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Refugiados sem dinheiro para pagar a traficantes estão a ser “vendidos pelos seus órgãos”

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GABRIEL BOUYS/GETTY

Eritreu condenado a cinco anos de prisão em Itália por tráfico humano decidiu confessar tudo quando soube do alto número de naufrágios e mortes no Mediterrâneo. Em troca das informações, foi integrado no programa de proteção de testemunhas

Os refugiados que não têm dinheiro para pagar aos traficantes para atravessarem o Mediterrâneo até território europeu estão a ser mortos pelos seus órgãos, sendo "vendidos por 15 mil euros a grupos, em particular de egípcios, que estão preparados para a recolha de órgãos".

A informação foi avançada à polícia italiana por Nuredein Wehabrebi Atta, um homem eritreu que foi detido e recentemente condenado a cinco anos de prisão pelo seu envolvimento no tráfico de refugiados e migrantes oriundos de África com destino ao continente europeu.

De acordo com o "The Independent", o testemunho de Atta ajudou as autoridades a desmantelarem uma rede transnacional de tráfico humano, com a polícia italiana a confirmar que deteve um total de 38 pessoas sob suspeita de envolvimento no crime, incluindo 25 eritreus, 12 etíopes e um italiano. O ministro italiano do Interior, Angelino Alfano, garante que as autoridades desferiram "um duro golpe" à rede criminosa, que usava Roma como centro das suas transações financeiras.

Em comunicado, a polícia de Palermo explicou que um dos homens da Eritreia detidos em 2014 aceitou colaborar com as autoridades e que foi graças a isso que as autoridades conseguiram pela primeira vez "ter uma ideia total das atividades criminosas" envolvidas nas operações de tráfico humano tanto no norte de África como em Itália.

Atta tornou-se no primeiro estrangeiro a ser integrado no programa de proteção de testemunhas italiano ao aceitar revelar tudo o que sabia dessas operações. À polícia, o homem disse que decidiu confessar os crimes ao saber do número chocante de mortes na travessia do Mediterrâneo, em particular ao ouvir que 360 pessoas morreram num só naufrágio ao largo de Lampedusa em 2013, um incidente no qual não esteve envolvido.

"O número de mortos de que tínhamos noção era apenas uma pequena parte do total", terá dito à polícia, citado pelo "La Repubblica". "Só na Eritreia tem havido vítimas em oito de cada dez famílias." Por causa da situação desesperante, muitos eritreus estão a fugir para a Europa, pagando a traficantes enormes somas pela travessia do Mediterrâneo ou, no caso de não terem dinheiro, sendo vendidos para tráfico de órgãos.

O número de refugiados na Europa e no resto do mundo continua a aumentar. No final de 2015, o balanço de pessoas forçadas a abandonar as suas casas ou os seus países por causa de guerras e repressões violentas voltou a atingir recordes, registando-se um total de mais de 65 milhões de refugiados e deslocados. O número equivale a uma pessoa tornar-se refugiada a cada 24 minutos ou 34 mil pessoas por dia, apontou a ONU no seu mais recente relatório.