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Erdogan, o todo-poderoso?

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ADEM ALTAN/AFP/Getty Images

Outrora admirado líder reformista de uma nação em ascensão, a aura de Erdogan começou a estalar quando, em 2013, o seu Executivo reprimiu violentamente protestos populares contra a crescente autocracia. Mas Erdogan ainda tem os seus apoiantes. Esta sexta-feira, foi alvo de uma tentativa de golpe de Estado, que fracassou em grande medida pelo apoio popular

Outrora admirado líder reformista de uma nação em ascensão, protagonista de um milagre económico que transformou a Turquia (o PIB per capita triplicou durante a primeira década do seu reinado), a aura de Erdogan começou a estalar quando, em 2013, o seu Executivo reprimiu violentamente protestos populares contra a crescente autocracia.

Abalado também por escândalos de corrupção, Erdogan perseguiu opositores e críticos, usando e abusando do poder judicial, cada vez menos independente, e do controlo quase total dos media. Numa região em ebulição, foi perdendo amigos e aliados e passou de herói a pária internacional, líder de uma nação fraturada, com uma democracia em erosão acelerada e isolada internacionalmente.

Esta sexta-feira, foi alvo de uma tentativa de golpe de Estado, que falhou em grande medida porque dezenas de milhares de pessoas saíram à rua a meio da noite para enfrentar os tanques dos revolucionários, posicionados em centros estratégicos de Ancara e Istambul.

A ambição de Erdogan

Em junho de 2015, o Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP), dominado pelos "homens do Presidente", perdeu a maioria (41%) que tinha há 13 anos. A campanha foi dominada pela ambição de Erdogan, eleito Presidente no verão de 2014, em transformar o regime num presidencialismo. No final de 2015, e sem que ninguém o previsse, Erdogan e o então primeiro-ministro Ahmet Davutoglu (que assumia um papel subalterno e acabaria por ser afastado este ano do poder), recuperaram a maioria absoluta, conseguindo mais 4,5 milhões de votos do que em junho (50%).

Aproveitando a retoma da luta armada por parte dos separatistas curdos do PKK, em julho de 2015, Erdogan e o AKP apostaram em eleições antecipadas, num contexto de intimidação e violência política. Prometiam uma liderança forte. "O resultado confirma que o eleitorado valoriza estabilidade e segurança acima de liberdade de imprensa e direitos humanos", escreveu Suat Kiniklioglu, ex-deputado do AKP, agora dissidente, e diretor de um think tank em Ancara. "Ironicamente, ao pegar nas armas contra Erdogan, o PKK ajudou-o a recuperar o poder", escreveu o jornalista Aykan Erdemir.

O homem das divisões

Os constantes ataques terroristas na Turquia têm colocado a descoberto os falhanços da política do todo-poderoso Presidente, Recep Tayyip Erdogan. "A Turquia está esmagada entre os curdos, a Rússia e o Daesh", escreveu Amberin Zaman, conhecida jornalista.

Desde que o PKK retomou a luta armada em julho de 2015 já morreram 200 soldados e polícias, e várias cidades do leste vivem em quase guerra civil. Perante a incapacidade da polícia em desalojar militantes curdos barricados em bairros urbanos, instalando "zonas autónomas", o Governo mandou no mês passado avançar o exército. Desde então foram mortos 300 militantes, mas pelo menos também 170 civis, incluindo mulheres e crianças, numa verdadeira guerra pouco publicitada neste país candidato à adesão à UE, que tem arrasado bairros inteiros e já levou centenas de milhares de pessoas a abandonarem as suas casas.

Obcecado com a queda de Assad e bloqueando as forças curdas sírias que são as únicas tropas que fazem frente ao Daesh, Erdogan acabou por beneficiar o 'califado'. No início do ano, Ancara bombardeou com artilharia posições jiadistas na Síria e no Iraque e durante o último ano deteve mais de um milhar de suspeitos do Daesh, mas o feitiço virou-se contra o feiticeiro: "Ancara percebeu que o Daesh não é uma solução para conter a revolta curda na Síria", explica Mustafa Akyol, respeitado colunista.

Embora a violência no leste turco tenha sido iniciada pelos curdos (o PKK é considerado uma organização terrorista pela UE e os seus métodos violentos não ficam muito atrás dos do Daesh), a retórica agressiva e discriminatória de Erdogan e o arrastamento do processo de paz, quando ficou claro que o partido curdo não iria apoiar as pretensões de Erdogan de se tornar um superpresidente-executivo, levaram à recente campanha armada.

Erdogan divide. "Só é o Presidente de quem votou nele. Qualquer crítico torna-se um inimigo", escreveu o jornalista Semih Idiz.

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