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Internacional

Turquia acusada de impedir investigações independentes para encobrir matança de civis

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Human Rights Watch acusa Governo turco de impedir acesso de organizações não-governamentais, jornalistas e advogados ao sudeste do país para escrutinar operações de segurança contra os curdos

As autoridades turcas estão a impedir que organizações não-governamentais, jornalistas e advogados acompanhem a situação no sudeste do país e monitorizem aquilo que a Human Rights Watch (HRW) diz serem abusos em massa contra civis, na sua maioria da etnia curda.

De acordo com a organização, o Governo de Recep Tayyip Erdogan impôs recolher obrigatório em 22 cidades e vilas do sudeste da Turquia, proibindo qualquer movimentação sem autorização prévia e impedindo que grupos de direitos humanos, repórteres e advogados possam escrutinar as operações de segurança.

“O efetivo bloqueio de áreas do sudeste do país pelo Governo turco alimenta preocupações de que estejam a encobrir” o que realmente se passa, disse esta terça-feira Emma Sinclair-Webb, do ramo turco da HRW, em comunicado. “O Executivo turco devia dar à ONU e a grupos não-governamentais acesso imediato à área para que possam documentar o que se está a passar lá.”

A região sudeste da Turquia, que concentra grande parte da minoria turca curda, tem sido palco de violentos protestos e confrontos armados desde que o processo de paz entre o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) e o Executivo de Erdogan colapsou em julho de 2015.

As negociações depois de mais de 40 anos de conflito armado pela autodeterminação dos curdos acabaram quando o Governo turco decidiu fazer frente aos curdos como ao autoproclamado Estado Islâmico (Daesh), lançando ofensivas paralelas contra o povo que está espalhado por vários países da região e contra o grupo terrorista que continua a batalhar pelo Iraque e a Síria.

De acordo com a HRW, pelo menos 338 civis já foram mortos em zonas de conflito entre as forças de segurança turcas e as Unidades de Proteção do Povo (YPS) curdas. O grupo aponta ainda que mais de 355 mil pessoas estão deslocadas pela guerra civil silenciosa, tendo sido forçadas a procurar abrigo noutras cidades, outras até em regiões distintas da Turquia.

Antes de as autoridades turcas terem impedido a HRW de dar continuidade ao seu trabalho de investigação sobre o que se passa no sudeste do país, bloqueando as suas tentativas de entrevistar familiares das vítimas, a organização já tinha documentado 16 mortes que ocorreram em operações de segurança já depois do impôr do recolher obrigatório.

Entrevistas anteriores ao bloqueio com algumas dessas famílias revelaram que muitas casas e propriedades dos cidadãos foram danificadas durante os confrontos e que, em certas áreas, foram totalmente demolidas, em particular na cidade de Cizre, uma das nove cidades mais afetadas pelo conflito em curso.

Estas informações foram confirmadas com recurso a imagens de satélite entre fevereiro e junho deste ano, com Sinclair-Webb a ressaltar, entre os ataques mais recentes, o cerco a três edifícios daquela cidade pelas forças turcas, que mataram “deliberadamente e sem justificação” cerca de 130 pessoas, algumas delas civis desarmados, outras combatentes curdos feridos.

“É crucial que haja uma real prestação de contas no sudeste da Turquia perante o aumento do balanço de mortos nesta espiral de conflito”, diz a investigadora. “A procuradoria devia investigar, completamente e de forma eficaz, todas as alegações de abusos pelas forças estatais e pelos grupos armados, impedindo medidas legais ou extra-legais que sejam tomadas para garantir a impunidade do pessoal responsável por estes crimes.”