Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Raptos, tortura e execuções sumárias. Métodos de Assad são copiados por grupos da oposição

  • 333

Combatente da Jabhat al-Nusra num olival a sul de Idlib

© Khalil Ashawi / Reuters

Na Síria, em áreas controladas pela oposição a Bashar al-Assad, os civis não estão a salvo de atrocidades. Um novo relatório da Amnistia Internacional denuncia os abusos cometidos por grupos armados afetos à oposição

Margarida Mota

Jornalista

No conflito da Síria, ninguém cumpre as regras da guerra. Grupos jiadistas e movimentos afetos à oposição levam a cabo formas de abuso semelhantes aos métodos de tortura atribuídos às forças leais ao Presidente Bashar al-Assad, denuncia, esta terça-feira, um relatório da Amnistia Internacional.

“As forças do Governo têm sido responsáveis pela maioria das violações, incluindo crimes de guerra e crimes contra a humanidade, sujeitando dezenas de milhares [de pessoas] a detenções arbitrárias, tortura e outros maus-tratos e desaparecimentos forçados”, lê-se no documento. “No entanto, os abusos por parte de grupos armados não-estatais têm agravado o sofrimento dos civis. Os grupos armados que se opõem ao Governo sírio praticaram violações graves do direito internacional humanitário, incluindo sequestros, tortura e execuções sumárias.”

O documento — intitulado “A tortura foi o meu castigo” — tem na sua origem entrevistas a 70 pessoas que vivem ou trabalham na província de Idlib e partes de Alepo, áreas controladas por rebeldes, no noroeste da Síria.

Um deles é Ibrahim (nome fictício), que afirma ter sido raptado pelo grupo islamita Jabhat al-Nusra — o braço da Al-Qaeda na Síria —, em 2015. “Eu tinha ouvido e lido sobre as técnicas de tortura das forças de segurança governamentais. Pensei que estaria protegido disso, dado que moro numa área controlada pela oposição. Estava enganado. Fui sujeito às mesmas técnicas de tortura às mãos da Jabhat al-Nusra”, testemunhou.

Segundo o relatório, as formas de tortura atribuídas a grupos da oposição incluem o espancamento com objetos, as posições “shabeh” (a vítima fica suspensa do teto pelos pulsos durante horas) e “dulab”, em que a vítima é enfiada num pneu (a cabeça fica colada aos joelhos) sendo depois espancada.

Ouvir certa música é perigoso

Para além da Jabhat al-Nusra, o relatório enumera mais quatro grupos armados implicados em relatos de atrocidades sobre civis: a Frente al-Shamia, o Movimento Nour al-Dine Zinki e a Divisão 16, em Alepo (membros da coligação Conquista de Alepo), e a Jabhat al-Nusra e o Movimento Islâmico Ahrar al-Sham, em Idlib (que integram a coligação Exército da Conquista).

“Alguns destes grupos, compostos predominantemente por cidadãos sírios, foram controlando áreas cada vez maiores da cidade de Alepo, de Idlib e arredores, entre 2012 e 2015, e permaneceram no poder nessas zonas até hoje com o apoio de Governos como do Qatar, Arábia Saudita, Turquia e Estados Unidos”, lê-se no relatório. “E ao fazerem-no, estabeleceram instituições administrativas e quase judiciais.”

Se, numa fase inicial deste conflito, muitos civis terão sentido alívio quando as suas áreas de residência caíram nas mãos de grupos que combatiam o regime de Damasco, hoje muitos civis vivem num medo constante de serem raptados. Basta serem apanhados a criticar esses grupos ou a não cumprirem as estritas normas sociais por eles impostas.

Imad (nome fictício) relatou à Amnistia Internacional um ataque à Rádio Fresh, uma estação da cidade de Kafranbel, no norte da província de Idlib, a 10 de janeiro passado: “Alguns combatentes da Jabhat al-Nusra invadiram a estação às sete da manhã. Eu vi os carros, tinham o logotipo deles estampado nas portas. Confiscaram e destruíram algum equipamento e começaram a gritar que nós estávamos a passar música inapropriada na rádio. Nós passávamos canções revolucionárias ou então da Fairuz [uma cantora libanesa muito popular em todo o mundo árabe]. Prenderam dois funcionários. Durante dois dias não soubemos deles. Depois foram libertados após ‘confessarem’ terem praticado o mal. Continuamos a passar música mas muito menos do que anteriormente. Estamos mais cautelosos”.