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Brincar com o ébola

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A história de um italiano que foi nomeado embaixador itinerante de São Tomé, enviado especial do país à ONU e apresentou ao mundo um projeto de 2,5 mil milhões de euros para ajudar os países africanos atingidos pela epidemia. E como tudo não passou de uma mentira (com máfia e paraísos fiscais pelo meio)

Craig Shaw, Lorenzo Bagnoli e Lorenzo Bodrero* (texto)

A foto regista um momento histórico para o povo de São Tomé e Príncipe. Tirada no fim de maio de 2012, mostra um homem de 49 anos vestido com o uniforme de general dos Corpi Sanitari Internazionali, uma derivação não militar da Legião Estrangeira francesa. Respeitosamente sentado em frente ao Presidente de São Tomé, Manuel Pinto da Costa, ele acaba de ser apresentado como o novo embaixador itinerante e enviado especial às Nações Unidas.

É a primeira missão diplomática do país na ONU, em Nova Iorque, desde a independência em 1975.

Mas o homem pessoalmente escolhido por Costa para representar os 200 mil cidadãos do país no estrangeiro não é um veterano estadista, um político proeminente ou sequer um nativo das ilhas. É Angelo Antonio Toriello, um branco de nacionalidade italo-francesa, sem experiência diplomática ou política.

Poucos são-tomenses estariam em condições de dizer como Toriello foi parar àquela sala naquele dia. Num misterioso ato de fé, Costa assinara um decreto presidencial em segredo três meses antes, dispensando as audiências de confirmação no parlamento que poderiam ter fornecido respostas sobre como Toriello arranjara conexões políticas tão elevadas.

Antes da sua nova e inexplicável carreira como diplomata na África Ocidental, Toriello parece ter andado a saltar de um empreendimento para outro, acumulando uma história eclética como dono de bar, jornalista de investigação, artista de espetáculo, frade franciscano, fundador de grupos religiosos holísticos e investigador dedicado a ajudar “pais em luto... a falar às suas crianças partidas”. Também se arroga dois mestrados e um doutoramento. Se Toriello sentia algum embaraço com a sua nomeação, não foi a ideia que deu. A partir do seu escritório em Nova Iorque, começou a empregar amigos em lugares-chaves — essencialmente outros italianos, essencialmente brancos. Entre eles, o novo coordenador, dr. Sebastiano Lauritano, e o chefe do seu escritório italiano, Amerigo Festa, um advogado e presidente do Projeto Seres Humanos, a organização sociorreligiosa, New Age, de Toriello.

Uma das marcas do mandato deste último ao longo de quatro anos tem sido uma campanha para impor a sua versão de diplomacia espiritual. Apoiou o Dia Internacional do Ioga do primeiro-ministro indiano Narendra Modi, bem como o Dia Internacional da Felicidade das Nações Unidas, e criou a sua própria iniciativa — ‘Humanicia’, “O Lado Humano da Diplomacia” — para usar a “consciência intensificada da arte” para promover “a paz e o desenvolvimento global”.

Mas a realização mais notável do embaixador foi um projeto de ajuda à África Ocidental no valor de milhares de milhões de dólares, anunciado no concerto Parar o Ébola e Construir para o Futuro que teve lugar em fevereiro do ano passado na Assembleia Geral da ONU.

A iniciativa foi concebida para financiar coisas tão necessárias como hospitais, instalações de saúde, equipamento, habitação, infraestruturas e ajuda a locais na criação de empresas, em países da África Ocidental fortemente atingidos pela epidemia de ébola atualmente em curso.

Ao fim de escassos meses, porém, o projeto desapareceu discretamente sem explicação.

Embora Toriello nunca o tenha admitido publicamente, o negócio foi cancelado devido à decisão de atribuir um contrato sem concurso a uma empresa dirigida por um homem que em tempos foi condenado por lavar dinheiro da máfia.

