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Aos comandos deste avião está a primeiro piloto amputada da Força Aérea Norte Americana

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E fez-se história. Uma incrível história de vida. De dor e esperança. De sonho e determinação. Tudo começou há 469 dias quando um trágico acidente roubou parte da perna direita à capitão piloto-aviador Christy Wise

Carlos Abreu

Jornalista

Podia ter sido o fim de uma promissora carreira militar como piloto-aviador da Força Aérea dos Estados Unidos (USAF, na sigla inglesa). Mas não foi. E 469 dias depois de um terrível acidente ter obrigado os médicos a cortar a perna direita abaixo do joelho, a capitão Christy Wise, da 71.ª esquadra de busca e salvamento, tornou-se, aos 28 anos, o sexto piloto amputado da USAF, e a primeira mulher, a voltar ao cockpit.

11 de abril de 2015. Arredores de Shalimar, Florida. A noite já tinha caído mas Christy e o seu namorado, remavam tranquilamente num paddle quando foram abalroados por uma embarcação de recreio. A jovem piloto fez tudo para evitar o acidente assim que se apercebeu que não estava a ser vista, acenado incessantemente com a flashlight – uma luz de sinalização intermitente - que trazia à cabeça. Mas quem vinha na embarcação não se desviou e quando a colisão estava iminente, Christy Wise atirou-se à água com o objetivo de mergulhar o mais fundo possível. Quando regressou à superfície percebeu que a sua perna direita não tinha escapado à hélice.

O seu namorado, Tim Wiser, também ele um piloto da USAF, lançou-se então numa frenética corrida contra o tempo para estancar a hemorragia. O primeiro garrote foi improvisado com uma T-shirt da própria Christy. Alguns minutos depois, já numa embarcação de pesca que os haveria de socorrer e transportar para terra firme, substituiu a T-Shirt por um pedaço de rede. A jovem piloto tem a certeza que foi a pronta e adequada intervenção de Tim que fez com que aguentasse os 45 minutos que demorou a chegar, desde o momento do acidente, ao hospital em Pensacola. Para além de Tim, um outro homem deu-lhe força durante a viagem: o também piloto-aviador amputado num acidente com um barco, Ryan McGuire. “Se o Ryan conseguiu, eu também haveria de conseguir”, revelou Christy Wise.

Do hospital na Florida rumou a um centro de reabilitação no Texas onde haveria de, durante oito meses reaprender a caminhar e a correr para poder voltar a voar aos comandos de um Hércules C-130J da 71.ª esquadra de busca e salvamento. Mas já lá vamos porque decorridas escassas nove semanas sobre o acidente, a capitão Wise decidiu participar nos Wounded Warrior Games 2015, uma espécie de Jogos Paralímpicos para militares organizados pelos Departamento de Defesa norte-americano, o equivalente ao Ministério da Defesa em Portugal.

Durante os dez dias de provas, que no ano passado decorreram em junho em Quantico, no Estado da Virginia, e nas quais participaram 270 atletas, Christy Wise conquistou 11 medalhas, da natação às corridas em cadeira de rodas, passando pelo triatlo adaptado.

Em maio, voltou à competição, desta feita nos Jogos Invictus, em Orlando, na Florida. Na edição deste ano do megaevento paralímpico fruto da iniciativa do príncipe Harry, filho mais novo do herdeiro do trono britânico e da sua primeira mulher Diana Spencer, a capitão Wise pôs-se à prova no ciclismo, natação, lançamento do peso, entre outras modalidades.

Mas a prova que tinha mesmo de vencer para continuar a alimentar o sonho de voltar a voar, ainda vinha a caminho: o teste de condição física a que todos os militares têm de se submeter para poderem ser dados como aptos, com a sua corrida de uma milha e meia (2414 metros). Os candidatos do sexo feminino têm de percorrer a distância, no máximo, em 13m56s. Wise fê-lo em 13m54s. Alguns dias antes, o comandante da esquadra – seguro de que ela iria vencer mais este desafio - disse-lhe que esperava ansiosamente pela prova porque sabia que a partir desse momento nenhum militar teria desculpa para chumbar.

Na sexta-feira, dia 22, a capitão Christy Wise entrou para a história da aviação militar norte-americana ao tornar-se o sexto piloto amputado, e a primeira mulher, a voar aos comandos de uma aeronave da USAF. Nesta missão de requalificação voou por instrumentos, teve de resolver avarias simuladas e estacionar o enorme Hércules C-130J na placa. Um voo que haveria de terminar com um forte aplauso dos seus camaradas.

Da próxima vez que voltar a descolar da Base Aérea de Moody, no estado da Geórgia, a casa da 71.ª esquadra de busca e salvamento, terá se ser capaz de reabastecer a aeronave em pleno voo, lançar uma carga sobre um alvo e projetar PJ’s, a sigla inglesa para “pararescuemen”, paraquedistas especializados em prestar socorro e resgatar militares e civis feridos em teatros de operações, mais ou menos violentos.

“Tenho de trabalhar muito para ganhar força na perna direita, a da prótese, e ser capaz de equilibrar a pressão que tenho de fazer nos pedais do leme de direção com as duas pernas. E que já tenha estacionado um C-130 sabe que é preciso fazer muita força para trava-lo na placa. Até para quem tem as duas pernas é difícil fazê-lo”, confessou Wise à repórter Oriana Pawlyk do “Air Force Times”.

Lá para o inverno, a capitão Wise deverá cumprir o seu segundo destacamento além-fronteiras. No primeiro, em 2012 no Afeganistão, cumpriu seis missões de resgate. Mas esta história não termina aqui.

Durante a longa fase de recuperação, Wise, por sugestão do seu namorado, teve ainda tempo para criar uma fundação – a One Leg Up On Life Foundation - que tem como principal objetivo apoiar a luta da sua irmã gémea, Jessica, médica de profissão, na entrega de próteses a criança amputadas, vítimas de desastres naturais como por exemplo no Haiti em 2010. Porque à medida que crescem também elas deixam de servir. E em abril passado, Christy Wise foi até lá visitá-las.