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Polícia dos EUA divulga vídeo em que agentes matam um suspeito

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Um vídeo divulgado esta quarta-feira nos Estados Unidos está a reacender um debate nacional: o uso excessivo da força pela polícia norte-americana. A vítima é um homem branco, depois de casos recentes em que as vítimas eram afro-americanas

“Mostra as mãos pela janela. As duas mãos pela janela”, grita um dos agentes da polícia. “Não, eu não te disse para saíres do carro. Ei, deixa-me ver as duas mãos. Deixa-me ver as duas mãos. As duas mãos!” O jovem de 19 anos tinha saído da pick-up e continuava a aproximar-se dos polícias, com uma das mãos levantadas e outra atrás das costas. “A outra mão. Mão direita para cima. Mão direita para cima.”

Dylan Noble continua a aproximar-se. “Se te aproximas mais, vais ser alvejado.” Noble não se detém e diz apenas: “Odeio a minha vida”. Ouvem-se dois tiros. O jovem cai imediatamente no chão da bomba de gasolina em Fresno, na Califórnia. Com ele, atrás das costas, estava um objeto: uma caixa de plástico 2,5 x 2,5 centímetros.

As imagens do incidente de 25 de junho foram reveladas através de uma câmara colocada na farda de um dos agentes que disparou sobre Noble, divulgada esta quarta-feira pelo chefe do Departamento da Polícia de Fresno, Jerry Dyer. Dyer adianta que os polícias seguiam uma denúncia sobre um homem que alegadamente transportava consigo uma arma e pensavam que Dylan estaria armado, o que os levou a disparar sobre ele. Segundo a polícia, o facto de o jovem ter continuado a mexer as mãos mesmo depois de baleado levou os agentes a pensar que ele estaria à procura de uma arma.

“O vídeo responderá a muitas perguntas da nossa comunidade”, garantiu Dyer. “No entanto, penso que também levantará outras.” Segundo o chefe da polícia, continuam a existir dúvidas sobre se os disparos dos agentes quando Noble estava caído no chão foram desnecessários. “Será que os últimos dois rounds de disparos foram necessários? Com base no receio fundamentado, teriam os agentes a necessidade de recorrer a força mortal? Ainda não tenho uma resposta para isso”, disse, acrescentando que está empenhado “em fazer o que é certo” nesta investigação.

“White Lives Matter”

A divulgação do vídeo da morte de Noble intensificou o debate que tem vindo a ter lugar nos Estados Unidos (EUA) sobre o uso de força excessiva pelas forças policiais - que tem provocado várias mortes, principalmente contra pessoas de raça negra. Já em 2014, a decisão de não julgar nem acusar o polícia responsável pela morte do negro Michael Brown deu origem a protestos nacionais contra os abusos da força policial, muitos através do slogan “Black Lives Matter”.

Dylan era branco e a sua morte a 25 de junho não gerou grandes protestos, até se saber da existência do vídeo. Por esse motivo, uma vigília no dia seguinte à sua morte quis reforçar a importância de se olhar também para a violência contra a população branca, sob o mote “White Lives Matter”.

“Tenho a certeza que se um afro-americano fosse alvejado, os protestos teriam disparado”, disse ao “Guardian” um amigo de Dylan, David Merkord. “Teria havido uma multidão muito maior.”

As redes sociais e as ruas disparam comentários em várias direções. Há quem acuse os polícias de homicídio, outros de “suicídio assistido” (na sequência da insistência de Dylan em não mostrar uma das mãos e das suas declarações antes de ser alvejado) e ainda há quem diga que os agentes foram colocados numa situação de “medo justificado”.

Família apresenta queixa

Depois de ter visto o vídeo numa divulgação privada na última semana, o pai de Dylan, Darren Noble, tem ainda mais certezas de que os polícias cometeram um homicídio. As imagens “mostram que o meu filho foi assassinado. Mostram que o meu filho ainda estava vivo (...). Dá para ver as mãos dele no vídeo. Os agentes dispararam sobre ele mais vezes, só para o matar”. A mãe do jovem apresentou uma queixa por morte por negligência contra o departamento policial.

Já o advogado de defesa do pai, Warren Paboojian, embora reconheça que o jovem não seguiu as ordens dos agentes, critica-os por terem usado métodos letais para o controlar. “Estavam a dizer a um jovem, que provavelmente estaria sob influência de álcool, para seguir um conjunto de regras numa paragem de trânsito.”

Também Peter Bibring, advogado da American Civil Liberties Union, aponta na mesma direção: “este vídeo não é, efetivamente, uma exoneração clara dos polícias”.