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Que semelhança entre Nice e a ‘Intifada dos carros’ na Palestina?

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Conduzido por um palestiniano, um veículo abalroou deliberadamente vários transeuntes, a 5 de novembro de 2014, em Jerusalém

© Ammar Awad / Reuters

A comparação é absurda, defende uma especialista em assuntos palestinianos. Os palestinianos atacam com carros por desespero e falta de perspetivas quando à resolução de um conflito com 68 anos e não para lançar o terror

Margarida Mota

Jornalista

A utilização de um camião no atropelo deliberado de civis na via pública motivou comparações entre o atentado de Nice e a chamada “Intifada dos carros”, em Israel e no território palestiniano da Cisjordânia.

“Não faz sentido fazer uma comparação dessas. Primeiro, comparar por si só um grupo militante como o [autodenominado] Estado Islâmico [Daesh], que emergiu da Al-Qaeda e tem vindo a aterrorizar meio mundo desde 2006, com uma sociedade civil que vive sob ocupação há 68 anos é abstruso e absurdo”, diz ao Expresso Eva Oliveira, investigadora na Universidade de Birzeit (Cisjordânia).

“Segundo, os ataques observados em solo palestiniano ou israelita são espontâneos. A motivação não é a de aterrorizar em si, mas sim de revolta e resistência ao status quo. Os palestinianos atacam por desespero e falta de perspetiva quanto à resolução do problema. São 68 anos a viver sob ocupação, sem direitos humanos básicos e condições de vida dignas. Não se deve substimar os efeitos da ocupação na sociedade civil.”

Entre os palestinianos, os ataques com recurso a carros têm sido uma expressão da chamada “Intifada silenciosa”, em curso, por oposição à primeira (a das pedras, entre 1987 e 1993) e à segunda (a de Al-Aqsa, entre 2000 e 2005) e que resultaram em conflitos abertos entre as partes. (Em árabe, Intifada significa “insurreição”.)

Outra fase, mais recente, é a “Intifada das facas”, em que a violência se faz sentir com recurso a armas brancas.

Colonos também atropelam

No contexto deste conflito, não são só os palestinianos que lançam as viaturas para matar. Na Cisjordânia, também os colonos judeus recorrem por vezes a esse método. A 19 de outubro de 2014, por exemplo, um colono atropelou deliberadamente duas meninas palestinianas de 5 e 6 anos, em Sinjil, perto de Ramallah (Cisjordânia). Uma morreu, a outra ficou gravemente ferida.

“As formas de ataque, ou de resistência, resultam dos meios disponíveis. Na Cisjordânia em especial, mas também em Israel, os palestinianos não têm contacto físico direto com os israelitas ou com os colonos. A estrada é, por esse motivo, o momento comum, o local onde ambos se encontram.”

Da mesma forma, os ataques ocorrem sobretudo em zonas de grande tensão, como a cidade santa de Jerusalém — que tanto israelitas como palestinianos querem para capital do seu Estado — como próximo da cidade palestiniana de Hebron, onde vivem colonos judeus especialmente radicais.

“Nestas mesmas estradas podem-se observar também ataques com pedras a veículos, sendo estes ataques efetuados por ambas as partes”, diz a investigadora, que já viveu no território.

Uma diferença importante que Eva Oliveira enumera comparativamente ao atentado de Nice prende-se com o modus operandi. “Nunca foram usados camiões de tal envergadura, nunca foram usados veículos contra uma multidão tão grande, nem nunca se viu um intuito de matar o maior número possível de civis”, diz. “No geral, os ataques visam um grupo pequeno de pessoas. Nunca um atacante teve o intuito de matar tantos civis quanto possível. Considero esse facto uma diferença bastante relevante.”