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O depoimento impressionante do homem que salvou sozinho mais de 20 pessoas

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Kasper Ilaug podia ser apenas um dos vários noruegueses que ficaram chocados com as ações de Anders Breivik, mas a sua relação com o ataque terrorista vai muito além disso. Kasper foi um dos voluntários que ajudaram a resgatar jovens da ilha de Utøya naquele 22 de julho em que 77 pessoas foram assassinadas − faz esta sexta-feira cinco anos. Sozinho, salvou mais de 20 vidas. Este é o relato na primeira pessoa que prestou ao Expresso sobre esse dia fatídico

TEXTO KASPER ILAUG (A PARTIR DE UM DEPOIMENTO RECOLHIDO POR CÁTIA BRUNO)

Eu estava na minha casa de campo. Tenho uma casinha na ilha Storøya, uma das ilhas grandes que ficam perto de Utøya, onde há 79 casas, um campo de golfe e uma quinta que existe há centenas de anos.

Estava de férias e estava a assistir ao Tour de France. Subitamente, a corrida foi interrompida com informações sobre a bomba em Oslo, no bairro do Governo. Fiquei um pouco irritado, porque queria saber o resultado do Tour… E o Thor Hushovd [ciclista norueguês] estava à frente, por isso eu estava entusiasmado. Mas quando vi que esta notícia estava em todos os canais, percebi que o assunto era sério. Liguei à minha irmã e à minha filha − estavam todos bem.

Meia hora mais tarde, um amigo que tem uma casinha perto da minha ligou-me e disse-me que estava a haver um tiroteio em Utøya, que havia pessoas a nadar para se salvarem e que tinha de ir ajudá-los. Eu sabia que estava frio, andava a chover o mês de julho inteiro − eu e a minha irmã gostamos de nadar e naquele mês de julho ainda não o tínhamos feito porque a temperatura da água não ia acima dos 14, 15 graus. “Não tenho nenhum barco”, respondi ao meu amigo. Ele sugeriu que eu usasse o barco de um amigo nosso. Só que esse estava avariado, o motor parava ao fim de 45 minutos. Era um grande problema.

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Fui buscar o barco e tentei ligá-lo. Tentei ligá-lo seis vezes. Depois parei e pensei: “Vou tentar mais uma vez. Se não funcionar, desisto.” De repente, à sétima tentativa, o motor ligou-se. Dirigi-me lentamente para a ilha, tentando poupar o motor, mas sabia que a certa altura o barco iria acabar por parar.

Quando cheguei perto da ilha, percebi a gravidade da situação, porque havia muitas pessoas mortas na costa. Alguns corpos boiavam na água. Estavam em roupa interior, tinham tirado a roupa para tentar nadar. Não tinham conseguido salvar-se. Andei ao longo da costa e dei com um grupo de pessoas a acenar. Aproximei-me e disse para entrarem no barco, um a um. A embarcação tem capacidade para seis pessoas e uns cinco metros de comprimento. Chama-se ‘Viking Prateado’ − acho que é um bonito nome para um barco.

A certa altura tive de impedir que entrassem mais pessoas, porque o barco já estava cheio. Éramos 14 a bordo, 14! Incluindo eu, e eu sou um tipo grande, tenho 1,89m de altura. Pedi-lhes para parar, para voltarem para trás e procurarem abrigo. Prometi que voltaria para os apanhar. Lembro-me de ter pensado para mim próprio “será isto necessário, será justo deixar quatro pessoas nesta situação?”. Mas decidi que tinha de fazê-lo. Tinha de me manter calmo e tentar controlar a embarcação. Disse às pessoas que trazia: “Agora vão ter de ficar calmos e deitar-se no chão para se esconderem”. Estavam todos uns em cima dos outros. Disse-lhes que os ia levar para um lugar onde estavam a salvo, onde estavam a polícia e as equipas de salvamento. Disse-lhes que lhes iriam trazer casacos, que iriam ver as suas famílias e descansar. Ninguém contestou.

