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Internacional

Egito está a calar dissidência com tortura e centenas de desaparecimentos forçados

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MOHAMED EL-SHAHED

Amnistia Internacional denuncia em novo relatório campanha de raptos, torturas e desaparecimentos forçados levada a cabo pela Agência de Segurança Nacional egípcia desde o início de 2015, quando Abdel Fattah al-Sisi subiu oficialmente ao poder

Os serviços de segurança egípcios têm sido responsáveis por centenas de desaparecimentos forçados e tortura de dissidentes desde o início de 2015, numa campanha lançada sob o argumento do combate ao terrorismo que, na prática, tem servido e serve para calar a dissidência.

Estudantes, ativistas poíticos e manifestantes, alguns com apenas 14 anos de idade, desapareceram sem deixar rasto ao longo do último ano e meio, suspeitando-se que muitos deles tenham sido mantidos em cativeiro durante meses e deixados durante todo esse período algemados e vendados.

De acordo com um relatório da Amnistia Internacional divulgado esta madrugada, mais de mil pessoas foram mortas e pelo menos 40 mil terão sido detidas desde que Abdul Fattah al-Sisi liderou o golpe militar que depôs Mohammed Mursi do poder em junho de 2013. Depois de afastar o primeiro Presidente democraticamente eleito no Egito em mais de 30 anos, que se candidatou pelo braço político da Irmandade Muçulmana, Sisi venceu com maioria absoluta as novas eleições convocadas em 2015, ilegalizando de imediato o grupo e dando início a esta campanha de terror.

Segundo Philip Luther, diretor da Amnistia para o Médio Oriente e o Norte de África, os desaparecimentos forçados e tortura a tornaram-se "instrumentos-chave das políticas do Estado" sob Sisi e Abdul Ghaffar, que assumiu o cargo de primeiro-ministro em março de 2015. De acordo com as investigações de organizações não-governamentais locais consultadas pela Amnistia, três a quatro pessoas têm desaparecido em média por dia no Egito desde então.

Só na sede do Ministério do Interior, na praça Lazoughly, no Cairo, onde funcionam os escritórios dessa agência de informação, estarão centenas de pessoas detidas, aponta a Amnistia. O Governo egípcio nega estar a recorrer a atos de tortura ou desaparecimentos forçados para controlar a dissidência, com o chefe do Ministério do Interior, Magdy Abdul Ghaffar, a insistir que os serviços de segurança respeitam sempre a lei egípcia.

O relatório tornado público esta quarta-feira expõe ainda o conluio entre as forças de segurança e as autoridades judiciais, que segundo Luther foram alegadamente "preparadas para mentir para cobrir os seus rastos ou, por outra, falharam em investigar alegações de tortura, o que as torna cúmplices de sérias violações dos Direitos Humanos".

No relatório são citados vários casos de vítimas desta campanha de silenciamento dos críticos, entre eles o de Mazen Mohamed Abdallah, de 14 anos, que foi levado da sua casa no Cairo por agentes da NSA a 30 de setembro sob acusações de integrar a Irmandade e participar em manifestações não-autorizadas. Mazen diz que, depois de ter refutado as acusações, os interrogadores violaram-no repetidas vezes com um pau para o forçar a "memorizar" uma confissão falsa, usando choques elétricos nos seus genitais e corpo e ameaçando-o que iriam prender os seus pais caso não "confessasse", estando atualmente à espera de julgamento.

Outro dos casos é o de Giulio Regeni, um italiano de 28 anos, estudante de doutoramento na Universidade de Cambridge, que foi encontrado morto à beira de uma estrada nos arredores da capital em fevereiro com visíveis sinais de tortura. Apesar de as autoridades egípcias negarem qualquer envolvimento na sua morte, a Amnistia diz ter encontrado "claras semelhanças" entre os ferimentos de Regeni e os de vários cidadãos egípcios que sucumbiram à tortura na prisão.