O concerto do ébola

A crise do ébola começou com a morte de um menino guineense de dois anos chamado Emile Ouamouno. Ele contraiu uma doença desconhecida no dia 4 de dezembro de 2013 e morreu uns dias depois, após ter contaminado fatalmente a sua mãe, a sua avó e a sua irmã de três anos.

Meliandou, a aldeia de Emile, fica no Sudoeste do país, uma região de floresta densa que está próxima da fronteira com a Serra Leoa e a Libéria. Quando a comunidade médica internacional finalmente reconheceu o ébola como a causa dessas mortes, três meses depois, o vírus já tinha saltado a fronteira. Um fator que contribuiu para a epidemia, dizem especialistas da Organização Mundial de Saúde, foi a África Ocidental, por não ter tido antes casos reportados de ébola, estar mal equipada para lidar com uma eclosão mortal da doença. Anos de pobreza e “longos períodos de conflito e instabilidade” resultaram numa ausência de procedimentos adequados para resposta a desastres, bem como de locais onde efetuar testes e uma infraestrutura suficiente.

Com o seu projeto multimilionário de desenvolvimento, Toriello esperava mudar isso.
Em 28 de fevereiro de 2015, três anos depois de Costa ter usado a sua varinha executiva, o embaixador Toriello encontrava-se numa sala de imprensa quase vazia nos escritórios nas Nações Unidas em Nova Iorque. Entretanto promovido a vice-representante Permanente, era o copatrocinador do Concerto de Solidariedade do Ébola, que a Assembleia Geral ia acolher dois dias depois.

Organizado pela fundação Give Them a Hand, a Fundação de Amizade dos Embaixadores e o Congresso Nacional Africano, o concerto esperava ajudar a manter uma consciência global da crise de saúde que estava a acontecer em África, onde cerca de dez mil pessoas já tinham morrido e um número ainda maior de crianças tinham ficado órfãs.

No discurso que fez antes, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, agradeceu à missão de São Tomé e instou os cidadãos a assumirem compromissos de apoio financeiro para “vencer o ébola e ajudar os países afetados a construir para um futuro melhor”.

Que o concerto tivesse perdido dinheiro, não fazia mal. Um inspirado Toriello e o seu assistente Lauritano haviam dado os toques finais numa ambiciosa iniciativa multimilionária para reconstruir os “países afetados”.

Posicionado junto a Lauritano na sala de imprensa da ONU, Toriello revelou o seu grande plano: ele e a missão de São Tomé e Príncipe estavam a trabalhar com várias companhias num projeto de assistência de 2,5 milhares de milhões de dólares.

“Pintus é um grupo conhecido e são bastante importantes...”, disse Toriello. “São liderados por Curio Pintus, uma pessoa bem conhecida não apenas em Itália, e por Antonio Monti, sobrinho do [ex-primeiro-ministro italiano] Mario Monti”.

“Lauritano trabalhou durante muito tempo para identificar este grupo, que é bastante grande”, disse, antes de o convidar a dar mais informação.

Com Toriello a traduzir, Lauritano disse que ele e o Grupo Pintus estavam a estudar a “parte elétrica” do vírus, ao mesmo tempo que se envolviam em pesquisas para “reduzir o agente complementar que provoca o ébola”, os fatores socioeconómicos que lhe permitem espalhar-se tão rapidamente em zonas pobres.

Nos meses seguintes, Toriello contratou uma firma de relações públicas para promover a sua mensagem. Numa entrevista ao site noticioso italiano MondoLibero Online, preencheu algumas das lacunas. “A parte financeira vai ser tratada em conjugação com o Banco Mundial e o contratante geral, que é o Grupo Pintus USA”, disse, antes de acrescentar que o projeto seria “estritamente controlado e supervisionado pela ONU, para garantia do excelente resultado final”. Adiantou que queria usar o negócio para “oferecer oportunidades a companhias italianas”.

