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Afinal, porque falhou o golpe de Estado na Turquia?

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BULENT KILIC/AFP/Getty Images

Presidente Erdogan emerge mais uma vez como o grande vencedor. Quase 200 pessoas perderam a vida

“O 15 de Julho passará a ser uma celebração de democracia”, acabou de dizer Binali Yildirim, o primeiro-ministro turco. “A tentativa de Golpe de Estado falhou”, confirmou. Esta manhã os últimos golpistas renderam-se – já foram detidos pelo menos 2800 militares por todo o país, entre os quais vários generais. O golpe falhou em grande medida porque dezenas de milhares de pessoas saíram à rua a meio da noite para enfrentar os tanques dos revolucionários, posicionados em centros estratégicos de Ancara e Istambul.

O chefe de Estado Maior General das Forças Armadas, Hulusi Akar, que esteve refém dos golpistas ontem à noite, também já falou ao país esta manhã, confirmando que o golpe foi obra de uma minoria nas forças armadas, e que os militares continuam fiéis ao governo e à democracia. Esta manhã as equipas municipais limpavam os destroços que se acumulavam em frente ao parlamento, parcialmente danificado – a sede do Governo foi atingida por pelo menos três bombas ontem à noite.

Mais uma vez, o Presidente Recep Tayyip Erdogan saiu o grande vencedor. O Golpe de Estado apanhou todos de surpresa – o Presidente estava a passar férias na estância balnear de Marmaris no Mediterrâneo. No início os militares golpistas pareciam ter conquistado o poder – com tanques a controlar os centros nevrálgicos da Turquia –, as pontes sobre o Bósforo em Istambul, o aeroporto da mesma cidade, a televisão estatal, e as principais sedes governamentais na capital. Num comunicado lido com nervosismo por uma pivot ansiosa na TRT, os golpistas - que se auto intitularam Movimento para a Paz na Nação - anunciaram que tinham tomado o poder para “restaurar a ordem constitucional, as liberdades e direitos humanos, e restaurar a segurança, que estava seriamente ameaçada”.

O todo poderoso Erdogan, que controla a grande maioria dos media e quase todos os pilares do poder na Turquia, vacilou. Teve de falar ao país através de uma rede social (Facetime) por intermédio de um telemóvel, filmado por câmaras de televisão – uma das ironia da noite: o mesmo Presidente que não hesitou em manietar e fechar temporariamente as redes sociais para controlar protestos democráticos contra o seu governo, e frequentemente ataca os meios de comunicação na Turquia, recorreu a esses mesmos meios para apelar aos cidadãos para saírem às ruas e desafiarem os tanques.

O apelo resultou - o que mostra também o poder e o apoio popular do atual Presidente. Uma imensa mole humana começou a invadir as praças e avenidas das grandes metrópoles turcas, e a subir aos tanques. Um pouco por toda a Turquia, os muezzin invocaram inspiração divina do alto das mesquitas, duas horas antes da oração da noite – o país mobilizava-se contra o golpe. Algumas unidades militares começaram a desaparecer – a do aeroporto de Istambul foi a primeira. Erdogan tomou então a iniciativa – voou de Marmaris para Istambul, aterrou no aeroporto ainda quando outras partes da cidade estavam sob controlo dos golpistas, apareceu à multidão e discursou então ao país em frente às câmaras, visivelmente abalado, mas resoluto – prometendo derrotar o Golpe de Estado, ameaçando punir severamente os responsáveis, e sugerindo uma purga nas forças armadas.

Durante a noite, a maré começou a virar a favor do Governo. Um a um, os líderes ocidentais, frequentemente muito críticos de Erdogan, começaram a condenar o golpe e a apoiar o “governo legítimo”. Todos os partidos da oposição, incluindo o curdo, condenaram em Ancara a tentativa de tomada do poder pela força – algo que o primeiro-ministro Yildirim agradeceu no seu discurso esta manhã.

Enquanto alguns golpistas ainda bombardeavam o parlamento na capital, o povo tomou conta das cidades. As últimas bolsas de resistência, na ponte sobre o Bósforo e no quartel-geral da Jandarma em Ancara, foram neutralizadas já esta manhã, com centenas de soldados golpistas a renderem-se à polícia, e a serem insultados e agredidos pela populaça.

A democracia acabou por vencer, mas quase 200 pessoas perderam a vida – entre os quais dezenas de polícias e muitos civis. Agora todos questionam o que se passará. O Governo convocou para hoje uma reunião de crise com todos os partidos políticos, Erdogan está a voar para a capital, e o Executivo já cancelou todas as férias judiciais. O primeiro-ministro disse que irão tomar medidas para prevenir futuras ameaças de golpe, e que irão avaliar todas as alternativas, incluindo a reintrodução da pena de morte.

Enquanto Governos ocidentais apelam para a unidade e reconciliação nacionais, o golpe acaba por reforçar ainda mais Erdogan, que agora apressará certamente as mudanças constitucionais que tanto têm dividido a Turquia, e transformar o regime num presidencialista, a coberto das ameaças à segurança nacional, e com a legitimidade e apoio que uma revolta popular contra os golpistas militares lhe dão. Esperam-se enormes purgas nas forças armadas, mas também nos serviços de informação – é de fato incrível que um aparelho de segurança tão vasto e poderoso como aquele que Erdogan instalou não tenha dado alarme do golpe eminente.

Erdogan e outras fontes governamentais têm culpado os golpistas de serem seguidores de Fethullah Gulen, um religioso islâmico exilado há muitos anos nos EUA, outrora muito influente na Turquia, líder de uma vasta rede social e política, e no início um aliado de Erdogan, mas que se tornou num bode expiatório - o presidente acusa-o de liderar uma organização terrorista - após ter criticado os excessos dos governantes turcos. No entanto, várias organizações próximas a Gulen já condenaram o golpe e distanciaram-se do mesmo, e alguns observadores sugerem que os golpistas serão oficiais kemalistas - a linguagem dos comunicados dos golpistas sugere que os militares envolvidos serão afinal laicos, republicanos e ataturquistas.

País membro da OTAN (NATO, na sigla inglesa), e um verdadeiro tampão para a Europa no que diz respeito a todos os conflitos do Médio-Oriente, a segurança e estabilidade internas da Turquia são vitais para o nosso continente. Todos os olhos estão postos na evolução desta grave situação.