Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

“Estava em choque, nunca a vi tão branca”. Turcos “presos” em Lisboa apanhados de surpresa com tentativa de golpe

  • 333

Primeiro pensaram que tudo seria uma brincadeira. Da incredulidade ao choque foi um pequeno passo. O Expresso ouviu alguns turcos que ficaram retidos em Lisboa e tiveram de adiar o regresso a casa por causa da situação que se vive no país. E portugueses que também foram afetados pelo cancelamento dos voos causado pela tentativa de golpe de Estado

Selay estava na cozinha quando o telefone tocou. Primeiro uma mensagem, depois outra, em seguida começam a chover dezenas de mensagens. “Inicialmente pensei que fosse tudo uma brincadeira dos meus amigos, como era o nosso último dia de férias”. Mas não era. Quando a amiga entrou na cozinha e lhe perguntou o que se passava, ficou em choque. “Ela estava completamente branca, não queria acreditar naquilo que lhe dizia. Nunca a tinha visto assim”, recorda agora Selay, na manhã seguinte a tudo ter começado.

As duas jovens turcas estavam na última noite de férias em Lisboa quando receberam as primeiras notícias de que algo de errado se estava a passar em casa. “O meu irmão ainda me chegou a dizer: fica aí por Portugal, ao menos estás num local seguro. Não voltes já, pelo menos até se perceber o que é que está a acontecer aqui”. De manhã voltou a falar ao telefone, desta vez com o pai, que a tranquilizou: “Já está tudo bem. As pessoas que fizeram isto foram presas. Já podes voltar”.

Mas o regresso não acontecerá de imediato. Selay e a amiga estavam hoje de manhã no aeroporto de Lisboa, na longa fila de pessoas e malas que ia dar ao balcão da Turkish Airlines. Os dois voos do dia para Istambul, marcados para as 11h30 e as 15h45, foram cancelados, apesar dos quadros no aeroporto ainda indicarem aos passageiros que o “check in” estava aberto.

Estão sem internet e pedem para ver as notícias no nosso telemóvel. Ficam chocadas quando percebem que o número de mortos já tinha chegado aos 194. Dizem-se tristes e confusas com o que se está a passar no seu país. “Ninguém sabe bem toda a história, ninguém sabe ao certo o que se passou e o que se está a passar. É uma confusão. Eles estão a dizer às pessoas que a situação está controlada, mas veremos. Porque a noite passada as coisas não pareciam assim tão seguras pela televisão...”

Perguntam pelo Presidente, ouviram dizer que teria abandonado o país. Dizemos que Erdogan estava afinal de férias em Marmoris, que voou para Istambul ainda de madrugada e que assegurou, à chegada, que o golpe estava controlado. Não querem responder à questão se já esperavam o apoio nas ruas ao presidente. Não se alongam em comentários, mas percebe-se que não são entusiastas de Erdogan. Não querem falar sobre isso, ou tirar fotografias, porque dizem que são funcionárias públicas e temem perder o emprego. Em princípio só poderão seguir amanhã para a Turquia, a companhia aérea arranjou-lhes hotel para passarem mais uma noite em Lisboa.

“Era um país tranquilo, mas o futuro é cada vez mais incerto

Henrique também está na mesma fila com mais dois portugueses, à espera de saber quando pode ser reagendado o voo. Fazem parte de uma empresa de construção civil especializada em materiais de casas de banho e aquecimento, e vão para a Turquia numa viagem de negócios. Iriam fazer escala em Istambul para depois seguirem para Samsum, uma cidade costeira banhada a norte pelo mar Negro.

“Já estive ao telefone com o nosso contato turco, e ele disse-me que naquela cidade as coisas estão relativamente pacíficas. As pessoas saíram à rua em apoio ao presidente Erdogan, e a situação está controlada”, afirma Henrique Gago. “Não tenho medo de ir para a Turquia. Conheço bem a cidade para onde vamos, é pacífica. Não é por isto que vamos adiar a viagem”.

Henrique Gago e dois outros portugueses que ficaram retidos no aeroporto de Lisboa, à espera de ligação para Istambul

Henrique Gago e dois outros portugueses que ficaram retidos no aeroporto de Lisboa, à espera de ligação para Istambul

Já o casal Francisca e Adelino permanecem na fila, mas decidiram mesmo adiar as férias. O destino final nem era a Turquia, Istambul serviria apenas de escala para chegar ao Irão, onde iriam passar 10 dias. Mas afirmam que, já não tendo hipótese de seguir viagem este sábado, tudo o que estava marcado fica já comprometido, e preferem reagendar toda a viagem.

“Estávamos a ver televisão a noite passada quando vimos o que se estava a passar nas notícias. Percebemos logo que tínhamos as férias todas em risco”, disse o casal ao Expresso. Ainda assim decidiram vir de manhã para o aeroporto, porque no site da ANA, aeroportos de Portugal, o voo não estava cancelado. Mais tarde consultaram o próprio site do aeroporto Internacional de Istambul e perceberam que o avião que deveria sair da cidade turca às 7h da manhã, que era o mesmo que depois os iria levar para a Turquia, não tinha afinal levantado voo.

O casal conhece bem a Turquia, onde já esteve de férias, e lamenta os acontecimentos da noite passada. “Era um país calmo, mas tem estado muito instável, com os recentes atentados e agora a tentativa de golpe de Estado. Não se sabe o que poderá acontecer no futuro”.