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Internacional

Erdogan bloqueia acesso à WikiLeaks após divulgação de 300 mil emails do seu partido

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Lágrimas de crocodilo? Há quem diga que o golpe foi orquestrado pelo próprio Erdogan

BULENT KILIC

WikiLeaks decidiu antecipar divulgação de quase 300 mil emails do AKP por causa das purgas do Governo turco, que em três dias já ordenou a detenção ou o despedimento de mais de 45 mil turcos, proibindo outros três milhões de funcionários públicos de viajarem para o estrangeiro

Depois de, na terça-feira, o regulador da comunicação social turco ter ordenado o encerramento de 24 estações de rádio e de televisão por não estarem alinhadas com o Governo de Recep Tayyip Erdogan, o organismo responsável pela regulação das telecomunicações bloqueou esta quarta o acesso ao site da WikiLeaks, horas depois de a organização ter divulgado quase 300 mil emails que diz pertencerem ao AKP do Presidente.

Os emails, que vão de 2010 até este mês, foram obtidos uma semana antes da tentativa falhada de golpe de Estado na sexta-feira passada e, segundo a organização delatora, a sua publicação foi antecipada para esta terça-feira "em resposta às purgas" que o Governo turco está a levar a cabo desde então — que já conduziram a um total de mais de 45 mil detenções, despedimentos ou suspensões de cargos nas Forças Armadas, na polícia, no sector judicial, na educação e na Função Pública, incluindo no gabinete do primeiro-ministro.

"Verificámos o material e a fonte, que não está de forma alguma ligada a elementos que possam ter estado por trás da tentativa de golpe nem a qualquer Estado ou partido polítio rival [do AKP]", garantiu a WikiLeaks em comunicado.

Esta manhã, em reação à divulgação dos 294,546 emails e outros milhares de anexos, a reguladora das telecomunicações anunciou uma "medida administrativa" contra o site da WikiLeaks, o termo formal para referir o bloqueio de acesso a uma dada morada cibernética.

Ainda antes da alegada tentativa de golpe, a Turquia já recorria, de forma rotineira, ao bloqueio de páginas da internet em reação a eventos políticos ou atentados, sendo alvo de duras críticas por organizações de Direitos Humanos e Governos estrangeiros pela limitação da liberdade da expressão.

Na sexta-feira, uma alegada fação do Exército turco tentou depôr Erdogan e tomar o poder, mas a tentativa de golpe foi travada. A Turquia acusa Fethullah Gulen, o clérigo exilado nos EUA e rival direto do Presidente, de orquestrar o golpe com a ajuda dos norte-americanos. Outros analistas e turcos dizem que o golpe foi orquestrado pelo próprio Erdogan para ter carta branca para aumentar a repressão e perseguição de críticos e opositores.

Na segunda-feira, fonte do exército turco disse à Reuters que uma das provas que parecem sustentar esta última versão é o facto de os caças que sobrevoavam Istambul na noite de sexta, alegadamente da fação golpista, não terem disparado contra o avião presidencial apesar de o terem na mira.