Jordi Pujol e Artur Mas, que governou a região mais de 30 anos) e Esquerda Republicana da Catalunha. Ambas são independentistas, o que era anátema para o PP.

A cedência de votos foi reconhecida por um porta-voz do PP mas negada pelo PNV e pelo PDC. Reforça a ideia de pacto secreto, como o Expresso avançou há três semanas. É surpreendente a facilidade com que o primeiro-ministro passou de considerar o PDC pouco menos do que uma encarnação demoníaca a tê-lo por sócio fiável. Até à deriva separatista de Artur Mas, contudo, houve vários casos de colaboração entre o PP e a então CDC, hoje PDC.

Pactos destes têm um preço. Embora ninguém o tenha explicado, a contrapartida poderá ser um aliviar da difícil situação económica do governo regional da Catalunha. A vice-primeira-ministra espanhola, Soraya Santamaría, prometeu recentemente ao número dois catalão, Oriol Junqueras (líder da ERC), uma ajuda de 2000 milhões de euros, indispensáveis para a região pagar salários.

O PDC poderá ter recebido promessas de apoio ao presidente catalão, Carles Puigdemont, no Parlamento regional. A pressão da Candidatura de Unidade Popular (CUP, esquerda radical separatista) obrigou Puigdemont a adiar a aprovação do orçamento e a apresentar uma moção de confiança, que será votada depois do verão. Por último, o PDC receberá apoio do PP para formar grupo parlamentar próprio em Madrid, prerrogativa que os seus resultados eleitorais não asseguravam.

Socialistas pressionados

Sem espanto, o hipotético pacto com os nacionalistas caiu muito mal junto do C’s, nascido há dez anos para combater o separatismo. O partido de Albert Rivera já avisou que, a confirmar-se o acordo, poderá votar contra Rajoy nas duas rondas de investidura, em vez de se abster na segunda.

A ira do C’s repercute-se no PSOE. O secretário-geral, Pedro Sánchez, está sob pressão, cabendo-lhe grande parte da responsabilidade de evitar terceiras eleições. Vários sectores sociais e económicos pedem que não bloqueie a investidura de Rajoy, optando pela abstenção (Sánchez teria de se desdizer). Argumentam com a necessidade de um Governo que aprove um orçamento, cumpra as exigências da União Europeia e reforce a unidade dos partidos face às ameaças à segurança na Europa.

Se a vida correr bem a Rajoy, poderá ser investido a 5 de agosto; formar o novo Governo, cuja composição já decidiu, no dia 6; tomar posse perante o rei na segunda-feira, dia 8; ir de férias até 18; e reunir o primeiro Conselho de Ministros no dia 19. Terminaria a mais aguda e duradoura crise política por que Espanha passou em democracia.