Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

“Já ninguém acredita que tenha sido mesmo o Exército a levar isto a cabo”

  • 333

BULENT KILIC/GETTY

Harlaine, de 26 anos, vive em Ancara. Ao Expresso, a jovem relatou os momentos de tensão vividos esta noite na capital turca e as suspeitas sobre a sublevação. “O pior vem agora. Vai haver justificação para atrofiar ainda mais as liberdades individuais”

Eram onze da noite em Ancara, nove em Lisboa, quando tudo começou. Quando as primeiras notícias chegaram a casa de Harlaine, de 26 anos, a sua família entrelaçou-se em abraços.

Era uma e meia manhã em Lisboa, três e meia em Ancara. Uma outra multidão eufórica ia desembarcando no Cais do Sodré. Espremidos no metro, recebemos uma tentativa falhada de telefonema da Harlaine e logo depois um texto pelo chat do Facebook: “A minha casa abana a cada jato que passa, estão demasiado perto do solo. Porquê e para quê jatos? Isto não é o exército, não é o meu exército, isto é estranho. Estou a sete minutos a pé do centro, as explosões parecem cá dentro. Escrevo-te porque sei que tens possibilidade de relatar isto, se alguma coisa me acontecer”.

Saiu-se à rua em Ancara mas não foi para encontrar amigos nem abanar o corpo até esquecer mais uma semana, foi sim, diz Harlaine, “porque Erdogan chamou as pessoas para a rua com palavras de ódio. Há um chamamento religioso para a prece, chamado sela, que é utilizado para chamar as pessoas a rezar fora das horas estabelecidas. A sela tem ecoado a cada quinze minutos”, relata.

Ao longo da noite tudo foi ficando mais claro, para Harlaine e para os seus amigos em contacto pelas redes sociais: e muito mais assustador nessa clareza. “Não quis acreditar que fosse possível mas agora todos achamos que isto foi feito pelo próprio Erdogan. É o que todos as pessoas com mais informação e formação académica estão a dizer: o Exército turco é organizado, limpo, metódico, inteligente e respeitador, nunca iriam nem bombardear o Parlamento nem trazer o caos às ruas”.

Harlain diz que Erdogan incentivou o povo a ir para a rua defender o seu governo e que foi mesmo isso que milhares de pessoas fizeram.

“Falei com militares ao telefone, que ainda não estavam nas ruas e primeiro pensaram era um exercício de treino, depois rejubilam com a possibilidade de ser mesmo uma libertação mas depois chegaram as notícias de que as pessoas os estavam a atacar. Na ponte um soldado foi decapitado pela multidão e atirado ao rio. Nunca pensei em sair da Turquia mas agora não sei como poderei olhar ou conversar com gente que faz isto”.

Harlaine tem cuidado para não dizer que tem a certeza que isto tenha sido orquestrado pelo próprio governo, e “se for verdade é demasiado pernicioso, mandares o teu Exército ser linchado nas ruas para reforçar a autoridade” mas já hoje de manhã, dez em Lisboa, meio-dia em Ancara disse que “já ninguém acredita que tenha sido mesmo o Exército a levar isto a cabo”.

“O ambiente em Ancara é calmo, os bombardeamos pararam por volta das sete da manhã mas passámos a noite a chorar, a ler os desenvolvimentos, o país quebrou já há muito tempo mas isto é turcos contra turcos, é a gestão pelo ódio, e o pior vem agora, porque agora vai haver justificação para atrofiar ainda mais as liberdades individuais dos cidadãos.”