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Mais de 45 mil pessoas já foram detidas, despedidas ou suspensas na Turquia

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Gokhan Tan

Purga iniciada no rescaldo da tentativa de golpe de Estado na sexta-feira foi alargada aos sectores da educação e dos media e a departamentos do Governo

Desde que uma alegada fação do exército turco tentou levar a cabo um golpe de Estado contra o Presidente, Recep Tayyip Erdogan, e o Governo na sexta-feira à noite, num golpe travado que resultou em 232 mortos e mais de 1540 feridos, mais de 45 mil pessoas já foram detidas, despedidas ou suspensas de funções, numa purga de críticos e opositores que está a preocupar cada vez mais organizações não-governamentais e a União Europeia.

Nos primeiros três dias pós-golpe falhado, mais de seis mil membros do exército foram detidos, quase nove mil agentes da polícia ficaram sem emprego e cerca de três mil juízes foram suspensos de funções. Ao longo de terça-feira, a limpeza de gente incómoda alastrou-se ao sector da educação, dos media e ao próprio Governo.

Ao final do dia de terça-feira, os media do país noticiaram os despedimentos de 15.200 professores e funcionários de escolas, de 8777 funcionários do Ministério do Interior, 1500 do Ministério das Finanças e 257 do gabinete do primeiro-ministro, Binali Yildirim.

Três milhões de funcionários públicos estão agora impedidos de viajar para o estrangeiro. A par disso, 1577 decanos das universidades foram ontem obrigados a entregar cartas de rescisão aos cargos e o regulador turco da comunicação social retirou as licenças a 24 estações de rádio e de televisão acusadas de terem ligações a Fethullah Gulen.

Yildirim e Erdogan apontam o dedo aos apoiantes do imã que vive exilado nos Estados Unidos, que o primeiro-ministro turco considera que é líder de uma "organização terrorista". Com a tentativa de golpe, a Turquia está a pressionar o seu grande aliado para que extradite Gulen, um assunto que, de acordo com a Casa Branca, dominou uma chamada entre Erdogan e Barack Obama ontem à noite.

Aos jornalistas, o porta-voz da administração norte-americana, Josh Earnest, explicou que, depois dessa conversa, os EUA vão decidir se extraditam ou não Gulen sob um acordo bilateral assinado entre os dois países. Um porta-voz do Governo turco voltou a sugerir, por sua vez, que Washington tem de poder extraditar o rival de Erdogan "com base em suspeitas" e não obrigatoriamente em factos. "Existem suspeitas muito fortes do seu envolvimento nesta tentativa de golpe", declarou Ibrahim Kalin. "Isto é justificação suficiente [para a extradição]."

Gulen diz que as acusações são "ridículas" e já pediu ao Governo americano para que "rejeite qualquer esforço de abuso do processo de extradição para levar a cabo vendettas políticas".

Para além do telefonema entre Obama e Erdogan, o chefe da Defesa norte-americana, Ashton Carter, e o seu homólogo turco também falaram na terça-feira, para discutir a situação e os passos a dar na base aérea de Incirlik. A importante base do sul da Turquia, que está a ser usada pela coligação internacional liderada pelos EUA contra o autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) na Síria e no Iraque, está sem eletricidade desde a tentativa de golpe, com o seu comandante a integrar a longa lista de oficiais das forças armadas detidos.

Abusos e preocupações

Perante a onda de repressão de críticos e opositores turcos, no que o comissário da UE para o Alargamento diz ser uma operação bem estruturada que já estaria a ser preparada, a Amnistia Internacional divulgou ontem um relatório onde é denunciada a "regressão em direitos humanos" desde o golpe falhado.

"Os Direitos Humanos estão em perigo na Turquia na esteira da sangrenta tentativa de golpe de Estado que ocorreu na sexta-feira, 15 de julho, e da qual resultou a morte de pelo menos 208 pessoas", aponta a organização em comunicado. “Só o número de detenções e de suspensões é alarmante e estamos a monitorizar a situação no terreno. A tentativa de golpe desencadeou uma violência pavorosa e os responsáveis pelas mortes ilegítimas e outros abusos de Direitos Humanos têm de ser julgados", sublinha o diretor da Amnistia Internacional para a Europa e Ásia Central, John Dalhuisen, acrescentando que "a repressão sobre a dissidência e a ameaça de regressar à pena de morte não são justiça”.

Ao longo de terça-feira, vários políticos manifestaram-se preocupados com a situação na Turquia, com o ministro do Interior da Baviera a dizer ao jornal "Berliner Zeitung" que teme que a "profunda divisão" no país gerem inquietação entre a enorme comunidade turca a viver na Alemanha. "O perigo de uma escalada de violência entre os apoiantes e opositores de Erdogan também aumentou na Alemanha", disse Joachim Herrmann.

O Presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, juntou-se ao rol de políticos e organizações que têm tecido críticas à "vingança" de Erdogan, sublinhando que a discussão sobre a restauração da pena de morte é "profundamente preocupante" e avisando que, se a Turquia aprovar isso, esse será o último prego no caixão das suas aspirações de adesão ao bloco europeu.

Para além das graves violações de direitos humanos que estão a ser cometidas pelas autoridades e apoiantes de Erdogan, a crise na Turquia eleva preocupações sobre a segurança da região e de toda a Europa perante a proximidade do autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) à fronteira sírio-turca.