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Protestos sobem de tom à medida que desce a qualidade de vida no Zimbabwe

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O pastor Mawarire à saída do tribunal depois de libertado

PHILIMON BULAWAYO / REUTERS

O setor da saúde é o mais afetado pelas políticas isolacionistas e pela greve da função pública. Pastor ativista foi libertado por ordem de tribunal

Cristina Peres

Cristina Peres

Jornalista de Internacional

Um dos impactos diretos da crise financeira no Zimbabwe é a dificuldade que a população tem em levantar dinheiro para as mais simples operações do dia a dia. Comprar analgésicos tornou-se, assim, um desafio no momento em que as instituições de assistência médica estão a trabalhar apenas a 30% das suas capacidades, reporta o Bhekisisa, um centro para o jornalismo de saúde do Zimbabwe.

“Longas filas contam a história da crise económica e do sistema de assistência médica em falência”, titula o Bhekisisa, revelando que muitas pessoas já não podem pagar os tratamentos e os medicamentos. O número de habitantes que recebe assistência médica desceu 30% nestes últimos tempos.

Os jornais reportam que há cidadãos a dormirem à porta dos bancos por não terem dinheiro para regressar no dia seguinte para voltar a tentar levantar dinheiro. Mesmo quando os bancos estão fornecidos de dinheiro, são rigorosos a não permitir que se levante mais de 500 dólares do Zimbabwe (o equivalente a €1 se a moeda não tivesse deixado de ter curso legal) por semana, escreve o “The Guardian”.

O sistema de saúde do país está a sofrer também com a onda de protestos que se têm dirigido nestas últimas semanas ao governo do Presidente Robert Mugabe. O setor sofre também a consequência da proibição de importação de bens estrangeiros ao mesmo tempo que os enfermeiros aderiram na semana passada à greve convocada pela função pública para protestar contra semanas de atraso no pagamento dos salários.

Uma organização não governamental local, a Citizens Health Watch, revela que 90% das instituições de saúde não dispõem de medicamentos essenciais em stock. Também tem havido escassez de drogas antiretrovirais, supostamente distribuídas gratuitamente nos hospitais aos pacientes VIH positivos.

Protestos reprimidos

O partido no Governo tomou-se de pânico no início da semana e intensificou a repressão aos ativistas pela democracia, escrevia nesta quarta-feira o jornal zimbabweano “Daily News”. As forças de segurança prenderam na terça-feira o líder da campanha #ThisFlag, o pastor Evan Mawarire, que teve ordem de libertação dada pelo tribunal nesta quarta-feira. O tribunal considerou anticonstitucional alterar a acusação de Mawarire de “incitamento à violência” para “tentativa de derrube do governo constitucionalmente eleito”. Segundo o “Daily News”, o tribunal considerou que os direitos do ativista tinham sido violados.

À saída do tribunal, havia centenas de pessoas à espera do pastor a cantar: “Estamos aqui em solidariedade com um homem de hábito que está contra o sistema que empobreceu os cidadãos desta nação”, declarou à imprensa o pastor de Harare Ellard.

Mawarire publicou um vídeo em linha que se tornou viral no qual manifestava a sua zanga pela deterioração das situações social e económica do Zimbabwe e desafiava os cidadãos a que responsabilizassem o governo.

Após a prisão do pastor, os ativistas publicaram um outro vídeo pré-gravado em que Mawarire desafiava os zimbabweanos a fazerem greve nesta quarta-feira. Segundo “The Guardian”, a prisão de Mawarire foi uma medida intimidatória para a convocatória de greve.

“Em vez de suprimir as vozes dissidentes, as autoirades do Zimbabwe deveriam ouvir manifestantes como Evan Mawarire”, disse ao jornal britânico Muleya Mwananyanda, o subdiretor internacional da Amnistia Internacional para o sul de África.