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Merkel pode forçar Juncker a abandonar liderança da UE no próximo ano

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Chung Sung-Jun

Estão a aumentar as pressões ao atual líder da Comissão Europeia no rescaldo do referendo de 23 de junho no Reino Unido, que deu a vitória ao Brexit. Governos da República Checa e da Polónia já exigiram publicamente a demissão do chefe do executivo europeu

A frustração da chanceler alemã com as atitudes do chefe da Comissão Europeia está a crescer desde que uma maioria da população britânica votou a favor da saída do Reino Unido da União Europeia, em referendo realizado há duas semanas. De tal forma que, dizem fontes da chancelaria, Angela Merkel poderá forçar a demissão de Jean-Claude Juncker "no próximo ano".

A informação foi avançada por um ministro do Governo alemão, sob anonimato, ao "The Sunday Times": "A pressão sobre ele [Juncker] para se demitir só vai aumentar e a chanceler terá eventualmente de lidar com isso no próximo ano", revelou este domingo a fonte governamental, dizendo que a chanceler está "furiosa" com a atitude "gabarolas" de Juncker perante o resultado do referendo.

Desde que a consulta popular britânica de 23 de junho deu a vitória ao Brexit, os países do chamado Grupo de Visegrado –Hungria, Polónia, República Checa e Eslováquia – têm aumentado as pressões sobre o chefe do executivo europeu, conhecido federalista, para que se demita, com os ministros dos Negócios Estrangeiros polaco e checo a exigirem-no publicamente no rescaldo do referendo. O grupo de Visegrado é a mais forte coligação de países da periferia a contrariar os pedidos de "mais Europa" feitos pela Comissão Juncker, entre outros motivos para combater as quotas de acolhimento de refugiados.

Antes de ter sido nomeado presidente da Comissão Europeia, sob forte oposição do primeiro-ministro britânico David Cameron, Juncker já angariava alguma descrença entre os líderes políticos europeus, em parte por causa do seu consumo excessivo de álcool, uma crítica que foi classificada pelos membros da sua equipa como uma "campanha de difamação".

A questão do alegado alcoolismo de Juncker ressurgiu no ano passado, quando numa cimeira da UE em maio o líder da Comissão Europeia cumprimentou o primeiro-ministro húngaro VIktor Órban, com um "olá ditador" antes de lhe dar uma pequena estalada na cara.

Apesar das pressões do grupo de Visegrado sobre Juncker, as declarações da fonte do governo de Merkel representam uma maior ameaça ao mandato do presidente do executivo europeu, havendo cada vez mais oficiais em Bruxelas a defender a exclusão da Comissão das negociações de saída do Reino Unido.

"Toda a gente está empenhada em que estas negociações sejam geridas pelo Conselho Europeu – isto é, entre os 27 chefes de Estado e de Governo dos Estados-membros – e não pela Comissão, pelos eurocratas ou pelos 'teólogos' da UE em Bruxelas", avançou uma fonte do Governo britânico ao "Telegraph". A sinalizá-lo está o encontro da semana passada entre Merkel e os líderes de França e de Itália para discutir o Brexit, uma reunião para a qual Juncker não foi convidado.

Ao mesmo jornal, uma fonte que esteve presente num encontro de oficiais da UE disse que a Comissão não está interessada em lutar com o Conselho para assumir o papel de "negociadora-chefe" da saída do Reino Unido da UE, que continua para já em dúvida.

As cisões dentro da União Europeia estão a criar duas barricadas distintas, uma liderada pelos líderes de França e da Bélgica, que tal como Juncker querem uma maior integração europeia, e outra por Merkel e o seu poderoso ministro das Finanças, Wolfgang Schäuble, que são contra a estratégia de "mais Europa".

A vitória do Brexit no referendo está a levar o Governo francês de François Hollande a "salivar" com a possibilidade de o centro financeiro europeu, até agora localizado a Londres, se mudar para Paris, apontam os media.

Manuel Valls, o primeiro-ministro francês, já disse que está a trabalhar para que seja Paris e não Dublin ou Frankfurt a assumir o papel de local mais atrativo para as empresas que pretendem mudar a sua sede para fora de Londres, como a Ryanair. "Às grandes empresas internacionais eu digo 'Bem-vindas a Paris! Venham investir em França", declarou na semana passada.

Por causa das pressões francesas e italianas por uma maior integração europeia, que para a chancelaria alemã deverá traduzir-se em maiores encargos financeiros para Berlim com as economias do sul, Merkel está a exercer pressão em Bruxelas para que o Reino Unido tenha tempo para negociar a sua saída da UE, contra as pressões de Juncker, França e outros países para que a saída seja "rápida".

Ao mesmo tempo, aponta o "Telegraph", a Alemanha está a formar uma coligação de bastidores com a Polónia e outros Estados do Báltico e do Leste europeu para lutar contra os pedidos de maior integração feitos por França, Itália e Bélgica.