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França questiona se a Turquia ainda será parceiro viável na luta contra o Daesh

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AMMAR AWAD/REUTERS

Ao mesmo tempo que cresce a suspeita de a tentativa de golpe de Estado na Turquia ter sido orquestrada pelo próprio regime de Erdogan, como desculpa para reprimir os seus opositores, líderes mundiais mostram preocupação sobre os mais de 6000 detidos

Alexandre Costa

O ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Jean-Marc Ayrault, afirmou que a Turquia poderá já não ser um parceiro viável na luta contra o autodenominado Estado Islâmico (Daesh), tendo em conta que os media estatais sírios estão a indicar que a tentativa de golpe de Estado na Turquia terá sido orquestrada pelo próprio regime do Presidente Recep Tayyip Erdogan. “Há questões que estão a ser colocadas e nós iremos fazê-las. [A Turquia] parcialmente viável, mas também há suspeitas. Temos de ser francos quanto a isto”, afirmou o ministro francês, que promete levantar o assunto na reunião que terá lugar em Washington na próxima semana, na qual estará em discussão a luta contra os radicais do Daesh.

Três dias depois da suposta tentativa de golpe de Estado, as autoridades turcas apelaram à população para se manter alerta, enquanto multiplicaram as prisões entre os membros do exército e da justiça. Milhares de pessoas reuniram-se novamente durante a noite de domingo na praça Taksim, em Istambul, e na praça Kizilay, em Ancara, para manifestar apoio ao Presidente Erdogan, que reiterou o apelo à população para sair às ruas. “Durante o dia vamos trabalhar. À noite, depois do trabalho, continuamos a nossa vigília nos locais públicos”, disse também o primeiro-ministro turco, Binali Yildirim, perante a multidão na capital.

Mais de seis mil militares foram detidos, entre eles 103 generais e almirantes, por suposto envolvimento na tentativa de golpe de Estado. Foram emitidos cerca de três mil mandados de prisão contra juízes e procuradores. Há também informações de que 2745 magistrados foram suspensos das suas funções e “cerca de duas centenas foram detidos ou estão à espera de o ser”, disse ao Expresso José Albuquerque, secretário-geral do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público portugês, que integra o Movimento Europeu de Magistrados para a Democracia e as Liberdades.

PM admite repor pena de morte

O primeiro-ministro turco fala em repor a pena de morte, ao mesmo tempo que o Presidente pretende que os Estados Unidos extraditem o homem que acusa de ter estado por detrás da sublevação, o clérigo muçulmano, Fetullah Gülen, insinuando que Washington terá apoiado a sublevação. Gülen é um antigo aliado de Erdogan.

No domingo, diversos líderes mundiais advertiram Erdogan que não pode aproveitar a situação para lançar uma onda de repressão no país e consolidar o seu poder, manifestando preocupação pelas detenções. O Presidente norte-americano, Barack Obama, mostrou-se consternado pelas imagens de alguns dos supostos revoltosos detidos, exibidos em roupa interior, de mãos algemadas atrás das costas.

O comissário europeu Guenther Oettinger advertiu que, caso Erdogan aproveite a situação para restringir ainda mais os direitos democráticos no país, irá afastar-se dos princípios fundamentais da União Europeia e da aliança defensiva da NATO, referindo também que, até aqui, o seu país tem sido um parceiro crucial na luta contra o Daesh.