Toriello alegou mais tarde que antes de assinar o contrato jamais tinha ouvido falar do Grupo Pintus e do seu CEO, Curio Pintus. Claro que, se tivesse dedicado algum tempo a verificar, ficaria a saber imensa coisa.

A biografia de Pintus

Em 2000, no decurso da Operação Hidros, uma investigação à máfia na Calábria (Itália), um corretor chamado Curio Pintus, a meio dos 50, com cabelos grisalhos e óculos, admitiu às autoridades: “Toda a gente que trabalhava para mim estava consciente de que eu realizava atividades de lavagem de dinheiro no meu grupo financeiro.”

Foi uma confissão extraordinária para um homem que durante muito tempo negara ter um passado criminoso com a máfia.

O julgamento Hidros acabou com a fachada de Pintus. Os procuradores conseguiram provar que desde os anos 80 um dos grupos criminosos mais poderosos do mundo, a ’Ndrangheta da Calábria, usara os mercados de frutas e legumes de Milão como centro para traficar milhares de milhões de dólares em drogas e armas pelo mundo fora. No seu auge, a operação lidava com 300 quilos de narcóticos todos os meses, sobretudo cocaína da América do Sul e heroína da Turquia, gerando enormes lucros. Dois clãs da ’Ndrangheta — Morabito e Bruzzese — orquestravam o esquema, mas o chefe indiscutível era Leo Talia, sobrinho do superchefe da ’Ndrangheta, Guiseppe Morabito.

Curio Pintus era o homem do dinheiro de Talia. Pintus transformava os lucros da droga e das armas em títulos financeiros legais, dirigindo uma sofisticada rede global de lavagem de dinheiro que envolvia companhias-fantasmas offshore e contas em alguns dos principais bancos do mundo. A Guardia di Finanzia (Guarda Fiscal) descreveu Pintus como o “elemento necessário” no empreendimento, ligando mais de 600 milhares de milhões de fundos ilícitos às suas operações financeiras — 343 milhões de euros em dinheiro atual.

Pintus viria a ser considerado culpado, juntamente com vários membros de topo da ’Ndrangheta, e condenado a três anos de cadeia.

Mais de uma década depois, continua ativo no sector financeiro como líder do Pintus Group LLC, com sede em Las Vegas, EUA.

Descrevendo-se como um “banco comercial, com escritórios no Reino Unido, Suíça, Itália, Malta, Hong Kong, Índia e África”, também afirma trabalhar na República Dominicana, Panamá, Dubai, Tailândia, Roménia e Sérvia.

Mas o Grupo Pintus parece não ser mais do que uma fachada falsa, não regulada, com tendência para negócios não substanciados e documentos financeiros com aspeto estranho.
Em várias ocasiões, a companhia recusou fornecer provas de que as suas alegadas atividades de investimento tinham sido autorizadas por reguladores estatais ou federais, gerando questões sobre a legalidade do seu empreendimento.

Em mais do que um caso, houve revelações a sugerir que o Grupo Pintus se envolvia rotineiramente na criação de contratos e instrumentos financeiros fraudulentos.

Alberto Rovere, um engenheiro e ex-empregado do Grupo Pintus, forneceu um conjunto de documento que diz terem sido usados pelo intermediário da máfia para atrair clientes e investidores. Com datas entre julho e setembro de 2015, eles presumem mostrar 200 milhões de euros numa conta no Banco da Irlanda, com uma letra de confirmação assinada por um dos principais executivos do banco.

Mas o banco nega terminantemente ter lidado com a companhia, e diz que os documentos são falsos.

