Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Governo de Erdogan “já tinha lista de golpistas” antes da tentativa falhada de golpe

  • 333

SAKIS MITROLIDIS/AFP/Getty Images

Depois de uma alegada tentativa de golpe de Estado por uma fação do exército turco na sexta-feira à noite, está lançada uma campanha reforçada de repressão e perseguição dos “responsáveis” — e é possível que hoje o partido AKP, do Presidente Erdogan, comece a negociar com a oposição a reinstauração da pena de morte com efeitos retroativos

O comissário europeu responsável pelas negociações de alargamento da União Europeia sugeriu, esta segunda-feira, que o Governo turco estava preparado para deter milhares de pessoas antes da tentativa falhada de golpe militar que ocorreu na sexta-feira passada. Desde então, afirma, Ancara já levou a mais de seis mil detenções de membros das forças armadas e de outros suspeitos de envolvimento.

No domingo, o ministro da Justiça turco tinha confirmado que mais de seis mil pessoas já foram detidas por causa da tentativa de golpe, que o Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, atribui ao seu rival islamita, o imã Fehtullah Gulen, que vive exilado nos Estados Unidos. Pouco depois dessas declarações, Erdogan exigiu a Washington que extradite Gulen para Ancara.

Esta segunda-feira, os media turcos avançaram que entre os seis mil detidos estão pelo menos 103 generais e almirantes, entre eles o general Bekir Ercan Van, comandante da base aérea de Incirlik, uma base turca de importância redobrada pela sua localização estratégica, e que os EUA e restante coligação anti-Daesh tem estado a usar desde setembro na sua campanha contra o grupo radical no Iraque e na Síria. Também esta manhã, o diário turco "Hurriyet" avançou que 7850 agentes da polícia foram expulsos daquela força de segurança por suspeita de envolvimento na tentativa de deposição de Erdogan, a juntar aos mais de 2500 juízes espalhados pelo país que também foram despidos de funções.

F-16 patrulham Istambul e Ancara

Em declarações aos jornalistas em Bruxelas, Johannes Hahn disse que tudo aponta para que o Governo turco já tivesse estas detenções em massa preparadas ainda antes da tentativa de golpe, um que Fethullah Gulen e alguns turcos dizem que pode ter sido orquestrado pelo próprio Erdogan para justificar ainda mais repressão e a suspensão do Estado de Direito. "As listas já estavam disponíveis antes do evento, o que indica que isto foi preparado [a priori] para ser usado num determinado momento", disse o comissário europeu, dois dias depois de a UE ter declarado que apoia a democracia e o Estado de Direito na Turquia e não o seu Presidente.

Esta segunda de manhã, já depois de Erdogan ter confirmado que mandou caças F-16 patrulharem Istambul e Ancara durante a madrugada, unidades da polícia especial anti-terrorismo fizeram um raide à academia da força aérea em Istambul à procura de mais "suspeitos", avançou a agência estatail Anadolu.

Já a chefe da diplomacia da UE, Federica Mogherini, voltou a sublinhar que a Turquia não pode ignorar as regras democráticas nas respostas ao golpe falhado. "O Estado de Direito tem de ser protegido no país, não há qualquer desculpa para que sejam encetados passos que afastem o país disso", disse à entrada da reunião dos ministros dos Negócios Estrangeiros da UE. "Como fomos os primeiros a dizer naquela trágica noite [de sexta-feira], as instituições democráticas e legislativas têm de ser protegidas. Hoje vamos enviar uma mensagem forte sobre isso."

A Turquia está desde abril de 1987 a tentar aderir à União Europeia, tendo para esse efeito abolido a pena de morte em 2004, quando o atual Presidente era primeiro-ministro. Com a tentativa de golpe, que Erdogan já sugeriu que pode ter sido orquestrado pelos EUA, a reinstauração da pena de morte volta a estar em cima da mesa. No fim-de-semana, tanto o Presidente como o primeiro-ministro sublinharam a importância de voltar a legalizar a pena capital com efeitos retroativos, sinalizando que vão negociar com a oposição essa possibilidade.