Um dos vários memoriais que surgiram no país, este improvisado perto da ilha. Os ataques terroristas afetaram em muito os noruegueses −alguns estudos apontam que 1 em cada 4 tinha alguma ligação a alguém que estava no local dos atentados

Um dos vários memoriais que surgiram no país, este improvisado perto da ilha. Os ataques terroristas afetaram em muito os noruegueses −alguns estudos apontam que 1 em cada 4 tinha alguma ligação a alguém que estava no local dos atentados

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Levei-os para o acampamento improvisado. Estavam lá pessoas para os receber, que ficaram a tomar conta dos miúdos, por isso tive a certeza que estavam bem. Isso foi muito importante para nós, que andávamos a fazer as travessias com sobreviventes: ter a certeza que aqueles que salvávamos ficavam a salvo, para podermos concentrar-nos na próxima viagem.

Parti então uma segunda vez. Mas antes parei por um momento e tentei analisar a situação. Perguntei a mim mesmo se estava pronto para morrer e respondi que não. “Eu vou sobreviver a isto”, disse. Perguntei a Deus se tinha chegado a minha altura e fiz uma oração. Depois senti uma leveza e uma calma, como se alguém me estivesse a dizer “estás a salvo, vai ficar tudo bem”. Depois lembrei-me dos quatro miúdos que tinha deixado na costa e decidi que tinha de ir buscá-los. À volta, passámos por uma série de cádaveres na água. Fiquei aterrorizado por eles terem de ver isso.

Depois parti uma terceira vez. Desta vez, já havia muito mais barcos a fazer o mesmo que eu. Fui até à estação de tratamento de água da ilha, onde 14 pessoas foram mortas. Estavam lá três ou quatro pessoas, completamente em choque. À volta delas estavam os cadáveres dos jovens mortos. Depois fui para o Caminho dos Amantes [nome dado a um caminho remoto e escondido na ilha] e estavam lá algumas pessoas a andar muito devagar. Estavam claramente em choque, a vir na minha direção, muito devagarinho. Gritei-lhes “Este barco vai partir agora!”. Eles começaram a vir um pouco mais depressa.

Pus as nove pessoas dentro do barco e depois percebi que o motor já estava a funcionar há mais de uma hora. À quarta travessia, parou. Tentei ligá-lo de novo umas três vezes − bzzz, bzzz, bzzz − mas não reagiu. Lembrei-me que tinha visto uns amigos meus num dos outros barcos e liguei-lhes para saber se me podiam vir buscar. Eles vieram.

Breivik em tribunal

Breivik em tribunal

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Entretanto, a polícia mudou o acampamento onde estava a receber os sobreviventes para uma localização a 3,6 km de distância. Foi uma decisão terrível, na minha opinião. Liguei para o gerente do campo de golfe da minha ilha e perguntei-lhe se seria possível criar uma zona de evacuação no campo. Ele disse que sim.

Quando cheguei ao campo de golfe, dirigi-me às pessoas que lá estavam: um militar, um informático e um gerente. Estavam sentados no segundo andar a ver televisão. O sol tinha-se posto entretanto e eles estavam a ver televisão no escuro. “Preciso do vosso apoio para abrir isto, ligar as luzes e tudo o mais. Seria bom para os sobreviventes que chegam darem de caras com um lugar acolhedor”, disse-lhes. Não me responderam. Estavam apáticos. Olhavam para mim e para o ecrã e não respondiam − e eu conheço-os a todos pessoalmente. Fui então sozinho ligar as luzes em todos os andares.

Finalmente dirigi-me para a minha casa, porque percebi que tinha as botas cheias de agua e precisava de mudar de roupa. Estava vestido com um casaco vermelho e amarelo, com autocolantes refletores, e tinha um capacete que arranjei quando estava a construir a minha casinha. Vesti essas roupas quando saí de casa porque estava a chover, estava frio, mas também porque me sentia mais seguro nelas. Só mais tarde percebi que alguns agentes da autoridade me deixaram entrar e sair da ilha porque achavam que eu fazia parte das equipas de resgate, devido às minhas roupas.

Cheguei então finalmente a casa e vesti roupas secas. Fiz uma chávena de café, comi duas fatias de pão e pensei para mim mesmo: “Que raio foi isto que aconteceu?”.