Personagens. Angelo Antonio Toriello e a famosa foto com o Presidente de São Tomé, quando foi apresentado como enviado especial do país à ONU. Na página anterior, da esquerda para a direira, Antonio Monti, o homem misterioso; Curio Pintus, o homem do dinheiro; Toriello e Lauritano na ONU, na conferência de imprensa após a apresentação do projeto para a África Ocidental

Personagens. Angelo Antonio Toriello e a famosa foto com o Presidente de São Tomé, quando foi apresentado como enviado especial do país à ONU. Na página anterior, da esquerda para a direira, Antonio Monti, o homem misterioso; Curio Pintus, o homem do dinheiro; Toriello e Lauritano na ONU, na conferência de imprensa após a apresentação do projeto para a África Ocidental

Pippa Hadley, responsável de Comunicação no Banco da Irlanda, diz que o banco “não tem conhecimento da transação tal como detalhada no e-mail”. “A ‘Carta de confirmação’ datada de 24 de julho de 2015 é um documento falso (não foi emitida pelo Banco da Irlanda, é uma fraude).” Acrescentando não ter “qualquer conhecimento de uma entidade chamada Pintus Group LLC” ou de “qualquer pagamento de 200 milhões de euros. Esses fundos não existem”.

Outro documento obtido por um site de denunciantes nos EUA é uma minuta de contrato para um negócio de desenvolvimento no Senegal, assinado pelo vice-presidente para assuntos técnicos, Guerino Nava. As verbas são elevadíssimas: 200 mil milhões de euros para “projetos de desenvolvimento social e económico”, não especificados.

Um homem de negócios senegalês que foi presidente da Federação das Associações de Funcionários Alfandegários para a África Ocidental, Madior Bouna Niang, diz que o Grupo Pintus lhe pediu para entregar o contrato pessoalmente ao Presidente senegalês Macky Sall. Ele recusou.

“Não confiei neles”, disse. “Não era claro o objetivo, portanto parei tudo. Eles disseram que eu teria levado o contrato ao Presidente, mas nem sequer conheço [Curio Pintus].”

Quando lhe perguntam por que motivo Pintus o procurou a ele especificamente, diz: “Eu não o conhecia antes. Não faço ideia como ele me encontrou.”

Num telefonema, Pintus declarou que Nava nunca assinou qualquer contrato, mas recusou fazer comentários sobre a origem dos documentos e sobre como o Grupo Pintus conseguiu obter quantidades tão vastas de dinheiro.

Gan Gaetano Bellavia, consultor da Procuradoria de Milão e especialista em lavagem de dinheiro, disse: “Se se ler o contrato com os números e as entidades envolvidas, pode bem parecer uma tentativa de lavar dinheiro. Mas os montantes e as assinaturas são hilariantes, tornando implausível um contrato deste tipo.”

Este julgamento foi ecoado por Burke Files, um investigador de fraudes e presidente na Financial Examinations & Evaluations, Inc, que disse: “Só este financiamento, estes 200 milhares de milhões, teria sido uma das maiores pilhas de dinheiro do mundo. Com montantes desses, não é preciso anunciar nos fóruns de mensagens e no Facebook, como Pintus faz. Os negócios voam até nós! Não há possibilidade nenhuma de isto ser real, exceto como uma fraude real e um esquema… O Grupo Pintus anda atrás das comissões associadas ao projeto, entre 0,5% e 2% em despesas e impostos. A empresa devia ser exposta e julgada.”

Felizmente para Pintus, ele não precisava de credenciais tão elaboradas para sacar o contrato lucrativo do ébola. Toriello e a sua equipa oferecer-lho-iam em exclusivo.

O negócio

Em novembro passado, jornalistas contactaram o escritório de Toriello para saber o estado do projeto Ébola, que nessa altura permanecia suspeitosamente por resolver ao fim de quase um ano. Foi-lhes dito que o negócio de Pintus era demasiado sensível para ser discutido ao telefone ou por e-mail — só poderia ser falado cara a cara.

Durante o encontro num restaurante em Shepherd’s Bush (Londres) dois dias após o Natal, Toriello continuava relutante em dar uma explicação de como ele e os são-tomenses se tinham deixado envolver com um vigarista conhecido.

