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Atirador de Dallas deixou o exército norte-americano após acusação de abuso sexual

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HANDOUT/REUTERS

Micah Johnson, o jovem de 25 anos que matou cinco polícias em Dallas, na passada quinta-feira, foi descrito como “um solitário”, mas também como “um tipo calmo, descontraído e simpático”

Helena Bento

Jornalista

Micah Johnson, o atirador responsável pela morte, na quinta-feira, de cinco agentes da polícia de Dallas, no Texas, deixou o Afeganistão, onde esteve durante mais de um ano e meio, depois de ter sido acusado de abuso sexual de um mulher-soldado. A notícia foi avançada este sábado pelo “New York Times”.

A informação vem juntar-se às outras que foram já divulgadas sobre o jovem afro-americano de 25 anos que, na noite de quinta-feira, durante um protesto pacífico contra a morte de dois jovens negros pela polícia norte-americana, no centro de Dallas, abriu fogo sobre agentes da autoridade. Sabe-se que Micah Johnson esteve na reserva do Exército norte-americano entre março de 2009 e abril de 2015, que vivia num subúrbio de Dallas e não tinha cadastro criminal. Esteve no Afeganistão entre novembro de 2013 e julho de 2014, integrado na 420.ª brigada de engenharia de Seagoville, Texas, trabalhando como pedreiro e carpinteiro, áreas em que era especialista.

Foi durante esse período que foi acusado de abuso sexual de uma mulher-soldado, a qual pertencia à sua unidade, contou Bradford Glendening, o advogado militar designado para o representar nesse processo, ao “New York Times”. A queixa foi apresentada pela alegada vítima, que na altura sugeriu que Micah Johnson recebesse “tratamento mental” e pediu proteção judicial contra ele. “Não gostavam dele, isso ficou bem claro ao falar com o seu comandante", disse o advogado, que o aconselhou a renunciar ao direito de ter uma audiência. O jovem militar assim o fez, recebendo baixa do Éxercito em abril de 2015.

Depois do ataque de quinta-feira, em que foram atingidos cinco agentes da polícia (Patrick Zamarripa, 32 anos, Lorne Ahrens, 48 anos, Michael Krol, 40 anos, Michael J. Smith, 55 anos, e Brent Thompson, 43 anos), Micah Johnson barricou-se num edifício no centro da cidade. Disse ao agente responsável pelas negociações que estava a agir sozinho e que o seu objetivo era “matar brancos, sobretudo polícias”, porque estava “cansado do movimento Black Lives Matter [as vidas dos negros interessam, numa tradução livre], dos recentes tiroteios com polícias e dos brancos”.

Uma busca efetuada posterirmente pela polícia a sua casa revelou um arsenal militar composto por material para fabricar bombas, coletes à prova de balas, armas, munições e um bloco de notas com táticas de combate apontadas. Micah Johnson foi descrito à polícia como sendo “um solitário”. Israel Cooper, 19 anos, disse ao “Telegraph” que ele estava simplesmente “zangado” com o que acontecera dias antes aos dois jovens negros, mortos pela polícia sem razão aparente. “Ele disse que aquilo que os polícias brancos estavam a fazer sobre a população negra era genocídio e que a situação estava a ficar fora de controlo”. Micah nunca terá falado, no entanto, sobre qualquer ataque.

Israel Cooper e Micah Johnson costumavam jogar basquetebol várias vezes por semana num campo perto de casa de Micah. “Ele adorava basquetebol, era bom. A última vez que estive com ele foi na semana passada. Era um tipo simpático, descontraído. Não parecia capaz de fazer o que fez. Nunca o vi irritado”, disse Israel.

Uma vizinha, também em declarações ao “Telegraph”, disse que Micah vivia com a mãe desde criança. Moravam numa casa construída em tijolo ali em Mesquite, um subúrbio de classe média localizado na zona de Dallas. A mesma mulher disse que o jovem de 25 anos sempre lhe pareceu “um tipo calmo, normal”, mostrando-se até muitas vezes “protetor”. “Quando eu estava sozinha, ele perguntava-me se eu estava bem, se precisava de alguma coisa. Sempre que um de nós estava fora, o outro vigiava a casa para ver se estava tudo bem. Cumprimentava-me sempre. Via-o muitas vezes a correr aqui no bairro. Ele fazia muito exercício”.

A polícia está a investigar possíveis ligações de Micah Johnson a organizações e grupos afro-americanos, como o New Black Panther Party (considerado pela Anti-Defamation Leagueo maior grupo organizado anti-semita e racista dos EUA”) e a organização African American Defense League, que o jovem seguia no Facebook.

O ataque de quinta-feira, considerado o mais mortífero para as forças da autoridade desde o 11 de setembro, ocorreu perto de Dealey Plaza, onde John F. Kennedy foi assassinado em 1963, no centro da cidade. Barack Obama vai deslocar-se a Dallas no início da próxima semana, conforme foi anunciado este sábado. O Presidente norte-americano, que se encontra na Polónia para a cimeira da NATO, tinha previsto realizar uma visita de três dias a Espanha, mas decidiu encurtá-la e regressar um dia mais cedo do que o planeado a Washington.