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Gay Talese está constipado

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JORNALISMO. Gay Talese, uma lenda do jornalismo norte-americano, viu-se obrigado a desautorizar o seu próximo livro

CARLO ALLEGRI/REUTERS

O título estava escolhido. Chamar-se-ia “O Hotel do Voyeur” e tinha lançamento previsto para a próxima terça-feira. Assinado por Gay Talese, uma espécie de papa da grande reportagem e do jornalismo de referência norte-americano, tinha todas as condições para se transformar em mais um enorme sucesso editorial do jornalista e escritor.

Foi Talese quem disse um dia que fazer reportagem é muito mais interessante do que inventar histórias. O “Hotel do Voyeur” insere-se nesse filão imenso das histórias maiores que a vida.
Neste caso, tratava-se de algo capaz de ultrapassar a ficção. Um dia, o jornalista é contactado por um homem chamado Gerald Foos. Apresenta-se como proprietário de um motel situado em Aurora, Colorado, nos Estados Unidos da América, e tem um segredo para partilhar. Ao remodelar o seu motel aproveitara para criar um teto falso nos quartos, de modo a poder acompanhar as práticas sexuais dos seus hóspedes. Tê-lo-ia feito durante décadas, entre os finais dos anos de 1960 e meados dos anos de 1990, e isso, sem sombra para dúvidas, constituía uma fabulosa matéria-prima para uma grande reportagem.

Há uns dois meses a revista “New Yorker” publicava um fragmento desta surpreendente história. Não só a li com avidez como a arquivei, à espera da publicação do livro. Até pode ser que a editora não queira deitar tudo a perder e “O Hotel do Voyeur” venha a estar nas livrarias. Continua a ser uma grande história. Com a diferença, agora, de não ser verdadeira.

Há dias, o grande, o enorme Gay Talese teve de assumir, aos 84 anos de idade, algo que jamais, na sua longa vida de jornalista rigoroso, lhe passara pela cabeça ter de reconhecer. Veio a público distanciar-se do livro e afirmar que nunca devia ter acreditado numa única das palavras ditas por Gerald Foos.

d.r.

Foi um golpe fatal para o autor de tantas obras notáveis, como por exemplo aquela que ainda hoje é vista como uma das reportagens definidoras de um cânone: o do chamado “novo jornalismo” norte-americano. Tinha Talese 32 anos quando a revista “Esquire” lhe encomendou um perfil de Frank Sinatra. O que poderia ter apenas mais um perfil transformou-se numa obra de referência. Quando a “Esquire” publica o artigo, intitulado “Frank Sinatra has a cold”, a verdade contada pela reportagem ia muito para lá da gripe que no inverno de 1965 obrigara o cantor a cancelar uns concertos e revelava aspetos complexos da vida de um homem então envolvido com a jovem atriz Mia Farrow e a braços com as suspeitas de ligações à máfia.

Ao longo de cinco semanas, em Los Angeles, Talese entrevistara cem pessoas, enchera 200 páginas com notas e, por fim, apresenta 50 páginas escritas à máquina com o perfil de Sinatra. É um retrato cruel, minucioso, durante o qual segue o cantor através de clubes noturnos, combates de boxe, hotéis, casinos, restaurantes, estúdios de gravação. A reportagem é feita sem que jamais Talese tenha trocado uma palavra com “a voz”.

É o triunfo de um novo conceito de jornalismo, não obstante as reservas suscitadas por algumas componentes da abordagem feita. Vieram depois livros como “A mulher do Próximo” ou “Honra o teu pai”. De todos eles emerge como que um monumento ao grande jornalismo. É forte a tentação,face aos últimos acontecimentos, de proclamar que Gay Talese se constipou. Por associação de ideias não faltará quem extrapole e faça uma generalização conveniente, para defender um outro tipo de constipação: a do jornalismo.

Frank Sinatra

Frank Sinatra

AFP/GETTY IMAGES

Estas notícias tendem a ser exageradas. Gay Talese desautorizou o seu novo livro como resposta inevitável aos resultados de uma grande investigação jornalística conduzida por repórteres do “Washington Post”. Decidiram proceder a uma verificação de factos, depressa começaram a perceber as incongruências e impossibilidades da história e acabaram, eles próprios, por ter nas mãos uma outra grande reportagem.

O jornalismo triunfou, é verdade. Porém, fica a dúvida intrigante: como foi possível um jornalista tão experimentado como Gay Talese ter construído um livro a partir das informações de uma única fonte, sem confirmar, sem contraditório, sem verificar em profundidade a veracidade das informações prestadas, mesmo em aspetos tão básicos como a propriedade do hotel que Foos afirmava ser seu?