Em vez disso, o embaixador falou de tentativas para obter compensação financeira para si mesmo por ter entregado provas de ilegalidade à ONU, incluindo o contrato que assinara com Pintus, dizendo que “tinha uma família para cuidar”.

Embora nunca recebesse dinheiro nenhum, Toriello tinha razão em estar preocupado com as possíveis consequências de ver expostos ao escrutínio público os entendimentos contratuais de Pintus com ele e o seu escritório.

Explicaria mais tarde que, pouco antes do concerto, um homem de negócios italiano chamado Antonio Monti abordara o seu assistente, Lauritano, no seu escritório em Bari, Itália, a promover o contrato do Ébola.

Monti, que Toriello disse ter-se apresentado como sobrinho do antigo primeiro-ministro italiano Mario Monti, fez a sua proposta na ONU em Nova Iorque, dizendo que a sua firma estava em boa posição para lidar com as finanças do empreendimento. Tinham sucursais pelo mundo fora, e já antes tinham embarcado em projetos humanitários similares.

Quaisquer desconfianças que Toriello pudesse ter tido, incluindo sobre os motivos por que nunca lhe foi dito o nome da companhia representada por Monti naquele momento, foram provavelmente afastadas pelo prestigioso nome de família, Monti. E o aliciante suplementar da promessa de meio milhão de dólares para ajudar a pagar o concerto do Ébola também não deve ter prejudicado.

Quando se tornou claro que a doação prometida nunca chegaria, Toriello já tinha anunciado publicamente que assinara um contrato com o “bem conhecido” Grupo Pintus. Quando o embaixador Pintus acabou por cancelar o contrato com o Grupo Pintus meses depois — Curio Pintus alega que está meramente “em suspenso” — foi, segundo explicou, por ter ficado inquieto com a proposta de os fundos ficarem à guarda da companhia, e com o uso potencialmente fraudulento de códigos bancários da Depository & Trust Clearing Corporation (DTCC).

A DTCC é uma conduta para movimentos globais de dinheiro, e gaba-se de lidar com 1,4 quatriliões de dólares anualmente. É utilizada pelas maiores instituições financeiras do mundo, tais como bancos e companhias de seguros, para proteger e resolver transações.

Segundo Pintus, o plano inicial era para agir como o intermediário autorizado da transferência de fundos através da DTCC. Em troca, a companhia receberia uma comissão de um por cento. Num negócio avaliado em 2,5 milhares de milhões de dólares, Pintus ficaria com pelo menos 25 milhões.

Mas o Grupo Pintus não parece ter acesso ao sistema da DTCC, o qual requer uma licença. Em vez disso, o Grupo Pintus recorreria a uma outra companhia, a GOSB Group, uma firma baseada na Florida e chefiada por Arthur Osborn, também conhecido como Arturo Moises Gonzalez Osborne. Osborn e os seus associados dirigem uma série de companhias obscuras no Reino Unido, Panamá e Florida, nenhuma das quais tem acesso legítimo aos códigos DTCC.

Pintus insistiu que não tinha quaisquer negócios com a GOSB, Arthur Osborn, ou a sua pequena rede de companhias populares em sites de esquemas na internet, apesar de um dos seus associados ser um antigo diretor da Pintus & Company UK Ltd na Grã-Bretanha.

Osborn disse ao IRPI num e-mail que a GOSB não tem “relação com o Grupo Pintus” e que “o projeto das Nações Unidas, com aplicação em diversas nações dentro de África, foi afetado pela situação com os Muçulmanos/Islamish e as suas atividades terroristas... [sic]”. Não respondeu a pedidos para clarificar as suas afirmações.

Nome no papel

O embaixador disse a jornalistas que nunca tinha ouvido falar de Curio Pintus até o seu nome aparecer no contrato. Quando interrogado sobre por que assinou sem verificar nada, respondeu de forma bizarra: “Sou um embaixador. Não me é permitido fazer diligência devida.”

