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“Os negros estão a ser mortos e isto é apenas o culminar de uma situação que se arrasta há décadas”

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JONATHAN BACHMAN/REUTERS

Protestos contra a morte dos dois afro-americanos que foram baleados pela polícia estendem-se a outras cidades norte-americanas, como Nova Iorque, São Francisco, Fresno, West Palm Beach, Fort Lauderdale e Miami

Helena Bento

Jornalista

“Os negros estão a ser mortos e isto é apenas o culminar de uma situação que se arrasta há décadas”. Foi com estas palavras que Marie Flowers, uma das centenas de pessoas que ocuparam, no sábado, as ruas de Baton Rouge, capital do estado do Louisiana, para protestar contra a morte de dois afro-americanos às mãos da polícia, se dirigiu ao jornalista da Associated Press.

Uma das vítimas, Alton Sterling, 37 anos, vendedor ambulante de discos, morreu precisamente ali, em Baton Rouge, depois de uma pessoa (a sua identidade é desconhecida) ter telefonado à polícia para apresentar queixa contra ele, alegando ameaça. A polícia dirigiu-se imediatamente ao local, imobilizou Sterling e disparou vários tiros sobre ele.

Philando Castile, 32 anos, também afro-americano, foi morto no dia seguinte, quarta-feira, 6 de julho. Ele, a filha e a namorada encontravam-se numa das ruas de Falcon Heights, no Minnesota, quando o carro em que seguiam foi mandado parar pela polícia, por causa de um farol partido. A situação teve um desfecho trágico. Castile só teve tempo de avisar que tinha a carta de condução no bolso das calças, assim como uma arma (tinha licença de porte). Segundos depois foi alvejado por dois agentes, que talvez - não sabemos se foi isso que realmente aconteceu - tenham interpretado mal os seus movimentos. Philando Castile morreu pouco tempos depois. O momento foi registado pela namorada, Diamond Reynolds, num vídeo partilhado no Facebook e descrito por muitos como “inquietante”,

Ainda que vários governantes e líderes tenham, ao longo desta semana, tentado refriar os ânimos - e Obama foi um deles, tendo dito, em Varsóvia, onde decorreu a cimeira da NATO, que “não podemos permitir que as ações de poucos nos definam a todos” -, a verdade é que a situação, em algumas cidades norte-americanas, está por um fio. Os protestos repetem-se dia após dia, com um grau de violência crescente, a população fazendo frente à polícia, que não sabe para onde se virar.

Em Minnesota, os manifestantes, indignados com a morte de Philando Castile, têm bloqueado estradas e enfrentado os agentes da autoridade munidos de pedras e garrafas. No sábado à noite, vários membros do New Black Panther Party (considerado pela Anti-Defamation Leagueo maior grupo organizado anti-semita e racista dos EUA”) desafiaram a polícia. Dezenas de pessoas foram detidas, refere a BBC. Três agentes ficaram feridos, depois de outros manifestantes terem lançado fogo de artifício na sua direção, conta o “Guardian”. A polícia recorreu a granadas de fumo para dispersar a multidão, conforme se vê nas fotografias e vídeos dos protestos que vão surgindo.

Em Dallas, no estado do Texas, os alarmes também têm soado alto. A morte de cinco polícias às mãos de jovem afro-americano de 25 anos, Micah Johnson, antigo reservista do Exército norte-americano, que esteve durante mais de um ano no Afeganistão, deixou a cidade em choque. Este domingo, a segurança do departamento da polícia de Dallas foi reforçada, devido a uma ameaça anónima dirigida às forças de autoridade da cidade, tendo sido tomadas, além disso, outras medidas de precaução, informou a polícia em comunicado divulgado pela imprensa local.

Em Baton Rouge, no Louisiana, os protestos prolongam-se há cinco dias, com cada vez maior intensidade. Dezenas de pessoas, que participavam em manifestações, foram já detidas por causarem distúrbios, segundo a BBC. Em cidades como São Francisco e Fresno, na Califórnia, e West Palm Beach, Fort Lauderdale e Miami, na Flórida, várias estradas e pontes estiveram bloqueadas nos últimos dias por causa dos protestos, que têm decorrido, nestas cidades, de forma pacífica. Também em Nova Iorque houve uma manifestação. Centenas de pessoas percorreram as ruas de Manhattan em homenagem a Alton Sterling e Philando Castile. Pelo menos 20 pessoas foram detidas, de acordo com a BBC.

Em conferência de imprensa em Varsóvia, após o final da cimeira da NATO, Barack Obama voltou a chamar a atenção para a proliferação das armas de fogo nos EUA. “Se estão preocupados com a segurança dos nossos funcionários, não devemos deixar de fora a questão das armas de fogo e fingir que não é importante”, salientou o Presidente dos Estados Unidos.

  • Até quando, América?

    Acordámos por cá enquanto outros se matavam e morriam por lá. Houve tiros e mortes em Dallas, nos Estados Unidos: cinco polícias escalados para um protesto pacífico contra a violência policial foram mortalmente atingidos a tiro esta sexta-feira. O ciclo vicioso continua a cumprir-se: polícias contra negros e vice-versa, negros contra brancos e idem. E depois há morte. Demasiada morte. Até quando?

  • Identificado atirador que matou cinco polícias em Dallas

    Trata-se de Micah Johnson, de 25 anos. Segundo a CNN e o “New York Times”, que citam um oficial da polícia, o atirador esteve na reserva do Exército norte-americano, vivia na cidade de Mesquite, no Texas, e não tinha cadastro criminal. Três dos cinco polícias que morreram também já foram identificados