Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

“Ouvi gritos que não esquecerei”: os sobreviventes de Nice

  • 333

ERIC GAILLARD / Reuters

Chamam-lhe “o camião da morte”. Os relatos de quem lhe sobreviveu são simples mas violentos

Estavam na noite passada no local do acidente. Podiam ter sido levados pela passagem de um camião que foi deixando atrás de si um rasto de morte. Mas conseguiram escapar. Viram, ouviram ou conheciam alguém que não teve a mesma sorte - e relatam agora a forma como uma noite aparentemente calma e amena naquela cidade da Côte d’Azur se transformou num cenário de guerra, no dia em que se comemorava a tomada da Bastilha - era o 14 de julho.

Horas antes, o presidente François Hollande anunciava que iria levantar o estado de emergência no país. Mas o ataque provocado pelo condutor do camião contra a multidão, no Promenade des Anglais, mostraria que este ainda não era o tempo certo.

“Ouvi gritos de desespero que nunca esquecerei”

“Estava uma noite amena.” É assim que o jornalista local Damien Allemand começa a descrever no seu blogue a noite de quinta-feira, 14 de julho. O jornalista do “Nice Matin” tinha escolhido a beira-mar para assistir ao tradicional fogo-de-artifício na cidade onde trabalha.

Terminada a festa de cores, começa a sair do local com o resto das pessoas e, de repente, aquele barulho. Gritos de desespero. “O meu primeiro pensamento: algum espertalhão deve ter querido lançar o seu próprio fogo-de-artifício e não conseguiu controlá-lo. Mas não. Uma fração de segundo depois, um enorme camião branco voava a uma velocidade vertiginosa em direção às pessoas, guiando de forma a matar tantas pessoas quanto possível.” O “camião da morte” passara mesmo à sua frente e ele nem sequer se apercebera. Paralisou antes de conseguir reagir.

Nessa noite, Allemand presenciou aquilo que nunca antes vira: “Vi corpos a voar como se fossem pinos de bowling no seu caminho. Ouvi barulhos, gritos de desespero que nunca esquecerei”.

À sua passagem o camião deixava “o inferno”. “Corpos inertes a cada cinco metros, partes do corpo... Sangue. Gemidos.” Aos poucos, iam chegando mais pessoas ao local do crime: levavam água e toalhas para tentar controlar o desespero dos feridos. E foi também nesse momento que Allemand se encheu de coragem e começou a ajudar.

“As minhas filhas viram corpos”

A norte-americana Julie Holland estava a jantar com os seus filhos num restaurante quando viu a investida do camião em direção à multidão de pessoas na esplanada. “Ouvimos gritos e vimos as pessoas a começar a correr para dentro do restaurante”, disse ao jornal “Guardian”. O seu instinto levou-a e aos seus filhos a fugirem para a cozinha. “Escondemo-nos na cozinha, atrás do fogão.”

Assim que o ataque e os disparos terminaram, saíram pela porta das traseiras em direção a um hotel ao fundo da rua. “Um agente da polícia escoltou-nos de regresso ao nosso hotel por volta das 3h da manhã. Havia corpos por todo o lado. As minhas filhas viram corpos. Imensos corpos.”

Charlène Camin também estava em Nice, mas num terraço. Quando o ataque começou, Charlène e o namorado correram o mais rápido que conseguiram, de mãos dadas para não se perderem. “Encontrámos refúgio noutro restaurante”, disse ao “Le Monde”. “As pessoas estavam a tentar esconder-se nas casas de banho, na cozinha. As luzes foram desligadas para passarmos despercebidos.”

Perder e encontrar na mesma noite um bebé de oito meses

No meio de tanto pânico e confusão, Tiava Banner perdeu um bebé de oito meses. Em desespero, os responsáveis pela criança colocaram uma publicação no Facebook numa tentativa de a encontrar.

“Perdemos um bebé de oito meses num carrinho de bebé azul”, escreveu o casal na sua conta de Facebook, numa tentativa desesperada de encontrar a criança que tinha ficado à sua guarda. E o alívio acabaria por chegar: horas mais tarde, a mulher publicava um agradecimento na sua conta de Facebook, pelo bebé ter acabado por aparecer.

“Parecia o ruído de um comboio a descarrilar”

“Um ruído enorme.” Foi este o som que despertou a atenção da estudante de Direito, cerca de cinco minutos depois de ter terminado o fogo-de-artifício na cidade costeira de Nice. “Parecia o ruído de um comboio a descarrilar, muito metálico”, relatou Charlotte Robin ao Buzzfeed News.

Rapidamente descobriria que não. “Então percebi que era o som de um camião a chocar em direção às pessoas. Ouvimos as pessoas a gritar, bem como disparos. As pessoas saltavam da alameda para a praia (um salto de dois metros). Foi uma debandada horrível, com crianças a gritar, a chorar.”

O italiano Marco de Feo era uma dessas pessoas no meio da multidão. O milanês e os quatro amigos tinham apenas decidido à última hora ir ver o fogo-de-artifício no Promenade des Anglais, incentivados pelos seus anfitriões, um casal romeno a viver em Nice.

Quando lá estavam, no meio da multidão, viram - de repente - um camião a guiar furiosamente na sua direção. “Por sorte, vi-o a tempo de me desviar, mas uma amiga nossa foi atingida e caiu no chão. Corremos para a praia e procurámos abrigo num hotel”, conta o jovem de 19 anos à Reuters, na sala de espera do hospital Pasteur. Enquanto se dirigiam para o hotel, um dos jovens voltou para trás para ir buscar a amiga que tinha ficado ferida. “Ela não conseguia mexer-se ou falar, mas ainda estava a respirar. Foi levada por uma ambulância para o hospital.”

O motard que tentou travar o camião

Richard Gutjahr estava na varanda de um hotel que dá diretamente para o Promenade des Anglais, a partir da qual conseguiu ver a cadeia de acontecimentos que culminaram com o choque do camião com a multidão. O jornalista alemão mostrou-se surpreendido pelo rumo dos acontecimentos, uma vez que o veículo avançava muito lentamente numa fase inicial.

“Eu estava na varanda que dá diretamente para o Promenade des Anglais a ver as pessoas que estavam a celebrar quando, de repente, o camião se dirigiu para a multidão”, relatou à France Presse. O jornalista freelance conta que o camião foi seguido por um motard, “que o tentou ultrapassar e até tentou abrir a porta ao lado do motorista”, de modo a impedi-lo de avançar contra a multidão. Mas o motard acabaria por cair e ser atropelado.

“Aí, o motorista carregou no acelerador, o camião avançou depressa e atropelou a multidão em ziguezague”, recorda, acrescentando ainda que viu dois polícias a disparar contra a multidão. “Depois disso, seguiram-se 15 a 20 segundos de tiros.” O motorista acabaria por ser abatido, mas deixaria atrás de si um rasto de morte: o último balanço oficial contabiliza pelo menos 84 mortos e 202 feridos.

Notícia atualizada às 17h45