Mas Toriello devia ter sabido desde o início que Monti era uma fachada para Pintus. Se não sabia, foi seriamente enganado por quem trabalhava para ele.

Após a entrevista na zona oeste de Londres, Toriello interrompeu a sua colaboração com esta peça, exigindo que quaisquer discussões posteriores tivessem lugar no refúgio legal da sede das Nações Unidas em Nova Iorque.

Nessa altura, porém, testemunho de outras fontes começava a contradizer a história do embaixador. Em entrevistas separadas, Monti e Lauritano admitiram ter uma amizade de longa data. Disseram que Lauritano foi o instigador principal para trazer Pintus ao negócio, pedindo a Monti que convencesse o banqueiro da máfia a aderir.

Igualmente preocupante é que Lauritano conhecia a reputação criminosa de Pintus, embora menorizasse o problema, dizendo que em Itália “a Constituição diz que somos inocentes até à decisão final, como Pintus”.

Se Lauritano realmente acreditava na inocência de Pintus, deve ter obtido essa ideia do próprio. Ou de alguém próximo dele. Pintus jamais foi absolvido dos seus crimes financeiros relacionados com a máfia.

Nas suas respostas a perguntas de jornalistas sobre as estranhas manobras financeiras e a sua própria condenação por lavagem de dinheiro, Pintus disse: “Li a merda da sua mensagem... e afirmações difamatórias. A informação que está na sua posse é falsa e pode ser facilmente demonstrado e demonstrável que eu nunca sofri qualquer condenação por lavagem de dinheiro [sic]”.

Mas, aparentemente, não era assim tão fácil. Apesar de repetidas solicitações, Pintus não forneceu as provas que diz anularem a sua condenação, preferindo emitir uma bateria de ameaças judiciais.

Mas um terceiro, e final, julgamento contra ele foi analisado por três advogados diferentes, e todos confirmaram que, embora ele se tivesse conseguido livrar da acusação de “associação mafiosa”, ficará sempre condenado por lavagem de dinheiro.

Todos os homens de Pintus

Na verdade, Curio Pintus não é o único criminoso da empresa. O número dois, Stephen Richard Hill, um antigo advogado que dirigia a sua própria firma legal em Nova Iorque, Hill & Associates, tem pelo menos duas condenações, a primeira uns dois anos depois de se ter formado na Brooklyn Law School. Em 1971, foi condenado a um ano de cadeia pelo seu envolvimento num esquema de manipulação da bolsa na Florida, e em 2012 por ter roubado 18 mil dólares ao seu patrão. Depois disto, a New York State Bar Association, órgão regulador para advogados no estado, retirou-lhe a licença para praticar.

Hill também foi citado em 1999 na investigação “Clear Together” em Itália, onde Curio Pinto foi julgado por “associação mafiosa”. Viria a ser absolvido, e, embora Hill nunca tenha sido julgado, documentos judiciais diziam que era “um homem de confiança da família mafiosa Gambino em NYC”.

Respondendo às alegações contra Hill, Pintus disse que “nunca teve condenações como você descreve” e que o ia instruir para “apresentar imediatamente uma queixa contra si, vai ter de atravessar o mundo para se salvar desta nova difamação [sic]”. Hill não respondeu a e-mails, mas o seu registo criminal está documentado na NY State Bar Association e em documentos judiciais nos EUA.

Ao longo de vários meses, o embaixador recusou repetidamente fornecer uma cópia do contrato com Pincus. O Governo de São Tomé, juntamente com o seu embaixador sénior, Carlos Filomeno Agostinho das Neves, tem mostrado escasso interesse em lidar com as atividades de Toriello e Lauritano, as quais nesta altura já incluíam ameaças a jornalistas e mentiras aparentes para parar a investigação da história.

