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Theresa May toma decisão “estúpida” de acabar com departamento para as alterações climáticas

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WILL OLIVER/EPA

Políticos, ativistas e especialistas contestam passo “profundamente preocupante” da nova primeira-ministra britânica, que escolheu para chefiar o Ministério do Ambiente uma mulher que duvida do aquecimento global

No início desta semana, conselheiros do Governo britânico avisaram que são necessárias ações urgentes para peparar o Reino Unido para cheias, secas, ondas de calor e escassez de alimentos causados pelas alterações climáticas. Dois dias depois, na quarta-feira, Theresa May tomou posse como primeira-ministra, sucedendo a David Cameron na liderança do Partido Conservador e na chefia do Executivo. E esta quinta-feira, depois de apresentar a nova ministra do Ambiente, May voltou a chocar muitos com o anúncio de que vai acabar com o departamento contra as alterações climáticas (DECC).

Para muitos políticos, ativistas ambientais e especialistas de aquecimento global, a decisão da nova líder britânica é "estúpida" e "profundamente preocupante", noticia o "The Independent". E surge a par da nomeação de Andrea Leadsom, ex-ministra da Energia e rival de May na corrida à liderança conservadora, como a nova ministra do Ambiente, que já virou do avesso o caminho que o anterior Governo estava a fazer nesta área.

A conservadora, que ao assumir o cargo de ministra da Energia no ano passado questionou se "alterações climáticas são reais?", já convidou representantes da indústria do carvão a ajudarem a redefinir o plano que o Executivo de Cameron tinha delineado em novembro e que previa "o fim do carvão" até 2025.

"Abolir o DECC é só estúpido", acusou esta quinta.feira o ex-líder do Partido Trabalhista Ed Miliband, no Twitter.

"O clima nem sequer é mencionado no nome do novo departamento e isto é importante porque os departamentos dão forma às prioridades e estas dão forma aos resultados", insistiu.

"O historial de votações e a afiliação com céticos do clima de nomeados-chave do novo Governo são profundamente preocupantes", declarou por sua vez John Sauven, diretor-executivo da Greenpeace britânica. "Mostram uma falta de compreensão sobre o que as alterações climáticas representam para o Reino Unido e o mundo. Se vamos continuar a ter um papel-chave global [no combate ao aquecimento global] precisamos de garantias urgentes do novo Governo de que os progressos duramente conquistados nas áreas do clima e das energias renováveis, da poluição e da proteção da vida selvagem, não vão ser marginalizados nem abandonados nas negociações do Brexit."

A notícia das alterações no DECC foi avançada pelo Civil Service World, que teve acesso a uma carta enviada pelo chefe permanente desse departamento Alex Chisholm aos seus funcionários, onde é confirmado que as suas responsabilidades passam a estar sob o pelouro do departamento de Negócios, Energia e Estratégia Industrial, que será liderado por Greg Clark.

"Podemos garantir que temos as infraestruturas do século XXI de que precisamos. Os negócios vão ter um campeão forte no Governo", escreveu Chisholm. "A energia e as alterações climáticas vão continuar num só departamento, para garantir caminhos eficientes para a redução de carbono." Ao "The Independent", um porta-voz do DECC disse que "nada vai mudar" e que "o compromisso [para com o combate às alterações climáticas" ainda existe".

May já tinha chocado muita gente ao anunciar na quarta-feira que Boris Johnson, o ex-autarca de Londres e porta-estandarte do Brexit, vai ser o novo ministro dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido. A decisão de convidar o incendiário político conservador para ocupar um dos cargos mais importantes do seu Governo e para liderar as negociações de saída da União Europeia foi criticada por muitos, dentro e fora do Reino Unido.

A começar pelo homólogo francês de Johnson, Jean-Marc Ayrault, que falou num "mentiroso encurralado" cuja nomeação demonstra a "crise política que saiu da votação no referendo" de 23 de junho — no qual 52% dos mais de 70% de eleitores que foram às urnas votaram a favor da saída da UE. No Twitter, o ex-primeiro-ministro da Suécia, Carl Bildt, escreveu: "Gostava que isto fosse só uma piada, mas parece que não é."

Para outros, como Yvette Cooper, antiga ministra do Governo trabalhista de Gordon Brown, a escolha de Johnson é óbvia: torna-se o "bode expiatório" de May e a pessoa perfeita para a primeira-ministra "culpar" quando as negociações do Brexit falharem.