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Internacional

Suspeitos de pertencerem ao Boko Haram mortos à fome e torturados nos Camarões

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REINNIER KAZE

Mais de 100 pessoas, incluindo mulheres, já foram condenadas à morte em julgamentos militares "injustos" por alegadamente pertencerem ao grupo islamita. Mais de mil, muitas detidas arbitrariamente, vivem sob "condições horrendas" nas prisões do país, acusa Amnistia Internacional

A Amnistia Internacional divulgou esta quinta-feira um relatório onde acusa as forças de segurança e as autoridades governamentais dos Camarões de estarem a manter centenas de pessoas injustamente detidas sob "condições horrendas" nas prisões do país, no âmbito da campanha militar contra o Boko Haram.

De acordo com a organização, mais de mil pessoas, muitas detidas "arbitrariamente", estão a ser mantidas em prisões sobrelotadas e sem condições, com dezenas a morrerem por doenças ou à fome.

Em "Right Cause, Wrong Means: Human Rights Violated and Justice Denied in Cameroon's Fight Against Boko Haram", a Amnistia elenca detalhes sobre como a ofensiva militar contra o grupo terrorista tem resultado numa onda de violações de direitos humanos contra civis na região norte do país.

O relatório surge semanas depois de um novo ataque suicida do Boko Haram em Djakana ter provocado 11 mortos, no último de uma série de atentados que já ceifaram as vidas de 480 civis desde o início deste ano. Metade dos ataques suicidas reivindicados pelo Boko Haram são levados a cabo por crianças.

No documento, a Amnistia diz que mais de mil pessoas acusadas de apoiarem o Boko Haram estão a ser mantidas sem condições em prisões onde a má-nutrição e as doenças são galopantes. A prisão de Maroua é citada como um dos piores exemplos, com entre seis e oito pessoas a morrerem por mês. Apesar de alguns esforços do Governo para melhorar o fornecimento de água e para construir novas celas que ajudem a redistribuir a população prisional, as condições "permanecem desumanas", havendo quase 1500 pessoas detidas num edifício com capacidade para 350.

As visitas de familiares e advogados são muito limitadas, aponta a organização. A par disso, foram reunidas provas de que, para além da falta de condições nas prisões que conduzem a várias mortes por mês, há suspeitos de pertencerem ao Boko Haram a serem torturados até à morte. Do total de pessoas detidas, muitas de forma quase aleatória, pelo menos 100, entre elas várias mulheres, já foram condenadas à morte em julgamentos militares "injustos".

A maioria dos detidos é acusada sob a nova legislação anti-terrorismo aprovada nos Camarões em dezembro de 2014, medidas draconianas que "fornecem definições ambíguas de terrorismo" e que "ameaçam a liberdade de expressão", lê-se no comunicado da Amnistia.

"Ao tentarem proteger a sua população da brutalidade do Boko Haram, os Camarões estão em busca do objetivo certo, mas ao deterem de forma arbitrária, torturarem e sujeitarem pessoas a desaparecimentos forçados, as autoridades estão a usar os meios errados", sublinha Alioune Tine, diretora regional da AI para a África central e ocidental. "Com centenas de pessoas detidas sem suspeitas razoáveis de terem cometido qualquer crime, e com pessoas a morrerem numa base semanal nas prisões sobrepopuladas, o Governo camaronês tem de agir para manter a sua promessa de respeitar os direitos humanos na luta contra o Boko Haram."