O estratagema de Lauritano foi uma alegação lunática de que estava a dirigir uma operação policial internacional contra Curio Pintus, envolvendo o FBI, a Europol, as autoridades antimáfia italianas, o Reino Unido e os “serviços secretos da Rainha” britânicos.

Mas se Lauritano está correto, então as agências citadas importam-se pouco com a exposição. O FBI, as autoridades antimáfia italianas e a ONU negam que haja qualquer investigação.

Instado a fornecer alguma prova, Lauritano recusou, dizendo a um jornalista: “Se eu for na sua direção, você vai-se magoar.”

O departamento de ética na ONU diz que esta não tem supervisão ou jurisdição sobre os embaixadores estrangeiros ou o staff deles — os quais, diz, respondem apenas ao respetivo país-membro.

A nomeação de Toriello por Costa em 2012 inquietou alguns deputados são-tomenses, segundo um funcionário do Governo que pediu para não ser identificado, dada a sua posição pública sensível. A decisão de ultrapassar o parlamento não foi inteiramente popular entre os parlamentares, que se diz terem recusado conceder a Toriello um passaporte diplomático.

Há outras razões para pensar que Toriello não é alguém adequado para um cargo público. Em especial, a sua (e de Lauritano) falta de qualificações académicas.

Ele gosta de se chamar um doutor, e diz ter um “background científico” e vários graus avançados. Segundo o seu website, paradoxxmedia.net, criado em 2011, uns meses antes da sua nomeação, ele tem um doutoramento em Filosofia da Criminologia e um mestrado em Direito, ambos obtidos em programas de ensino à distância. Descreveu-se recentemente dessa forma no prefácio a um livro intitulado “Os Aspetos Psicossociais de uma Epidemia Mortal. O que o Ébola Nos Ensinou sobre a Cura Holística”, escrito por uma antiga apresentadora de rádio, “Dr. Judy” Kuriansky, psiquiatra clínica e membro da Coligação Psicologia de ONG nas Nações Unidas, que supostamente funciona como consultora de Toriella.

O deão da universidade de Hartford, onde Toriello diz ter estudado nos anos 80, nega que ele alguma vez tenha sido estudante lá. Explicou aos jornalistas que a instituição não tem programas de ensino à distância.

Além disso, o tal mestrado em Direito de 2005 é da Dublin Metropolitan University (DMU) — uma ‘fábrica de diplomas’ dirigida por alguém com uma condenação por desvio de fundos, e que foi encerrada uns anos depois após o mestrado de Toriello por vender licenciaturas não acreditadas e sem valor, sobretudo a estrangeiros.

Do mesmo modo, Lauritano, que Toriello apresentou como médico no Concerto de Assistência ao Ébola, não tem qualificações médicas. O seu diploma em homeopatia não é formalmente reconhecido, tendo sido concedido pelo Clayton College of Natural Health no Alabama, uma universidade de ensino à distância especializada em “medicina alternativa”, que nunca teve acreditação e já fechou.

Quando Toriello cancelou o contrato com Pintus, não fez nenhum anúncio público nem fez um pedido de desculpas. Em privado, Toriello rejeita qualquer sugestão de que as suas ações prejudicaram os africanos, dizendo que “nunca foram traídos ou explorados... e não sofreram perdas ou consequências pelas minhas ações”.

E assim, um acordo multimilionário concebido para ajudar cidadãos da África Ocidental em dificuldades desvaneceu-se tão misteriosamente como tinha surgido. Nenhuma investigação oficial foi lançada, e nenhumas questões respondidas, sobre como um grupo de italianos conspiraram, por incompetência ou corrupção, para manipular um contrato a favor de um homem como Curio Pintus, destruindo pelo caminho um processo que podia ter salvo vidas. b
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Esta investigação foi apoiada por uma bolsa do JournalismFund

*Tradução de Luís M. Faria

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 4 julho 2016