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Hollande avisa Theresa May: sem circulação de pessoas não há circulação de bens

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STEPHANE DE SAKUTIN

Na sua paragem em Paris para um encontro com o Presidente francês, a nova primeira-ministra britânica recebeu duros avisos contra as pretensões do Reino Unido de manter uma perna dentro e outra fora da UE após o Brexit ser concluído

Theresa May foi recebida pelo Presidente francês em Paris com uma advertência: se o Reino Unido quer continuar a integrar o mercado único, não pode escolher cumprir apenas três dos quatro pilares do espaço europeu, ou seja, tem de respeitar e aceitar a livre circulação de pessoas se quer manter a livre circulação de bens, de serviços e de capital.

No primeiro encontro da nova líder britânica com François Hollande desde que 52% da população do Reino Unido votou a favor do Brexit no referendo de 23 de junho, Hollande deixou claro que as pretensões do Governo britânico em aumentar os controlos à imigração vão inevitalmente ditar a saída do mercado único europeu.

Essa escolha que May enfrenta foi sublinhada no encontro privado de ambos e diante dos jornalistas que cobriram a conferência de imprensa conjunta dos dois líderes no Palácio do Eliseu. "Esse é o nosso ponto crucial", disse Hollande em francês. "Esse é o ponto que estará no centro das negociações [da saída do Reino Unido da União Europeia]. O Reino Unido hoje tem acesso ao mercado único porque respeita as quatro liberdades. Se quiser continuar a integrá-lo é decisão sua definir até onde e como irá cumprir essas quatro liberdades. Nenhuma pode ser separada das outras."

As declarações intransigentes de Hollande sublinham as dificuldades que o Reino vai enfrentar ao leme de May e do homem que escolheu para ministro dos Negócios Estrangeiros, o ex-autarca de Londres e defensor maior do Brexit, Boris Johnson.

Apesar disso, o Presidente francês deu a entender que está disposto a apoiar a decisão de May em esperar até ao próximo ano para ativar o artigo 50.º do Tratado de Lisboa, que prevê a saída de um Estado-membro e que define um prazo de dois anos para que essa saída seja finalizada, a contar a partir do dia em que o processo começar formalmente.

Há alguns dias, a postura de Hollande quanto à ativação inédita desse artigo parecia ser outra, quando declarou em Dublin que os líderes europeus "tinham percebido que aconteceria em setembro, depois em outubro e depois dezembro" e que, por isso, o Reino Unido lhes devia "justificações". Ontem, já depois da conversa com May, Hollande aligeirou a sua opinião, dizendo "perceber que o Governo que acabou de ser formado precisa de tempo" para tomar decisões, mas sublinhando, ainda assim, que os britânicos devem "agir mais cedo do que tarde" por causa dos "interesses comuns da Europa" e "porque a incerteza é o maior perigo".

Quanto mais tempo passa, mais dúvidas surgem sobre se o Brexit vai efetivamente acontecer. Desde a consulta popular de 23 de junho que há cada vez mais gente a questionar até que ponto é que o Reino Unido estará disposto a ceder para cumprir o desígnio da saída da UE, com muitos especialistas, como os economistas Jacob Nell e Melanie Baker, a dizerem que é improvável que o Brexit saia do papel.

O lado mais positivo da reunião de May e Hollande foi provavelmente o consenso que alcançaram sobre o acordo Le Touquet, que define a partilha de autoridade fronteiriça no porto de Calais. Durante a campanha para o referendo, os apoiantes da permanência do Reino Unido na UE – entre eles May, o seu antecessor e na altura ainda primeiro-ministro, David Cameron, e o próprio Governo francês – avisaram que essa passagem poderia estar em risco e que a fronteira poderia ser alterada caso vencesse o Brexit. Um mês depois, May e Hollande garantem estar comprometidos com a manutenção das regras atuais.

Antes da reunião com o líder francês em Paris, May esteve em Berlim para se encontrar com a chanceler Angela Merkel, no primeiro de uma série de encontros com parceiros europeus que a primeira-ministra britânica vai estar a levar a cabo nas próximas semanas. Ao contrário de Hollande, a chanceler alemã não excluiu a possibilidade de ser alcançado um acordo com o Reino Unido que combine um certo nível de acesso ao mercado único com mais controlos à imigração.

Nos próximos meses, May vai continuar no seu périplo pelos Estados-membros da UE para tirar a temperatura ao bloco regional, apesar de Bruxelas ter proibido que quaisquer negociações formais ou informais aconteçam antes de o artigo 50.º ser ativado.