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Algumas coisas que nos irritam nos franceses

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MARTIN BUREAU/GETTY IMAGES

Mesmo quando se adora o país, há aspetos francamente deploráveis. Hoje é dia de os lembrar

Luís M. Faria

Jornalista

Ao longo do tempo, França tem sido a segunda pátria de milhões de portugueses, desde emigrantes em busca da sobrevivência até escritores que se alimentaram da tradição intelectual francesa. Ainda hoje o país ocupa um lugar especial na consciência e no afeto de muitos de nós. Porém, não há bela sem senão, e também associamos os franceses a alguns aspetos irritantes. Eis aqui sete.

ARROGÂNCIA

É aquilo que mais pessoas referem quando dizem que não gostam dos franceses. Ir a um café ou um restaurante e ter de aturar um empregado mal educado, que só atende quando quer e dá respostas tortas. Este repórter ouviu em tempos uma funcionária de check-in dizer-lhe, a propósito de nada, que não falava português e tinha orgulho nisso (o choque não o impediu de responder que sabia tratar-se de uma língua difícil). Diz-se que é um fenómeno especificamente parisiense, mas o snobismo arrogante também se encontra noutras zonas de França. Contudo, devemos reconhecer, a regra no país são as boas maneiras. Em qualquer padaria numa zona rural, elas têm uma qualidade não inferior à do próprio pão. Nos maneiras como nos géneros, o que lá é normal aqui seria refinamento.

CLASSISMO, ELITISMO

O lado institucional, da arrogância. Quem alguma vez encontrou um alto funcionário francês - um comissário europeu, digamos - conhece provavelmente a sensação de ser tratado como alguém que se encontra infinitamente abaixo da dignidade do mandarim. Esse tom superior não é um factor dispiciendo na repulsa crescente pela burocracia comunitária em países como o Reino Unido. Perante esses indivíduos, mesmo colegas deles, em tempos que já lá vão (esperemos), pareciam assumir a sua inferioridade. Alguns comissários portugueses, em conferências de imprensa, tinham o ar de uns tontinhos que diziam piadas e se riam.

GREVES

A praga da França moderna, ou a demonstração que há pelo menos um país na Europa onde os trabalhadores não confiam nas instituições formais para defender os seus direitos. Camionistas que bloqueiam as estradas do país, funcionários de aeroporto que interrompem os vôos nalgum momento crucial (digamos, exatamente quando o Comité Olímpico está a escolher a cidade para os próximos Jogos), operários que sequestram patrões, são ocorrências relativamente habituais em França. Os turistas sofrem, como os locais, e a produtividade nacional também não há-de sair beneficiada. Mas este é o país das 35 horas laborais e das lojas que tiram férias no verão por nessa altura haver gente demais para atender. A vida não é só trabalho, caramba.

VIGARICE INTELECTUAL

Há vinte anos, um livro chamado "Imposturas Intelectuais" (edição portuguesa na Gradiva) expôs o modo como os maiores pensadores franceses contemporâneos se apropriavam de conceitos extraídos das ciências e os usavam de forma completamente desvirtuada, como parte de sofisticados exercícios verbais de fogo de vista. O lado ao mesmo tempo solene e esotérico do discurso intelectual francês tornava possível a fraude. Como não se compreendia e era complexo, soava profundo. Alguns dos pensadores defenderam-se alegando que os conceitos em causa eram usados como metáfora, mas a defesa não convenceu toda a gente. Embora a influência dos intelectuais já não seja o que foi, em França como em lugar nenhum, ainda subsiste algum potencial para causarem dano, como se vê pela influência pública de alguém como o filósofo Bernard-Henri Lévi, cuja fiabilidade é duvidosa, para dizer o mínimo.

FILMES

O cinema é considerado uma das glórias da moderna cultura francesa. Protegido pelo Estado de uma forma que os cineastas de outros países só podem invejar, teve a sua quota de génios e continua a produzir obras de talento. Mas a economia narrativa de realizadores do passado parece ter, enfim, passado. Hoje em dia, para muitos espetadores, chegar a um cinema e perceber que àquela hora o único filme disponível é um filme francês põe com frequência um dilema. Àquela hora, será que apetece passar duas horas a ver uma história vagamente sentimental disfarçada de profunda, com um ritmo desgraçado e palavrosidade interminável? Encontrar um filme francês que fuja a esta regra nem sempre é fácil. Quando acontece, é uma alegria.

RACISMO

Existe em todos os países, mas em França exprime-se naturalmente em cenários que vão muito para além da taberna. Sobretudo antiárabe, embora não só. O que surpreende os visitantes é a forma direta e agressiva que às vezes assume. Por exemplo, ouvir uma funcionária bancária em Marselha dizer em voz alta a um marroquino que ele não tinha nada que ir para ali arranjar complicações, e devia ter ficado na sua terra.

MARINE LE PEN

Juntamente como o seu pai, representa o pior da França. Jean-Marie Le Pen torturou argelinos durante a guerra que levaria à independência da antiga colónia francesa no norte de África - e gaba-se disso. Um dia, era Marine jovem, os dois foram vistos a rir de um idoso argelino que contava na televisão os horrores que Le Pen lhe tinha infligido na carne décadas antes. O homem mostrava um enorme corte no corpo, e Le Pen, todo divertido, dizia à filha: devia ter feito pior. Ela também gozava. É esta pessoa que agora tem uma excelente probabilidade de se tornar a próxima presidente da pátria de Voltaire, após uma reciclagem que lhe deu uma imagem falsamente moderada, e portanto muito mais perigosa.