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“Será que teria acontecido a mesma coisa se eles fossem brancos? Não creio”

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JONATHAN BACHMAN/reuters

Philando Castile e Alton Sterling, afro-americanos, morreram esta semana às mãos da polícia. Os vídeos das duas mortes, que ocorreram, respetivamente, nos estados do Minnesota e Louisiana, alcançaram as redes sociais e a população está chocada. O governador do estado do Minnesota fala em motivos raciais

Helena Bento

Jornalista

A ONU pediu esta quinta-feira aos Estados Unidos que investigue as duas mortes recentes de cidadãos afro-americanos às mãos da polícia. O pedido foi apresentado pelo porta-voz da organização, Stéphane Dujarric, em resposta a um pedido de comentário às mortes de Philando Castile, na quarta-feira, em Falcon Heights, no estado do Minnesota, e de Alton Sterling, na terça-feira, em Baton Rouge, no estado do Louisiana.

As mortes, ambas filmadas, desencadearam protestos acesos por parte das populações locais. Os vídeos foram descritos por Stéphane Dujarric como sendo “extremamente inquietantes”. O porta-voz da ONU espera que ambos os casos sejam “cuidadosamente investigados para descobrir o que aconteceu e determinar a existência de qualquer padrão”. Opinião semelhante revelou John Bel Edwards, governador democrata do estado do Louisiana, em relação ao vídeo que testemunha o momento em que Alton Sterling, de 37 anos, é imobilizado no chão por um agente da polícia, sendo depois atingido a tiro por ele. O vídeo é, “no mínimo”, “perturbador”, afirmou o governador.

O vídeo terá sido filmado pelo dono da loja frente à qual Sterling estava a vender CD, em Baton Rouge, capital daquele estado. Os agentes foram alegadamente chamados ao local por um anónimo, que disse ter sido ameaçado por um homem negro de t-shirt vermelha com uma arma de fogo. Num outro vídeo divulgado nas redes sociais, vê-se um dos agentes a tirar qualquer coisa do bolso de Sterling. Mais tarde, o mesmo dono da loja dirá que aquilo que a polícia retirara do bolso da vítima era uma arma, embora não haja provas de que esta tenha sido apontada a algum dos agentes.

Philando Castile, 32 anos, morreu no dia seguinte, quarta-feira, na pequena cidade de Falcon Heights, no Minnesota, depois de ter sido mandado parar por dois agentes da polícia por causa de um farol partido, durante uma operação stop. No mesmo carro, seguiam duas outras pessoas, a sua filha de quatro anos e Diamond Reynolds, que se identificou como sendo sua namorada. Foi ela que filmou o momento em que Castile é atingido a tiro pelos agentes da polícia, depois de ter avisado que a sua carta de condução estava na carteira, que, por sua vez, estava no bolso das calças, explica Diamond Reynolds, no vídeo. Castile também terá dito aos agentes que tinha uma arma consigo, já que a sua licença de porte arma assim o permitia. “[O polícia] disparou sem razão aparente, sem razão nenhuma”.

“Ele disse-lhe que [a carta] estava na carteira, mas que tinha uma pistola consigo porque tinha licença de porte de arma”, prossegue Reynolds. “O agente disse-lhe para não se mexer. À medida que ele punha as mãos de volta no volante, o agente disparou contra o seu braço umas quatro ou cinco vezes”, diz a mulher no vídeo, enquanto, ao fundo, se ouve o polícia a dizer: “Eu disse-lhe que não a fosse buscar. Eu disse-lhe para pôr as mãos onde eu as visse.”

Em declarações ao “New York Times”, Jon Mangseth, chefe da polícia local, disse que não podia revelar quaisquer detalhes sobre o incidente, mas garantiu que os agentes envolvidos no caso foram suspensos.

Numa mensagem publicada no Facebook, o Presidente norte-americano Barack Obama lamentou o sucedido e fez questão de sublinhar que não estamos perante “incidentes isolados”. “Eles são sintomáticos das disparidades raciais que existem no nosso sistema judicial e resultado da falta de confiança que existe entre as forças policiais e as comunidades que elas servem”.

Menos cuidadoso na escolha das palavras foi o governador do estado do Minnesota, Mark Dayton, que disse não ter dúvidas que a morte de Philando Castile deu-se por motivos raciais. “Será que teria acontecido a mesma coisa se os passageiros e o condutor fossem brancos? Não creio. Por isso, tanto eu como a população do Minnesota somos forçados a concluir que este tipo de racismo existe”, disse o governador, citado pelo “Washington Post”.